quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Tudo é Transformação!

Arena Romana em Nimes, Sul da França
por Liszt Rangel
Na verdade, tudo é transformação. Se a matéria transforma-se, em decomposição e se a essência que a habita é matéria, apesar de sutil e de outra natureza, esta também se submete à transformação.


O nosso corpo já foi bem diferente e limitado em suas funções.
Hoje, já nos preparamos geneticamente para trazer ao mