quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Um Jesus na lapa... que veio a nós todos salvar?"

por Liszt Rangel
A questão apresentada nesses dois versos da canção, Noite Feliz, tem estreita ligação com os arranjos posteriores feitos pela Igreja. Essas concepções do nascimento na lapa, passando a ideia da pobreza mais uma vez, e acima de tudo ligando Jesus à promessa de um Messias Salvador tem a marca dos copistas gregos à serviço de uma religião chamada Cristianismo.


A lapinha tão "bonitinha" que ornamenta hospitais, praças, shoppings e o interior das residências cristãs, recebeu o nome de presépio. A ideia tomou forma, em verdade, no século XIII, quando Francesco da cidade de Assisi, na Itália, teria solicitado ao Papa Honório III para trazer ao povo do campo, naquele ano de 1223, na floresta de Greccio uma concepção mais simples do nascimento de Jesus. A cena teve traços sobrenaturais, aparecendo uma criança no colo de Francesco, e é supostamente atestada por Tomasso de Celano, um dos biógrafos do Santo, em 1229. Porém, vale salientar que há controvérsias sobre essa biografia. O vaticano afirma que os restos do presépio criado por ele, encontram-se, atualmente, na Igreja de Santa Maria Maior, em Roma.


Entretanto, acima da vontade ou da crença de Francesco paira uma teologia fundamentada em vários concílios ao longo dos séculos. A concepção de um Jesus Salvador teve que ser bem amarrada nas escrituras dos judeus, em especial nos antigos profetas que anunciaram a chegada do Messias. Foi nestes textos que a Igreja assegurou a fé no messianato de Jesus e para chegar ao tal presépio. É fácil observar este arranjo nos seguintes deslocamentos das passagens encontradas em Isaías, 1,3:

"O boi conhece o seu dono, 
e o jumento, a manjedoura de seu senhor,
mas Israel é incapaz de conhecer,
meu povo não é capaz de entender.


Percebe-se de forma nítida que a partir desta construção, sedimenta-se o presépio. Porém, algo começa a tomar forma, a se estruturar e esta passagem irá se alinhar, tornar-se uma amálgama ao lado de outras que servirão para evocar Jesus como o Messias, como o Servo Sofredor, e como Deus. (RANGEL 2013). Sim, porque os judeus chamam a Deus de O Senhor, então, a teologia cristã apropriou-se desta expressão também para referir-se a Jesus. Como se já não bastassem os dogmas, em especial, o da Divindade de Jesus e o da Santíssima Trindade, ele, Yehoshú'a, passa a desaparecer sem deixar vestígios e, gradualmente, nasce o Cristo da Fé.


A concepção de um Jesus que morre para salvar a Humanidade não surge do evangelho atribuído a João. Ela é bem mais antiga. A ideia do messias, na expressão de um judeu chamado Menahen, que levantou a esperança de um Consolador Prometido, tratava-se, também, de um revolucionário que após ser assassinado por Roma, seu corpo ficou ao relento por três dias. Os mesmos três dias que se repetem na ressurreição do Cristo da Fé. A crença em torno deste revolucionário que fora central na comunidade dos essênios do século II a.C. ao II d.C está bem descrita nos Manuscritos do Mar Morto.(RANGEL, 2013). 


Entre muitos argumentos que provam a pseudo-originalidade do evangelho atribuído a João, há o fato de tanto o rapaz quanto Pedro são tomados como analfabetos, segundo os Atos dos Apóstolos, 4,13. (RANGEL, 2008). E o consagramento do Jesus Salvador, assemelha-se ao Cordeiro sacrificado pelos judeus, daí o nascimento da expressão que visa marginalizar os judeus até hoje e culpá-los pela morte de Jesus, quando os cristãos chamam o Salvador de, O Cordeiro de Deus. Também não é difícil perceber que Jesus, de fato, é colocado pela Igreja como aquele que veio se sacrificar, derramar o seu sangue em favor da Humanidade, a fim de despertar a fé nele como Salvador, como se lê em João, 3,16:

"Pois Deus amou tanto o mundo,
que entregou o seu Filho único,
para que todo o que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna."

Então, sobram algumas perguntas básicas. Se Jesus foi o único Filho de Deus, os demais homens e mulheres são filhos de quem? E tem mais, e aqueles que nele não creem, irão para qual vida? Se não irão para a Eterna, acabarão com a efêmera? Ou seja, irão desaparecer com a morte?

BIBLIOGRAFIA: 

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

RANGEL, L. O Cristianismo de Yehoshú'a - A Busca Pelo Evangelho Perdido. Recife: Bom Livro, 2008

________, L. Jesus Além da Crença. Recife: Bom Livro, 2013.





domingo, 27 de dezembro de 2015

Por que Belém? - Outros erros na Bíblia?

por Liszt Rangel
As narrativas encontradas nos evangelhos atribuídos a Mateus e a Lucas situam o nascimento de Jesus em Belém, na Judeia. Todavia, não são poucos os pesquisadores que tomaram por princípio que de fato, o nascimento dele teria ocorrido na Galileia, em Nazaré, ou em suas proximidades.


Mas por que, então, ensinaram que ele teria nascido em Belém?


Sobre este assunto, muitos preferem não tomar conhecimento, segundo o argumento de que não importa onde ele nasceu, mas sim o que ele fez. Os defensores deste pensamento são em sua maioria cristãos. Porém, surgirá sempre esta pergunta: e se, realmente, as pesquisas arqueológicas e históricas, como também, as teses dos que se dedicam há décadas aos estudos críticos da Bíblia, estiverem corretas? E se ele não nasceu em Belém, mas na Galileia?


Neste artigo não haverá espaço para o debate em torno dos aspectos sombrios em que sua mensagem e seus feitos foram envolvidos. Ainda não! Todavia, se há uma fé sólida e robusta em Jesus, como sendo o "Cristo", por que temer as pesquisas? Por que fazer de conta que as descobertas científicas não se referem a ele? Por que todos os resultados deste material pesquisado serão rejeitados? É ou não é a fé dos cristãos, capaz de ser maior do que um "grão de mostarda"? Ou o suficientemente lúcida para "encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade"?


Os escritores dos evangelhos de Mateus e Lucas apesar de narrarem o mesmo episódio, fazem isto com muitas diferenças. Entre elas, encontram-se os reis magos que estão em Mateus, mas que são substituídos por pastores em Lucas; em Mateus há uma estrela que anda, mas em Lucas é um anjo que dá a notícia do nascimento do "Salvador"; Mateus não fala de três magos, alguém concluiu isto pelo fato de terem sido deixados três presentes: ouro, incenso e mirra; em Mateus, Jesus já nasce em Belém, mas em Lucas os seus pais vão de Nazaré para Belém, devido a um recenseamento que um governador da Síria estava fazendo e depois que o menino completou oito dias de nascido, foi circuncidado e os pais, então, voltaram para Nazaré, a cidade natal deles; porém, em Mateus, o menino e os pais fugiram para o Egito e depois foram morar em Nazaré.


As diferenças continuam, mas para não perder o foco do assunto, a pergunta feita, anteriormente, volta com mais força e sentido: por que Belém?


Com a perda do poder em Israel, que se viu abandonada com a morte de Davi e de seus descendentes, os profetas e o povo passaram a alimentar a esperança ilusória que o restaurador político, o líder das massas aflitas, o estrategista militar, ou como conhecemos, o Messias teria que reivindicar seu trono trazendo a marca da Casa de Davi, ou seja, ele teria que ser descendente de Davi e ainda ter que nascer em Belém, na Judeia, mesmo local de Davi.


Teria sido proposital, então, que os escritores dos evangelhos tenham colocado o nascimento de Jesus em Belém? Em quais argumentos se baseiam para esta suspeita? Ou tudo seria apenas pura provocação de pessoas que querem aparecer na mídia? Mesmo que isto seja real, por que os cristãos temem tanto esta confirmação?


Quando se tem nas mãos a narrativa de Lucas, encontra-se um erro grave do ponto de vista histórico. O censo realizado por Quirino, segundo estudiosos, teria ocorrido durante ou após o ano 6 d.C. e a estrutura política de dominação romana era menos burocrática do que se encontra na narrativa. Quem trabalhasse em Nazaré, por exemplo, teria que se cadastrar em um distrito responsável por Nazaré, que naquela época era a cidade de Séforis, onde inclusive, já realizamos algumas pesquisas. (RANGEL, 2007).


Um outro ponto importante é que enquanto Herodes foi rei, instituído por Roma, ele não era obrigado a aceitar um censo, pois Roma não agia assim com reis clientes. Então, para aqueles fervorosos cristãos que ainda insistem na veracidade do censo, é lamentável informar que nem após a morte de Herodes em 4 a.C, durante o governo de seu filho Arquelau que foi deposto em 6 d.C, houve um cadastro de famílias com finalidades tributárias. Isto ocorreu após Quirino assumir o cargo para organizar a bagunça deixada por Arquelau. Portanto, depois do ano 6 d.C. E mesmo assim, isto ocorreu para os que viviam na Judeia e não para a Galileia, pois esta era governada por outro filho de Herodes, o Antipas, ou seja, o acordo de não intervenção tributária ainda vigorava. (VERMES, 2007).


Conclui-se, então, que, se era em Nazaré que estava a produção de dinheiro e os bens da família, não há qualquer base para aceitar uma viagem cansativa. A suposta viagem, partindo desta vila para Belém, considerando a distância e os perigos para uma mulher em alto estado de gestação, sentada em cima de um jumento como é descrita na "estorinha do presépio", não passa de uma lenda e diga-se de passagem muito bem arranjada nos profetas antigos.


Uma outra questão que se refere à profecia do nascimento em Belém, encontra-se em Mateus. Herodes manda chamar os escribas e estes lhe revelam a profecia do Messias, dizendo ao rei que o herdeiro de Davi viria de Belém. Observe na narrativa que ao invés de Herodes mandar seguir os magos, ele simplesmente aguarda que eles voltem com a notícia do local exato do nascimento para que ele pudesse "reverenciar o Messias", na verdade, matá-lo. Quem conhece os inúmeros relatos históricos e biográficos acerca de Herodes sabe que ele teria mando seus soldados seguirem os magos e matarem a criança.


Não foi em vão que, de forma irônica, o Imperador Augusto, sobre Herodes chegou a dizer: "É melhor ser um porco de Herodes do que seu filho." Isto se explica pelo fato dele ter mando matar alguns filhos, bem como sua amada esposa, Mariamne, e vários membros de sua corte, pois tinha paranoia de perder o trono. Também na frase inteligente de Augusto, está a explicação de como Herodes tentava se passar por judeu para ser aceito como rei, pois ele havia, até, deixado de comer carne de porco. (RANGEL, 2011).


Os defensores fervorosos da autenticidade histórica dos evangelhos, dizem que Lucas como bom pesquisador não pode ter cometido erros. No entanto, ninguém consegue explicar porque Lucas ou quem escreveu Lucas não narrou o infanticídio supostamente ordenado por Herodes. Mateus o narrou, por que Lucas não? Se foi fato histórico, como isto passou-lhe despercebido? A resposta, talvez, esteja no fato de que, até hoje, não há uma linha documentada que comprove tal chacina com crianças abaixo de dois anos.


Porém, a pergunta continua de forma insistente: por que Belém?


Mateus parece dar a resposta. Encontra-se no capítulo 2, versículo 6:
"E tu Belém, terra de Judá,
de modo algum és o menor entre os clãs de Judá,
pois de ti sairá um chefe
que apascentará Israel, o meu povo."


O que fica claro, então, é que o autor de Mateus percebe a necessidade de ligar Jesus a Davi, até no ponto quando usa o verbo "apascentará". Quem apascenta, apascenta rebanho de ovelhas. E quem faz isto, é pastor. Davi era pastor. Na tradução grega desta mesma passagem, não há a palavra "apascentará", usada habilmente pelo autor de Mateus. Depois de ter dito que o menino nasceu em Belém, Mateus precisa arranjar uma justificativa para ligar Jesus e seus pais a Nazaré, usando para tal, a volta deles do Egito. E foi aí que surgiu outro erro bíblico. Ele evoca a profecia de profetas desconhecidos nas escrituras do Antigo Testamento para dizer, no capítulo 2, versículo 23:
"Ele será chamado Nazareu"


Não há qualquer profecia no Antigo Testamento que traga esta proposta. Ou seja, quem escreveu isto em Mateus, deu um jeitinho para criar algo do nada. Além do mais, "nazareu""nazareno", são palavras com significados bem distintos. A primeira diz de alguém que não corta os cabelos, não bebe vinho e vive como asceta, abstendo-se, inclusive, de sexo. Sansão é mencionado na Bíblia como um nazareu, porém só não cortou o cabelo, mas o resto ele fez tudo que tinha direito... Nazareno é de quem vem de Nazaré. Os dois evangelistas parecem saber que Jesus era de Nazaré. Tanto Jesus como seus amigos eram conhecidos como nazarenos. Não há, então, justificativa para chamá-lo, "Nazareu", a não ser uma outra que deseja colocá-lo como divino, distante do mundo dos homens.


E então, por que Belém? Ao que parece está mais do que óbvio. É para validar o messianato de Jesus.


Mas pesquisar isto, é importante por quê? - perguntam os cristãos.


É que, pensando direitinho, talvez isto explique o quanto houve manipulação e por onde a sua mensagem começou a ser adulterada, para que ele fosse aceito como o Messias. Mas isto leva inevitavelmente a outra pergunta: se o Messias teria que ser de Belém, mas até agora nada prova que Jesus nasceu lá, como pode ser ele o Messias? Sem esquecer das inúmeras características de uma personalidade bélica que um Messias deveria ter, e que não se encontram em Jesus. (RANGEL, 2013).


Para os cristãos de "muita fé", isto não muda coisa alguma, não é mesmo? Então, para que pesquisar? Por que proibir pessoas de falarem sobre isso? E por que temer alguma descoberta?


Talvez a resposta esteja em, "se eu descobrir que tudo não passou de uma farsa o que farei com o que acredito?" Outra resposta é mais grave para tal comportamento e seria esta, "como dominarei os que não pensam e assim estas pessoas deixarão de me reverenciar, porque elas terão o conhecimento e eu não serei útil para mais nada..."


Será que a perversidade cristã chegaria a este ponto? Isto não poderia vir de cristãos, acho que não... Será?


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

RANGEL, L.. Eu sou Yehoshú'a. Recife: Bom Livro, 2007

________, L. Por que Jesus? - Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Recife: Bom Livro, 2011.

________, L. Jesus Além da Crença. Recife: Bom Livro, 2013.


VERMES, G. Natividade. Rio de Janeiro: Record, 2007

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

"Pobrezinho nasceu em Belém," - O culto cristão à pobreza!

por Liszt Rangel
Há uma grande diferença entre ser pobre e ser miserável. A condição social, de natureza econômica, não tem implicações com caráter, com ética, muito menos com uma posição de salvação da alma na hora da morte. Para a Igreja, a disseminação do menino pobre, em miséria, acalenta a estrutura de poder, do acúmulo de terras através das doações da nobreza à Santa Sé.


Em algumas escavações arqueológicas feitas em antigos cemitérios na Europa que datam do período medieval, foram encontrados manuscritos dentro dos esquifes dos nobres. As cartas escritas por sacerdotes dos principados, convidados pelo afortunado moribundo na hora que lhe pressagiava a morte, tinham como objetivo absolvê-lo da culpa por ter usufruído sozinho dos bens materiais e assim, se negado a compartilhá-los com a Igreja. 


Na hora da extrema unção, o representante da Igreja negociava a salvação da alma do nobre, garantindo-lhe um lugar no Paraíso. Mas, para tal, o doente precisava de uma prova e a Igreja de um gesto seu de desprendimento. A carta era, portanto, redigida a São Pedro e nela os pesquisadores encontraram palavras em que o Bispo pedia ao chaveiro responsável pelo Céu, nesse caso, Pedro, que acolhesse aquela alma, pois ela havia se arrependido de seus pecados e em ato de generosidade, havia doado seus bens ao patrimônio da religião de Deus, o Cristianismo.


A salvação dos ricos até hoje se dá às custas dos pobres. E ser protegido pela Igreja, ora aliada do Estado, ora o próprio Estado seria um conforto para gozar, permitir-se à falta de ética e à corrupção dos bons costumes. Os pobres, por sua vez, ficavam com as sobras do que os nobres e a Igreja pudessem lhes conferir. Ou seja, é bom ter pobres, porque assim fazendo a caridade, dando esmolas, somos abençoados por Deus. Ou até, como preferem interessadamente alguns cristãos mais modernos que disseminam a prática da caridade para se livrarem de inimigos espirituais ou para serem acolhidos após a morte em colônias no além.  


Nesse sentido, um Jesus Cristo pobre serve como modelo de submissão e obediência, e consequentemente, como uma segunda senha para entrada no Reino de Deus, pois "Bem-Aventurados são os Pobres de Espírito". A tradução grega e latina, bem distinta do pensamento judaico, destoa não só na palavra mas, em especial, no sentido. 


Segundo (CHOURAQUI 1996), uma das maiores cabeças da teologia do século XX e XXI, que com apenas vinte anos de idade começou a traduzir os evangelhos, "O Sermão da Montanha não foi pronunciado por Iéshoua' no texto grego transmitido por Mateus e Lucas, mas em hebraico ou, menos provavelmente, em aramaico." André Chouraqui morreu em 2007, mas até hoje, é uma das fontes mais procuradas pelos israelenses e também um dos pesquisadores mais respeitados, tendo se tornado membro de importantes comunidades na Europa, em especial na França e em Israel, que tratam da exegese bíblica e do Cristianismo. 


Para Chouraqui é indispensável consultar os Manuscritos do Mar Morto para entender como um judeu, tal qual Yehoshú'a pensava na Palestina do século I. "Os Bem-Aventurados" em grego, leva o indivíduo, inevitavelmente, a uma postura ao mesmo tempo egocêntrica e masoquista por querer sofrer como gozo em plenitude no Reino dos Céus. Então, assevera Chouraqui (1996), "Makariori (bem-aventurado), segundo o texto grego, orienta todos os tradutores na pista errada de supostas beatitudes adquiridas por antecipação, enquanto que elas só serão realizadas plenamente no reino de IhvV. (Jeová)". - Grifo nosso. 


Como se percebe, sem uma leitura histórica, não é possível chegar sequer perto de uma suposição do que de fato teria dito Yehoshú'a. Quando se trata de traduções, todo cuidado é pouco, pois não há originalidade nesses textos. E ainda tem gente que afirma que traduziu os Evangelhos de fontes originais gregas... Imagine, o desastre!  


Chouraqui (1996) continua a sua aula explicativa, "Felizes, bem-aventurados, repetem todos os tradutores de todas as línguas e dialetos de todos os séculos, exemplo típico de uma interpretação que aplica em uma palavra supostamente conhecida um sentido diferente daquele que tinha originalmente." Já em hebraico, observando uma leitura atenta na tradição judaica, a frase fica, "Em marcha, humilhados do sopro! Sim, deles é o reino dos céus".


A explicação é viável dentro de uma conjuntura opressora por parte de Roma, e também nas origens judaicas encontradas nos textos das Cavernas de Qunrã. Como se observa nos textos da Regra da Guerra, 1 QM XIV, 7, ser sagrado no sopro, ou no espírito, é compreender a grandiosidade de si enquanto essência e de tudo mais que conspira no Universo para o crescimento do Ser, mesmo diante de toda perseguição no cenário instaurado por Roma, ainda que às custas de humilhação. Esse mundo de espíritos pobres não entende, nem sente o mundo dos humilhados do sopro de Yehoshú'a. 


Yehoshú'a não se preocupa com o mundo material, mas lança uma perspectiva de esperança às pessoas desoladas, perdidas e perseguidas que buscam ouvir suas palavras. Ele também não incita às massas a uma rebelião como era de se esperar do Messias. (RANGEL, 2013). Em seu discurso, ele deseja que o povo marche, siga adiante, apesar de tudo e de todos! Em sua postura, não há culto à pobreza, muito menos exaltação a uma felicidade utópica, em um lugar onde só existe dor e sofrimento. Como bem lembra Chouraqui (1996), "Iéshoua' não tem a crueldade de declarar "felizes" a multidão de deserdados, de opositores condenados pelas legiões romanas, por qualquer coisa que digam ao suplício da cruz ou, na melhor das hipóteses, à escravidão nas galés, ou nos bordeis do Império."


Segundo Lucas, 2, 22-25, diz que aos pobres é permitido após o nascimento da criança, consagrá-la com a oferta de um casal de pombinhos. Sabe-se que os miseráveis e desempregados, os perseguidos não tinham nada o que oferecer, ao contrário, dos ricos que podiam ofertar até ovelhas. A família desaparecida de Yehoshú'a se sustenta com o ofício de construtor de casas de seu pai, Yussef, seguido pelo seu filho mais velho, nesse caso, ele, Yehohú'a e levando consigo os demais irmãos para trabalhar nas pedreiras de Nazaré. Aquelas mãos antes de receberem os pregos, já haviam conhecido os calos de sangue.


Quanto a ter nascido em Belém... Por que Belém? Ah, isso já é uma outra história...


BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulus, 2003.

CHOURAQUI, A. A Bíblia - Matyah (O Evangelho Segundo Mateus). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996.

RANGEL, L. Jesus Além da Crença. Recife: Editora Bom Livro, 2013.
     


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

"Oh, Senhor, Deus do Amor..." - Amor sem Bondade?


por Liszt Rangel
A concepção de Deus incia-se no Homem a partir da relação que estabelece com o que lhe foge à razão. Os deuses representantes das forças ocultas e da natureza recebiam um olhar tenebroso e afugentava seus filhos no medo. Trovões, vulcões, ciclones, terremotos, maremotos precisavam ser acalmados, e nessa perspectiva eram os deuses quem recebiam as oferendas, numa tentativa de barganha, seja com sacrifícios humanos, com o de animais, ou ornamentando o altar com flores e fazendo ofertas de frutas e leguminosas.


O Deus de Caim em Gen. 4, 1-8, recusa sua oferta, pois este era lavrador. Porém, se agrada com a carne de Abel, o que termina naquela tragédia, típica de novela das oito. O que implica dizer que aquele era um período antropológico de sacrifícios de animais e Deus abrindo suas narinas, enche seus pulmões da fumaça do cordeiro assado e se delicia com isso. Como se Deus tivesse narinas... Mas caso tenha, ele pega resfriado e usa Sorine? 


Mas antes dessa tragédia na família de Adão, aliás, ela só não foi pior do que as que são escritas por Aguinaldo Silva e Manoel Carlos, é curioso observar que Deus precisava de algumas aulas de Física, de Astronomia, talvez. Com certeza, não deve ter conhecido Hipácia nem tão pouco Galileu. Einstein, então, nem se fala... Ele cria a Terra, Gen. 1, 1-16, faz a luz antes de criar o Sol, o que logo se pergunta, de onde vinha a luz? E sem Sol, ainda faz a noite, faz o dia, separa os continentes dos mares, planta árvores, cria peixes, aves, depois, então, que acha que fez tudo bem feito, resolve criar o Sol e a Lua. E se não tivesse feito isso, não teríamos nem a canção Noite Feliz, muito menos a de Francisco de Assis, irmão sol, irmã lua.


Depois dessa trabalheira toda... Ele se arrepende, Gen. 6, 5-8, e resolve destruir o mundo,elegendo apenas uma família chefiada por um lunático, Noé, que diz ter recebido a ordem de juntar um casal de cada espécie para por na arca. Só não entrou o casal de cupim! Afinal de contas, Ele sabia ou não o que tinha feito? É ou não é onisciente? E ainda precisa se arrepender? Sentimento tipicamente humano, que acompanha muitos culpados, amargurados e depressivos. E impiedoso, destroi tudo com água, tal qual uma criança que após construir seu castelo na areia, antes de ir embora chateada com os pais que não a deixam mais tomar sol. Então, ela apanha água no mar e dissolve toda a criação...


O Senhor do Cristianismo herda a violência do Senhor dos Exércitos dos judeus. O Deus do amor do Cristianismo herda a vingança do deus grego, Zeus no Olimpo, quando os homens esquecem de orar para ele e de adorá-lo, é tomado pela cólera, tal qual o Jeová no Judaísmo. O Deus dos cristãos católicos tem casa para morar, a Igreja. E fora dela não há salvação. Ou seja, o Catolicismo é a religião de Deus! E quanto mais altas eram as torres das Igrejas construídas no período medieval, documentos achados e datados desta época, revelam a intenção dos sacerdotes de competir entre as províncias para ver qual Igreja chegava mais perto dos céus para assim, se aproximarem da divindade, dos anjos, dos santos, dos querubins, do Paraíso. 


Esta perspectiva da divindade antropomorfa incentivou a descrença, o aumento dos arreligiosos, dos ateus, o predomínio das ideias materialistas. Ninguém que tenha um pouco de lucidez, teme a Deus, muito menos o vê, pois se assim fosse, já não seria Deus, e sim mas um ser definido em sua natureza indefinida... Por maior que seja a crença em uma força contrária, no Diabo que disputa as almas com Deus para lançá-las no Inferno, nisso já não pode haver amor, pois que não há Misericórdia em sua Bondade. 


Onde pode haver Justiça Divina, quando há tanta desigualdade social, predomínio dos fortes sobre os mais oprimidos? Perguntam os decepcionados com a religião. Esta Justiça, que não é justiceira, muito menos corrompida, e instala-se em um único STF, chamado Consciência, é adquirida  e não escolhida por indicação. A Justiça, o Amor, a Bondade desse Ser que não pode ser definido por palavras, pairam acima das escolhas humanas, pois o Homem é dotado de livre-arbítrio, destinado fatalmente à liberdade e por ela e com ela, o Homem opera em seu favor ou contra sua própria destinação, a da felicidade.


E as perguntas continuam. Onde pode haver amor de Deus numa criança que ao invés de sugar o leite materno, extrai apenas o sangue da mãe? Onde há amor, em um câncer ósseo numa criança que mal acaba de aprender a andar? Sim, quem tem que responder a estas questões são os cristãos e não os ateus, os materialistas, nem os descrentes. Entretanto, a resposta misteriosa e insatisfatória é sempre a mesma... "Vontade de Deus!", ou ainda, "Deus quis assim..." Poder-se-ia então devolver a pergunta: Como pode ele sendo Amor, sendo Bondade ser responsável pelas desgraças humanas? E mais uma vez ele brinca de dar e tirar, construir e destruir, é assim?. Já inundou o mundo e agora sua última ameaça, é a de destruí-lo com fogo! Vai ver ele fez um cursinho com o pessoal do Estado Islâmico ou com aquela gente boa do Talibã. Virou mais um lobo solitário pelas ruas de Paris ou de Londres, enquanto nós estamos girando nesta esfera que a qualquer momento um desses asteroides deixa de passar perto e acerta o alvo!


Não foi em vão que Voltaire, portanto, afirmou: "Não creio no Deus que os homens fizeram, mas sim, no que fez os homens!" Destinados à liberdade, os filhos da divindade ou dos deuses haverão de crescer, aprendendo a lidar com suas escolhas. E ao saírem da infância psicológica em que se encontram, que os faz "bonzinhos" apenas no Natal, quando lembram que há crianças passando fome e que nem todo mundo é filho de Papai Noel, até porque a mulher dele não aguentaria parir tanto assim... aí sim, desta feita, não haverá mais necessidade de temer a Deus, nem de fingir o que não se é. O Homem, de fato, não há como negar, é um "Grande e Bom Filho de Deus...". 


Pensou que eu ia chamar o Homem de outra coisa, não foi?


BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulus, 2003.

  

domingo, 20 de dezembro de 2015

"Noite Feliz, Noite feliz..." - Para quem?

por Liszt Rangel
Cabeça do deus Mitra
achada na Bretanha

Noite feliz, noite feliz...
Não se sabe se foi de noite ou de dia que se deu o nascimento do Cristo da Fé. Tão pouco, se conhece o ano exato do nascimento do homem Yehoshú'a. Pesquisadores se baseiam no Evangelho de Mateus, 2,1, que narra a sua chegada, durante o Governo de Herodes. Assim, partem do pressuposto de que se Herodes morreu em 4 a.C., então ele, Yehoshú'a, teria nascido antes de Cristo, por volta de 7 e 5 a.C.


A data e o ano Domini foram criados pela Igreja Romana com fins de estabelecer uma maior conversão dos romanos pagãos e de outras etnias, aproveitando-se das comemorações do Solistício de Inverno. Tais comemorações em homenagem ao nascimento do deus pagão, Mitra, tinham início no dia 16 de Dezembro e culminavam no dia 25. Eram festas alegres, onde as pessoas trocavam presentes, se permitiam a muitas orgias sexuais, comiam e bebiam fartamente.


O inverno era sempre rigoroso, e quando este se ia, não havia o porquê de não se comemorar a chegada de um novo período, simbolicamente trazendo esperanças para um ano novo. Porém, o que havia para comer, se estava no fim do inverno? Alimentos que tinham sobrado e que estavam nos celeiros. Uvas, figos, amêndoas, nozes, e diversos cereais haviam ressecado por causa do frio. Esta era a base da ceia romana cristã, e por que não dizer pagã? Afinal de contas, o Cristo é pagão!


Um outro objetivo, visava não apenas incorporar as festividades pagãs ao Cristianismo, mas também, tomar a cultura dos "pagãos", cuja origem significa "aquele que vive no campo". Com essa perseguição, a expressão latina paganus passou a ter uma conotação pejorativa, com fins de extermínio de várias etnias, culturas, crenças, e ao lado de tudo isso, livros... Os mais antigos da Humanidade foram destruídos, como os que se encontravam na Biblioteca de Alexandria. O intuito, em verdade, do vandalismo foi o de que não sobrassem testemunhas da fé, muito menos rastros de qualquer indício de onde o Cristianismo tivesse se apropriado de sua identidade.


A divisão entre cristãos e judeus incentivada por partidários do Cristianismo nascente alimentava cada vez mais o ódio, proveniente das primeiras gerações dos seguidores do tal Cristo. Este cisma surge entre os agrupamentos, liderados por Paulo de Tarso, Barnabé e outros.


De um lado, pescadores analfabetos, gente do campo da Galileia. Pedro, João, Tiago e outros que não eram partidários de uma ruptura na cultura judaica. Estes limitavam-se a acompanhar Yehoshú'a, pois eram seus amigos. Uns o acolhiam em casa, outros patrocinavam suas andanças, ainda haviam os cabeças do grupo que o seguiam, praticamente, para todos os lados. O Jesus Histórico chegou a morar com Simão, sentou-se a mesma mesa com seus amigos simples, pescou e trabalhou ao lado deles, porém a maior parte daqueles amigos não compreenderam a grandiosidade de sua Filosofia.


Se os que o conheceram, não alcançaram seu pensamento, e os que vieram depois? Homens lustrosos na palavra, pessoas cultas, doutores da Lei, como Saulo, insatisfeito com o rumo que o Judaísmo tinha tomado, sedimentou a pedra principal de seu discurso precipitado e confuso que acabou por servir de base para a fundação do Catolicismo e do Protestantismo, deturpando assim, o pensamento do Galileu. "Não posso deixar de afirmar que Paulo foi um dos que mais levantou o Judaísmo contra o Cristianismo", (RANGEL, 2008).


O Cristianismo de Paulo nasce de uma ruptura com o Judaísmo, abrindo espaço com a multiplicidade de Igrejas que ele e seus amigos fundaram, para a estruturação de uma futura religião, que nem ele com todo seu intelectualismo, poderia conceber, o Catolicismo Romano. Miranda (1988), chega a mostrar o grave erro de Paulo, quando escreve, "A estrutura que Paulo começou a esboçar com a sua pregação, não é de fato, a que Jesus propôs, dado que este nada propôs neste sentido."


A outra, na Idade Média, fruto da insatisfação e da indignação de Martinho Lutero e alguns colegas, não escapa de ser fundamentada também em Paulo e nas falsas cartas que levam sua assinatura, produzidas por copistas desde o tempo da Igreja Primitiva. Ou seja, a última, o Protestantismo, é um retalho de um tecido reciclado em uma roupa suja e rasgada... Essa costura não podia dar certo!


A questão política e teológica abre espaço para uma batalha perigosa e que não terá mais como retroceder no tempo. Em nome da prioridade que Deus teria feito pelos cristãos, quando viu que os filhos de Abraão haviam falido na tentativa de salvar a Humanidade, foi eleger Cristo como fundador de uma nova ordem religiosa, a que tem como objetivo converter o mundo inteiro e execrar os hereges de várias ordens. Filósofos, pensadores, místicos, religiosos de outras denominações, como muçulmanos, hinduístas, judeus, enfim, todo aquele que não se tornar cristão, será alvo fácil de perseguição e morte.


E o terror dos séculos I, II, III, IV e V d.C. entre cristãos e judeus, atravessa o tempo, envolvendo também os muçulmanos. Passa por Saladino e as Cruzadas, ressurgindo na madrugada de 24 de Agosto de 1571 com a terrível Noite de São Bartolomeu e chega a uma bela manhã em Manhattam, no dia 11 de Setembro de 2001, ecoando na noite de 13 de Novembro de 2015 em Paris.


Será que a noite dessas vítimas é tão feliz quanto a do nascimento do Menino-Deus? Criado e manipulado para obtenção de uma felicidade às custas de um poder passageiro, sobre os que, simplesmente, pensam e creem de forma diferente, o Cristo da Fé e seus convertidos fervorosos e fanáticos se aliam aos radicais muçulmanos tocam fogo na Humanidade e passam a assombrar as ruas das maiores cidades do Mundo.


Finalmente, a qual noite feliz os cristãos se referem?

FOTO: Liszt Rangel

BIBLIOGRAFIA:

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Ed. Paulus, 2003.

MIRANDA, H. Cristianismo: A mensagem esquecida.São Paulo: Editora O Clarim, 1988.

RANGEL, L. O Cristianismo de Yehoshú'a - a busca pelo evangelho perdido. Recife: Editora Bom Livro, 2008.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

E a gente continua sem se conhecer...



Por Liszt Rangel
Entre dois ou três, entre várias pessoas ou toques no teclado e assim... Mantemos o olho na tela, a imaginação dispara associada às carências de falar, de ser visto e de ver.


A relação inaugurada pelos meios de comunicação com a internet, possibilitou a mobilidade de vários setores da sociedade. Todos ganharam, quer no âmbito cultural, econômico, educacional, político, jurídico, e isto é inquestionável! Bem como, facilitou o contato entre indivíduos de diferentes localidades desta aldeia global. Porém, não os aproximou ao ponto de fazer com que se conheçam. A velocidade com que se operam as conexões, vai longe daquela que poderia trazer além de informação, valores e educação pautada em princípios éticos e morais. O virtual ao lado do mundo das celebridades fascina, inebria os sentidos e muitas vezes paralisa o discernimento e nem se sabe mais a diferença entre realidade e fantasia, entre verdade e ficção, fato ou manipulação.


A ideologia que apaga o umbigo de uma modelo nua, na capa de uma revista, não é diferente da que se realiza nas páginas de ilustres anônimos que postam o que não são, falam o que não viveram, retratam uma vida inexistente para se sentirem um tanto importantes e gritarem através do "Publicar", eu estou aqui! 


Outros, verdadeiros voyeurs da informática, se deliciam com os exibicionistas e assim mantêm uma estreita relação de afinidades, o que tem prazer em olhar, compartilha da erotização com aquele que se realiza em ser visto. Entre os participantes deste jogo não se encontram apenas os adultos, mas as maiores vítimas, as crianças e os jovens. 


Quer pela inexperiência e alienação, quer pela identificação através de grupos que trabalham a aceitação, ou ainda pela busca simplesmente de alguém que os escute e os veja, muitos passam a vida isolados de tudo e de todos, transformando a tela do computador em TV, e ali narram desde vivências simplórias do dia a dia, até problemas pessoais mais graves que envolvem relacionamento entre os próprios familiares.


Ao mesmo tempo, são observados atentamente por pedófilos, assaltantes e sequestradores e tornam-se alvos fáceis nas mãos daqueles que lhes venderam a falsa ideia de que algo em suas vidas é importante e deve ser compartilhado. E assim, além de frágeis e vulneráveis, têm a existência destruída por traumas inesquecíveis. 


A problematização se amplia, atingindo portanto sociólogos, psicólogos, psiquiatras, pedagogos, professores, educadores, pais, vale salientar, quando estes são presentes e até ambientalistas que vêm na internet obstáculos ao processo de conscientização, pela facilidade ao acesso a uma infinita variedade de jogos em rede, utilizados no quarto de casa, nas Lan Houses e nos antigos fliperamas, hoje conhecidos como Game Station, presentes em grandes centros de compras, como os shoppings


Se já não há mais segurança para brincar nas ruas e as praças estão abandonadas, também não existem mais espaços urbanos para que a infância se desenvolva na própria residência, em seu quintal, na casa da árvore, até porque esta também foi destruída para dar espaço aos arranha-céus com seus playgrounds de plásticos e suas piscinas minúsculas construídas mais para criação de Carpas do que para o lazer das crianças. E assim, espera-se com imensa expectativa, anunciadora de frustração, que essa geração Y ou Z venha se responsabilizar pela mudança do Planeta? Mas não é a Terra quem tem que mudar... Ela apenas gira... Quem a habita, é o problema, o Homem!


Como administrarão um país ou a própria casa, se nem cuidar de animais de estimação ou de plantas da varanda elas sabem? A tecnologia as mutilou ao ponto que não sabem abrir um enlatado, e como fazem parte do "agora", um Nissin Miojo é o máximo que conseguem na cozinha. Imagine, se preocuparem com o futuro do Ecosistema, se o que mais as preocupa é pagar com cartão de crédito, o mais rápido possível o novo Game que acaba de chegar ao mercado. Desconhecem as necessidades dos que compartilham a casa, quiçá, conhecerão as próprias? Ainda que sim, contanto que sejam as egóicas, estas ainda vale a pena conhecer, até que não lhes atenda mais. Sabe por que? Porque tudo tem ficado obsoleto... E o que é velho, é esquecido e ultrapassado. Todavia, o material considerado obsoleto, chegou apenas ao mercado há três meses? E como já pode estar nessa condição? Então, logo surge a resposta no Samsung Galaxy S6 Edge Plus com o slogan que diz: "O Novo Começa Agora!"


Ou seja, o que você tem até hoje não é novo, moderno, mas velho, inútil, obsoleto!


Enquanto adultos, as relações são sabotadas no caminho, pois já que tudo é descartável, compromisso para quê? Surge agora, um outro problema social, mas antes de natureza pessoal, o dos relacionamentos. Voltam as máscaras e as justificativas dissimuladas do Ego para manter-se em guarda perante o desvelar-se, descobrir-se e consequentemente mostrar-se ao outro. Relações são duradouras, relacionamentos tem prazo de validade e estão à disposição para as necessidades. O outro não é o objetivo para compartilhar felicidade, mas de uso individualista para serem acalentados os estados narcisistas da personalidade.


E agora, volta-se o olhar mais uma vez para o que se mantém conectado, as relações nas redes sociais. Conectados sim, mas ligados não, posto que não há vínculos! Apenas uma pessoa possui mais de 4 mil amigos no facebook, porém conta na vida real com dois. Um no trabalho e o outro da faculdade, e quando tem. Até porque, no apartamento que mora, ela não sabe nem o nome do vizinho.  


E a gente continua sem se conhecer... Seja nas relações inter ou intra, somos estranhos, forasteiros sem rumo, partindo de não se sabe onde... à caminho de lugar nenhum! A transição não é do Planeta, mas da essência esquecida do Homem. A mesma lógica poderia ser aplicada à internet, à política, à economia, à cultura como na música e nas artes? Ainda estaria dentro da mesma análise, a questão subjetiva da felicidade e da paz, ou do que tem ou não valor?


O passo que se dá em conhecer o outro, não começa nele, muito menos em sua posição. Não está na estrada que se toma, mas naquele que se dispõe a caminhar em direção a si mesmo. A viagem pode até ser boa, mas de nada adianta a paisagem para os que dormem na trajetória. E a melhor paisagem pode estar na realidade íntima do Ser, a depender de suas escolhas. 


Eis o caminho... Buscar-se na identidade perdida e resgatar a Humanidade esquecida neste processo de tornar-se Pessoa. A auto-aceitação é consequência do autoconhecimento, o que promove a auto-atualização, e esta não está associada às redes sociais, haja vista que há muitos conectados, porém desligados de si... Há outros tantos navegando, mas à deriva de seus ideais superiores... E ainda há os que se integraram, mas que se dissociaram, fragmentados como pixels, 


As telas é que são feitas de pixels, e estes são pontos que se unem para oferecer uma imagem que na verdade só está ali pela união destes, mesmo que ainda vista, apreciada, visualmente prazerosa... De fato, na separação ou na baixa qualidade dos pixels, logo percebe-se a verdade!


O Homem da Pós-Modernidade é feito de pixels, sua composição tornou-se de plasma, porém não o da Vida. Separados desses pontos efêmeros do cotidiano que ele elegeu como prazer, já se encontra dissociado de sua imagem criada. 


Não seriam, também, da mesma natureza as suas relações, fragmentadas? Quando tocadas, não se pode segurá-las, são insustentáveis, até mesmo as que propõem oferecer prazer. E quando simplesmente aproximadas de um olhar mais atento, desejadas por mais tempo, logo ficam difusas, deformam, pois são frágeis, posto que ilusórias...

   
  

domingo, 30 de agosto de 2015

Sociedade e Valores - Ontem e Hoje!

Romanos e Gregos optaram pela capa vermelha

por Liszt Rangel
Durante muito tempo, o estilo de vida romano da antiguidade predominou, principalmente após o declínio da cultura helenística. De uma certa forma, seria absurdo dizer que esta desapareceu, mas foi tomada emprestada sob alguns aspectos, segundo a Teoria dos Empréstimos da Sociologia, pela cultura avassaladora dos que surgiram da Bota Italiana, erguendo o estandarte da Águia. Roma não era apenas um sonho concretizado de imperadores ambiciosos, de generais estrategistas e senadores corruptos. Roma era muito mais... 


Roma era um estilo de vida, era um jeito de se vestir, de ter um status, de estar presente ainda que na condição de dominado, e sentir-se apesar dos desmandos, pertencente a uma ordem, sob a égide da Pax Romana, fazendo parte do mundo dos "civilizados". Mesmo sendo judeu, egípcio, bretão ou grego, o estilo romano era contagiante. Uma moeda forte, a arquitetura de suntuosos palácios, templos e fóruns, a construção das moradias com suas ornamentações luxuosas, contrastavam com a pobreza da periferia fétida esquecida da capital do vasto Império.


Francês da Pós- Modernidade, 
mas a capa continua...
O estilo de hoje, já se encontrara entre os antigos romanos. Eles ditaram e marcaram de forma singular, estimulando a moda, a intensa comercialização de azeite e vinho, a fabricação de utensílios para o lar que deveriam estar presente na mesa da elite, quer na casa de campo ou em sua residência portentosa. Enquanto isso, a presença da massa nos jogos revelava não apenas a sede de sangue de uma sociedade belicosa, mas também, os estados alterados de consciência que cultivavam a alienação e o esquecimento da desigualdade diante das privações de vária ordem.


Não muito longe dali, a ocupar os privilegiados lugares dos anfiteatros e das arenas, estava a Nobreza, o Senado, o público seleto com seus banquetes sempre cercados por bajuladores, beberrões e glutões que deram início aos primeiros casos de bulimia, como se verifica nos vomitórios construídos, a fim de que o participante da festa ao sentir-se empanturrado de tanto comer, pudesse assim provocar a expulsão dos alimentos e voltar a se fartar. Com isso, todo tipo de prazer não tinha limites e se prolongava até o amanhecer...


Mesmo tendo passado mais de XV séculos da queda do Império, Roma de uma certa forma ainda vive ou pode ser revivida nos cenários da Pós-Modernidade. A Águia com suas enormes asas douradas sobrevoa o cenário político seja de países pobres como os da América do Sul ou do continente africano. Ainda a vemos sobre o Capitólio com sua indústria armamentista, fabricando vítimas no Oriente ou em suas próprias escolas. A poderosa Águia ainda é erguida do outro lado do Atlântico pela Comunidade Econômica Europeia ou pela Inglaterra, e que ao lado dos EUA podem ser vistas como reorganizações de um imperialismo nos dias atuais.


De forma dominadora, a grande ave está nos países do primeiro mundo que devoram e esgotam a maior fatia das riquezas naturais do Planeta. Os imperadores atuais, quer aqui ou acolá, travestidos de Chefes de Estado, apresentam os mesmos sintomas da "Loucura Cesariana" que assombrou o psiquismo de Tibério, Calígula e Nero. O Senado envolto em corrupções ainda fazem seus investimentos em propriedades particulares, e com o objetivo de passarem despercebidos, aprovam obras faraônicas à custa de altos investimentos que simbolizam o poder passageiro.


Estádio Mané Garrincha em Brasília - Custo de 830 milhões
de dólares, cerca de 1 bilhão e 500 milhões de reais
As altas taxas de impostos cobrados à sociedade romana se estendia às demais, nos territórios aonde Roma, também, se fazia presente através de seus reis-clientes. Visavam com isso, cobrir as despesas de administrações desastrosas todas as vezes em que os cofres públicos estavam vazios. Tal iniciativa não é diferente das que foram praticadas na realeza francesa da coroa Bourbon, e da que ainda hoje, é amplamente feita quer sobre a dividida e perigosa classe média, quer sobre a massa esquecida e sufocada que sempre bancam as despesas dos excessos e dos luxos de uma pequena elite. Enquanto isso, na tentativa de manter a alienação social, multiplicam-se nos octógonos de MMA ou nas arenas das Copas, os atuais gladiadores e atletas de Cristo.

Documento em museu ao sul da França
que apresenta projeto de uma arena romana
Não escapa aos olhos do bom senso, o superfaturamento destas e outras realizações megalomaníacas que garantem o prestígio social ao lado de medidas populistas e burlescas, cada vez mais ascendentes e que silenciam àqueles que só tiveram direito de gritar no passado MORTE ou VIDA, e agora bradam, É GOOOLL!!!

A periferia mesmo reclusa e esquecida, insiste em se fazer teimosamente presente. Na capital do Império, estiveram nas casas de madeira que foram incendiadas para a construção de uma Roma mais moderna. Cá, as palafitas junto com as residências dos bairros antigos foram derrubadas para a construção de shoppings e enormes arranha-céus, e assim levaram também as lembranças de uma infância inocente em que não era perigoso sentar-se em frente de casa para dialogar ou, simplesmente, fazer girar um pião.


O perigo agora está dentro das casas, ainda que vigiado por câmeras, fechado em condomínios com cercas eletrificadas ou dirigindo automóveis com alarmes, travas e vidros protegidos, o cidadão da Pós-Modernidade trocou a liberdade pela segurança, e ficou trancafiado em seu Egoísmo, prisão sem grades de uma existência destituída de valores edificantes, e por isso  faz-se portador de um imenso vazio, que pode ser também interpretado como ausência de um sentimento de pertencimento e perda da identidade.


Qual o seu lugar? Quem ele é? De onde e para onde vai? O que finalmente o faz feliz?


As respostas para tais perguntas tão antigas e que perseguem o Homem onde quer que ele vá ou em qual época se encontre, valem mais do que todos os impérios sonhados e conquistados!


*** Fotos do Francês e do Documento da Arena Romana - Liszt Rangel

domingo, 5 de julho de 2015

Lançamento de Livro Novo - AMO, LOGO EXISTO!

por Liszt Rangel
Olá amigos e amigas leitoras, estou lançando o meu mais novo livro, Amo, Logo Existo!
Editado por uma das editoras mais sérias, o Instituto Lachâtre, o livro propõe uma reflexão acerca do Amor, de vários amores, bem como das formas de amar!

Você ainda viajará comigo ao mundo da Mitologia e da Psicologia e se emocionará com grandes lições de vida! O livro, também, narra minhas experiências no contato com o outro, durante as viagens de pesquisa e descortina um universo repleto de exemplos de superação, simplicidade e alegria de viver. 

Em verdade, cada história aqui narrada, nos levará a refletir acerca do Sentido da Vida, seja quando amamos ou quando sofremos! 

Na obra, tive a oportunidade de aliar as experiências aos estudos de Abraham Maslow, Martin Buber, Victor Frankl, Carl Rogers e Bauman.

E a promoção de venda do livro vale para as primeiras cem pessoas que adquirirem a obra pelo e mail: lisztrangel@hotmail.com

As cem primeiras pessoas que comprarem o livro pelo e mail, terão 50% de desconto no ingresso do seminário de lançamento oficial do livro em Recife. Atenção!!! Esta promoção vale apenas para o seminário em Recife!

Espero que gostem!
Abraço, Liszt


domingo, 28 de junho de 2015

Por dentro do Judaísmo - Quem disse que os judeus foram escravos no Egito?

por Liszt Rangel
Até hoje, o povo judeu lembra o Pessach, o dia de libertação, a saída dos hebreus, os eleitos de Jeovah que estavam subjugados na casa de servidão, o Egito. Em qualquer parte do mundo pós-moderno, não importa, onde quer que more um judeu, celebra-se a tradição de "lembrar", contar através de narrativas aos mais jovens do quão foi importante esta libertação. Na Hagadá de Pessach, obra literária conhecida entre os judeus, lê-se: "Mesmo que sejamos todos sábios, todos entendidos, todos conhecedores da Torá, ainda assim temos o dever de contar a respeito do êxodo do Egito. E todo aquele que mais se estender cotando a respeito do êxodo do Egito, elogiado será."  


Muito mais do que simplesmente narrar, isto desperta um sentimento de pertencimento. Além disso, estimula o orgulho nacionalista e mantém viva a memória de seus antepassados, bem como a preservação da identidade cultural, política e religiosa nas novas gerações que passam a contar o Pessach, e ficam tão envolvidos afetivamente, que chega a parecer mesmo que estiveram lá, naquele dia da libertação, tendo como líder Moisés.


Mas, teria Moisés libertado o povo hebreu mesmo? Os hebreus foram escravos no Egito? Ao menos, há evidências históricas que comprovem isso? Quem foram os hebreus e por que foram viver no Egito? Estas e outras perguntas encontram-se sem a devida resposta e as que surgem parecem não agradar aos judeus. 


Durante muitos anos, teólogos, exegetas, historiadores, arqueólogos e curiosos no assunto debatem acerca da escravidão dos hebreus no Egito e se houve de fato um Êxodo. Estes temas fazem parte de um grande enigma ainda carente de novas luzes de conhecimento e de pesquisas afastadas do olhar perigoso, que é o da vertente religiosa. Ao mesmo tempo, todos reconhecem que a suposta escravidão dos hebreus no País dos Faraós é algo tão marcante que ajudou na construção da identidade dos israelitas.


As pesquisas que se desenvolvem no Delta do Nilo e em outras partes do Egito, como nas ruínas de uma cidade antiga, Ramsés, revelam a presença do povo hebreu que teria ajudado na construção, incluindo a de seus monumentos. "A Bíblia diz que os hebreus cansaram da servidão no Egito e depositaram em Moisés a liderança para escaparem do País dos Faraós." (RANGEL, 2011). Existe um documento egípcio datado entre 1550-1070 a.C. que fala da presença de um povo de nome estranho, o apiru. Segundo este registro, os apirus eram mercenários e servos livres que ofereceram suas forças para trabalhar nos campos, vigiar fronteiras e ainda ajudaram no transporte de enormes blocos de pedra para a construção do portal de Ramsés. Todos os trabalhadores não importava a etnia, segundo revelam documentos antigos, tinham residência, direito ao pão e à cerveja. Portanto, não existiram escravos egípcios e como explica o egiptólogo, Rafath Kalifa "quem não quisesse trabalhar, podia ir embora, atravessando o deserto. Podia ficar à vontade... 


Interessante... algumas vezes percebe-se que povo é povo em qualquer época, em qualquer lugar. Os que trabalharam no Egito, parecem com um certo povo que mora abaixo da Linha do Equador. Trabalha para ter pão, sonha com a casa própria, apelando até para pastores e adora uma cerveja... 


Há um ponto importante a ser considerado acerca da suposta escravidão dos hebreus no Egito. Além deles, outros grupos de trabalhadores deixaram suas marcas quer na intimidade das pirâmides, quer nas paredes de cidades antigas e inclusive até mesmo na hora da morte, pois tiveram direito a enterros em locais apropriados que foram registrados por ordem de seus governantes.


Alguns estudiosos fizeram uma análise etimológica e descobriram uma certa analogia linguística entre o termo Apiru  e Ibri, ou como é mais conhecida esta expressão, "hebreu". A partir daí, passaram a defender a tese de que os antigos apirus são os antepassados dos filhos de Abraão que junto com sua esposa Sara foi se instalar no Egito. Apesar de não existir registro histórico de Abraão e de sua peregrinação àquela região, posto que esta narrativa é apenas bíblica, o documento encontrado pode dar alguma garantia de que sendo os apirus livres trabalhadores e mercenários que serviam ao Faraó, este deve ter chegado à conclusão de que esse grupo por ter crescido demais, poderia por em risco a independência do Egito, o que pode ter levantado um acerta insegurança na corte do Faraó. 


É possível entender agora o porquê de Moisés ter sido classificado por sérios pesquisadores como um general militar, um estrategista bélico. Os apirus além de trabalharem nos campos, na construção civil, ao tomarem conta das fronteiras do Egito contra invasores estrangeiros, se especializaram na arte da guerra e assim, serviram aos interesses do Faraó até o dia em que Moisés, o "Boca de Praga", resolveu conduzir estes mercenários para o que ficou conhecido como, o Êxodo.


Mas será que o tal Êxodo existiu mesmo?  

BIBLIOGRAFIA:
RANGEL, L. Por Que Jesus? Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Recife: Editora Bom livro, 2011.  

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Cuidado! Você sabe o que é misoneísmo?

por Liszt Rangel
Voltar ao passado exige transpor não apenas a linha que separa o hoje do ontem, porém, muito mais do que isso. Olhar o pretérito é descobrir o que formou a identidade do Homem, em suas crenças, preconceitos, valores, paradigmas intelectivos e afetivos, enfim a sua constituição. Defrontar-se com essa espécie de sombra, remete o indivíduo a descobrir muitas vezes o que não deseja, mesmo que ainda lhe surja à frente um deslumbramento com algo desconhecido que mais o assusta do que o seduz. Os antropólogos dão o nome de misoneísmo ao medo profundo e supersticioso do que lhe aparece como novo.


Quando nos detemos para ver ou sentir o que está posto em nossos ombros, percebe-se nossos antepassados, e com isso, observa-se que a carga transferida não foi, simplesmente, a genética. Mas, ao lado dela há toda uma estrutura, a qual Carl G. Jung chamou de Arquétipos. Estes povoam nossas crendices quer no imaginário ou no simbólico, e tal qual o ar que respiramos, o Arquétipo encontra-se em todos as etnias e nas grandes civilizações que deixaram suas marcas até o presente.


Portanto, ainda é comum que diante de tal estrutura que acompanha o psiquismo humano, ocorram diversas reações quando o assunto é tocar, mexer, e até mesmo questionar tais arquétipos. "O homem "civilizado" reage a ideias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação." (JUNG, p. 33, 2008). Seguindo a linha desse raciocínio, o Dr. Jung reconhece que o indivíduo age de forma igual quando se trata dos sonhos que teve durante o sono. A partir do instante que estes o incomodam, tenta esquecê-los, sufocá-los, com o intuito de não admiti-los. 


Do mesmo jeito, as pessoas procedem umas com as outras, em especial, quando se trata de por fim àqueles que lhes ameaçam  a "estabilidade e o domínio". Jeovah assim agiu com Job; Saul fez isso com Davi. os sacerdotes e os escribas calaram Jesus; o Senado silenciou Júlio César usando a covardia e o ciúme de Brutus; João Huss, Giordano Bruno, Joana D'arc, o Papa Albino Luciani e tantos outros foram silenciados pelo temor da Igreja. Calar os idealistas, já que é impossível queimar ideias, sempre foi a maneira mais rápida para manter-se sob as máscaras da hipocrisia e subjugar a sociedade à ignorância e ao medo.


Entretanto, não é justo esquecer que o Homem sempre está à procura de alguém que pense por ele, e assim, evitando assumir riscos, atribui ao outro ares de divindade, transferindo responsabilidades, criando dependência psicológica e ampliando desta forma o círculo de sua zona de conforto.


No passado, foram os adivinhos, os oráculos, as pitonisas, as sacerdotisas e os profetas. Hoje, delegamos às cartomantes, aos padres, aos pastores, às bispas, aos astrólogos e aos médiuns o poder de decidirem o que é certo ou errado, o que devemos ou não fazer e como podemos ou não agir, sentir, pensar. Porém, expressar jamais! E ai daquele que questionar!!! A fogueira atualmente é de outra ordem e os leões já não estão mais nas arenas. As labaredas da leviandade e da vaidade não fazem menos vítimas do que as da Santa Inquisição. As chibatas dos sicários da morte ainda dilaceram, mas agora é a moral do próximo que está aberta em feridas de humilhações. Os leões já não se alimentam mais por causa da fome, mas pelo puro e insaciável desejo de denegrir, de fomentar a discórdia e obter o prazer de dividir para melhor governar. 


Atrelado ao esquecimento da arte de pensar tão bem proclamada por Immanuel Kant, quando asseverou, "Sapere Aude - ouse saber, ouse pensar!", o indivíduo ególatra, como bem conceituou Sigmund Freud, agarra-se às ilusões ou seria a um futuro ilusório? Para evitar seu amadurecimento e a saída de sua menoridade para tornar-se Pessoa, como desejou Carl Rogers, ao contrário, afasta-se de qualquer possibilidade que possa lhe tirar de sua infância espiritual, pois preso a esta, tem ainda como justificar seus comportamentos inconsequentes. Todavia, não se dá conta que quanto mais foge de seu destino que é o de desvendar, pensar, ajuizar, criticar, construir, crescer, ele mais adia o encontro com a possibilidade de seu bem estar psíquico. 


Também, delegar ao outro o discernimento e as suas escolhas é declarar o próprio atestado de insanidade. Dar o direito ao outro do que devemos ou não acreditar, é um ataque imediato a democracia do conhecimento, e neste caso é entregar o poder à falsas lideranças. 


Existem pessoas cultas, intelectualizadas e instruídas até dos princípios da ética e da moral, mas apenas instruídas. Há uma grande distância entre ter conhecimento de algo e apropriar-se deste conhecimento ao ponto de permitir-se lograr a consciência que ele pode resultar. Isso foi bem observado com o Iluminismo, quando os tratados do enciclopedismo de Voltaire e outros filósofos que ampliaram o pensamento pós-revolução francesa, foram usados por reis e rainhas para seus mandos e desmandos. Frederico II na Prússia, Catarina II na Rússia, Napoleão Bonaparte na França, Marquês de Pombal em Portugal e no Brasil Dom Pedro II ficaram conhecidos como "Déspotas Esclarecidos". 


Estes homens e mulheres, que ainda existem entre nós, se apropriam do conhecimento, realizam algumas benfeitorias no grupo social ao qual pertencem, mas, por outro lado, utilizam a máquina estatal, a posição de comando dentro dos lares e com controle se agarram ao poder passageiro. Em âmbitos maiores ou menores manipulam as massas com o recurso da posição do "pretenso saber" sejam como militares, políticos, psicólogos, advogados, juízes, jornalistas, professores, médicos ou meros palestrantes que aparecem lustrosos com seus sorrisos dissimulados e gestos programados para impressionar. Eles estão por toda parte, nos diversos setores sociais, quer na política, quer na religião para obterem vantagens sob a propaganda de um bem maior. São defensores de uma verdade que apenas eles conhecem e julgam-na absoluta.


Para a infelicidade deles, são mais responsáveis do que a seta na estrada, pois esta mesmo sem seguir o caminho que aponta, permite que outros sigam e cheguem ao local desejado.  Déspotas esclarecidos e Pseudo-líderes já os tivemos aos montes, todos sucumbiram ao tempo e foram esquecidos ou lembrados como obstáculos ao progresso da Humanidade. Ao mesmo tempo, nunca faltaram os afins para seguir-lhes os passos. 


Por outro lado, o que observa-se com a democracia do conhecimento, é o nascimento de novas lideranças, sendo estas agora, de natureza positiva. Elas contribuem para a formação de uma nova geração, uma mais apta à compreensão e ainda que pouco numerosa, mais forte, unida e segura, posto que carrega nas matrizes psíquicas o desejo de não repetir os nosso erros, meros mortais que esquecemos nossa imortalidade e o pior de tudo, foi quando a corrompemos. 


Esta nova geração não se encontra entre os superdotados, até porque já vimos do que a inteligência e o conhecimento mal aplicados foram capazes de fazer a face do Planeta atrasado que habitamos. Estes, também não se encontram entre os famosos, mas em sua maioria são anônimos solidários, que respeitam o próximo, praticam a fraternidade e interrompem definitivamente a transmigração dos arquétipos que ainda nos prendem a um passado de medo, de ignorância e de maldade que resultou em tantos crimes hediondos e atitudes nefastas. 


Dia virá e este não está longe. Já se fazem sentir os seus primeiros raios... Eles anunciam um novo amanhecer, mas não ocorrerá da noite para o dia, até porque depois da meia noite, há uma loga madrugada a ser atravessada.  E para se dar conta disto não é preciso olhar para o horizonte, basta ver aqueles que se debatem em ódio, em desespero e aflição carregando muito mais do que doenças físicas, mas morais, arrastando suas sombras e fazem-se acompanhar pelo egoísmo, pelo ódio e pelo orgulho e ainda se comprazem em deixar pelo caminho suas vítimas.

BIBLIOGRAFIA:

JUNG, C.G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.    


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Por dentro Judaísmo - Quem foi Moisés?

por Liszt Rangel
Moshé é um dos maiores líderes do Judaísmo, porém seu nome é de origem egípcia. Ao contrário do que ocorreu com outros príncipes e reis no Egito, Moisés teve apenas o último nome sem qualquer prefixo. Um caso diferente do dele, por exemplo, observa-se em Ramoshé ou Ramosé, traduzido como Ramsés. O Ra no nome de Ramsés seria uma homenagem ao deus Rá, então entende-se "o deus Rá nasceu". Da mesma forma com o rei Thutmoshé ou Thutmosé, que significa "o deus Tot nasceu". Na mitologia egípcia o deus Tot é aquele que aparece com cabeça de Íbis e sua função no além é escrever, registrar os atos da alma enquanto esteve na Terra. Eis o porquê dele sempre aparecer fazendo anotações enquanto o coração do morto é pesado na balança.  


No entanto, em relação a Moisés que também é conhecido em egípcio na forma abreviada, Mosés, a escolha do seu nome não indica referência a qualquer deus, sem especificar a quem este menino estaria reverenciando. Ou seja, ele seria o próprio deus? Ou, simplesmente, estaria sem designação da proteção de um deus egípcio? Por ventura, não seria a explicação para ele mais à frente, surgir com a ideia de reverenciar o seu Javeh e colocá-lo como único Senhor? Coincidência ou arranjo? 


No relato bíblico, sua mãe biológica engravidou de um homem da tribo de Levi, ou seja, também do povo hebreu. Porém, ela resolveu por o recém-nascido dentro de um cesto feito de papiro e o aproximou da margem do rio, onde haviam muitos juncos. Moisés foi criado na cultura egípcia, porém não pela filha do faraó, mas por uma mulher dos hebreus (Êxodo, 2, 1-10). Ela foi paga pela filha do faraó para criar o menino com a promessa de que, quando ele estivesse jovem, seria devolvido para que ela o adotasse. Diante de Moisés, já crescido, ela teria dito, "Eu o tirei das águas." Daí equivocadamente, até hoje ter ficado a mística de que seu nome significava "salvo das águas". Outras lendas na cultura oriental, também falam de crianças que foram salvas das águas.


Algo significativo a considerar é que não se pode aceitar tudo o que está na Bíblia como se fosse a mais pura verdade, ou como sendo a Palavra de Deus. Além de ser fora da razão e da sanidade, é antes falta de conhecimento, especialmente histórico e científico acerca das descobertas em torno das origens dessas civilizações antigas. Diante de qualquer análise, também não se pode dizer que este ou aquele especialista em idiomas conseguiu traduzir o Velho, muito menos o Novo Testamento baseado em textos originais. Isto também é uma lenda, só que com uma diferença, é uma lenda pós-moderna, porque textos originais não existem. 


Dos livros considerados como o pentateuco de Moisés, somente os dois primeiros, a Gênese e o Êxodo chegaram a ser compilados sete séculos após a suposta ocorrência daqueles fatos ali narrados. Ou seja, são setecentos anos depois do que pode ou não pode ter ocorrido, até porque tudo começou com a tradição oral, passando de boca em boca, e sabe-se que quando cai na boca do povo, nada fica mais original. Os difamados que o digam...


Uma outra questão sem fundamento e que não se pode deixar de lembrar, é que os livros teriam sido de autoria do próprio Moisés. Porém, como ele escreveria cinco livros, estando morto? E mais, um livro que narra sua própria morte. Alguns especialistas em Arquelogia e História, acreditam que Moisés de fato, não chegou a ver a Terra Prometida, e que teria sido, provavelmente, assassinado pelo seu próprio grupo, tendo a liderança talvez de Josué, que tomou o seu lugar no comando.


Em verdade, pesquisas realizadas no Egito não comprovam o tal Êxodo, que segundo os relatos bíblicos teria ocorrido. Não há registros históricos de tamanha movimentação social. É possível imaginar um grupo que deveria ter em média 600 mil homens deixando o Egito? Além desses números serem questionáveis, vale salientar que uma saída brusca dessa natureza, abalaria a economia de qualquer civilização (RANGEL, 2011). E por que não há outras narrativas sobre este fenômeno social? Tudo naquela época já era bem registrado em "estelas" ou em "tabuinhas". A arqueologia bíblica é quem vem tentando provar o contrário, porém é preciso ter muito cuidado quando se trata de revelar "verdades", levando-se em consideração a linha de pesquisa, quem patrocina e qual a ideologia deste grupo. Já manipularam a História por demais, quer de forma inconsciente, quer intencional e levianamente. 


No tocante a Moisés, ou Moshé, não se pode colocá-lo como um revelador da Lei de Deus. As leis que ele propôs ao povo são a cópia das leis egípcias. Além do mais, as descrições de terríveis batalhas onde por sua ordem muitos foram miseravelmente assassinados, não o credibilizam como um intermediário entre o "povo eleito de Deus" e o próprio Javeh, principalmente, quando se leva em questão, um dos mandamentos, "Não matarás!". Javeh, ao menos, poderia ter feito um parágrafo nesta Lei e assim teria escrito, " Não matarás!!! - Parágrafo único -  "apenas aqueles que não estejam em teu caminho, Moisés..." Porque foi justamente matar que Moisés mais fez. Perde-se a conta dos grupos étnicos que ele dizimou por onde passou. Moisés. atualmente, é visto por estudiosos, como um grande estrategista militar, porque  um gênio belicoso o animava, tornando-o no campo de batalha tão cruel quanto qualquer outro líder sanguinário da História. Ainda para muitos especialistas, Moisés em suas estratégias de guerra, é comparado a Júlio César e a Napoleão Bonaparte.


Quanto ao Êxodo, seu diálogo com Deus e a compilação da Torá...estes assuntos serão abordados em outro momento...

BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editora Paulus, 2002.

RANGEL, L. Por Que Jesus? - Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Recife: Editora Bom Livro, 2011.     

domingo, 5 de abril de 2015

Visitando a Paixão em Nova Jerusalém

por Liszt Rangel
Desde que a Rede Globo assumiu o espetáculo encenado em Fazenda Nova, os astros da plim plim sempre atraem multidões que deliram para ver Fábio Assunção, Marcelo Antoni, Humberto Martins, e este ano um tal de Igor sei lá das quantas, enfim... a mulherada e a rapaziada não sossegam e com essa histeria, as falas dos atores ficam entrecortadas por causa da tietagem.


É bem verdade que se trata do maior espetáculo ao ar livre do mundo e do ponto de vista teatral vale a pena conferir. Entretanto, sob a ótica da exegese bíblica, da crítica textual, da História e da Arqueologia, o espetáculo é um desastre. E para mim, foi uma tortura assisti-lo em suas 3 horas de duração, e em pé. Tinha momento que dava vontade de gritar: "corta". Pois é... estava tudo errado. Desde as roupas de alguns atores, como o cenário, por exemplo do Templo de Salomão. Os fatos envolvendo Jesus, foram colocados de forma que aproveitam um cenário para espremer todos os seus ensinos de uma só vez. E não faltaram, é claro, as novidades.


Logo de início, surgem dois espíritos, um representando Moisés e outro ao que parece era Abraão. Estas figuras citam os primeiros versículos do evangelho atribuído a João acerca do "verbo que se fez carne." Ou seja, logo se percebe que a base da narrativa será católica, "um Deus tornado Homem". E assim ocorreu. Em todos os momentos aparecem palavras tipicamente católicas, o que terminaram por transformar Jesus, um bom judeu, em um bom católico, pagador de promessas. 


Outras vezes, o texto usado é o de Marcos que se mistura com algo de Lucas, e mais uma vez se estabelece uma verdadeira salada exegética. A ordem das discussões em torno da morte de Jesus não obedece aos roteiros dos evangelhos, nem tão pouco, nela aparece Jesus expulsando os vendilhões do Templo. A mulher pega em adultério mais uma vez é confundida com Maria Madalena, o que resgata a visão católica de colocá-la como meretriz e afastá-la do lugar de destaque que tinha ao lado de Jesus.


Um outro ponto curioso é a tentação que Jesus sofre de figuras satânicas. Naquele tempo, muitos judeus buscavam o deserto, como motivo de inspiração e meditação. Havia também uma crença que nele existiam almas que vagavam perdidas. Não se pode esquecer que todo herói nasce do contato com o deserto, era assim com os gregos. Porém, o que mais nos interessa na cena, é ver os demônios tentando Jesus com as mesmas tentações que Buda sofreu. Coincidência? Você acredita em coincidência?


Antes de falar da morte de Jesus, vamos a de Judas. Nos evangelhos ele se enforca, mas em Atos dos apóstolos, com o dinheiro que ganha com a morte de seu mestre, compra um terreno, até que certo dia um instrumento cortante, rasga seus intestinos e ele morre. Até hoje em Israel há um pedaço de terra, chamado de "campo de sangue", supostamente comprado com o dinheiro da venda de Jesus. E agora vamos acreditar em qual morte? A do suicídio? Ou a do acidente no campo? Este é um caso para o CSI- FAZENDA NOVA. E o pior é que as pessoas se envolvem em tanto ódio ainda por Judas, que quando este sai do sinédrio após entregar Jesus, um homem que estava ao meu lado na plateia, disse, "vou pegá-lo ali na esquina pra ele ver o que é bom pra tosse." Pronto! Bastou o pobre se suicidar, que a multidão foi ao delírio. Foi a cena mais aplaudida! Já a das bem-aventuranças o público saiu em silêncio, e ainda me roubaram uma garrafa de água mineral. Justo depois de Jesus ter ensinado que "ajuntássemos tesouros nos céus".


Não pode ficar de fora da nossa análise, a cena canibalística que ocorre na Santa Ceia. Digo isto porque nenhum judeu ergue o vinho para o alto e divide o pão e pede para os outros comerem e beberem como se aquilo fosse seu corpo e seu sangue. Mais uma celebração católica, a Eucaristia!
Vale lembrar que esta é uma celebração das hordas primitivas, segundo Freud, onde comer a carne e beber o sangue do líder da tribo, passava a crença de que todos iriam gozar de seu poder. Depois, quando viam que nada ocorria, eles, se colocavam aos prantos e choravam em culpa, aguardando que ele ressuscitasse. Igualzinho aos cristãos. Para o desfecho, típico de novela das oito, os atores repetem a cena de Da Vinci, congelando a imagem da Santa Ceia e todos ficam na posição da famosa tela. Mas é claro que não chamaram Madalena para fazer parte dela. Não iria pegar bem, ver Pedro com uma faca ameaçando cortar o pescoço da esposa de Jesus.


Quanto a questão do julgamento, realmente é por demais contraditório. Caifás nem espera as festividades passarem e a cena que envolve o ator Humberto Martins, no papel de Pilatos, reflete o que há em Mateus 27, 24-25, onde os judeus pedem o sangue de Jesus, deixando claro a responsabilidade deles sobre sua morte. E sabe qual a consequência desse arranjo proposital? Judeus e cristãos se odeiam até hoje. Vale a pena aplaudir a forte cena dos cavalos romanos entrando em cena. Isto foi belo!
Do ponto de vista histórico, no ano 36, Pilatos foi mandado de volta a Roma por ordem de Tibério, pois não conseguia mais conter os motins que se espalharam pela região.¹ O senhor Paulo de Tarso, grande perseguidor e assassino de cristãos e o maior deturpador da mensagem de Jesus, também fez de tudo para tirar dos romanos a culpa da morte do Nazareno.


No tocante à morte de Cristo, mais um erro. Os copistas plagiaram as passagens de Sl 22,19 e de Is 53,10. Esta passagem é clássica. Envolve a cena do bom ladrão, sorteio das vestes de Jesus e a promessa do Nazareno ao ladrão, de que ele iria a partir daquela hora "roubar" no céu. Típica cena católica para quem aprontou muito no mundo e com o perdão da Igreja na hora da extrema unção, paga pela salvação e fica tudo garantido no Paraíso. Outro detalhe da cena é a terrível frase colocada na boca de um Jesus revoltado, quando ele pergunta a Deus porque ele o teria abandonado. A inovação agora é por parte da La Pietà esculpida por Michelangelo e que a repetem na descida do corpo da cruz. Vai ver ele estava lá e tirou uma foto para mais tarde na idade média reproduzir.

Bem, estas foram minhas impressões iniciais acerca do maior espetáculo ao ar livre do mundo. Quando fui pela primeira vez eu era um garoto e Jesus ainda não tinha ressuscitado. Como uma bela peça teatral, por isso mesmo deveriam ter uma maior preocupação com os fatos e sua ordem, bem como, com a estrutura histórica da Palestina do século I.  Falaram mais de um Cristo católico do que de um Jesus Histórico, um homem apaixonante e sedutor que apesar de todas as adulterações em sua imagem e mensagem, nos marcou ao ponto de tornar-se o maior enigma para aqueles que sinceramente o buscam.

FOTOS: LISZT RANGEL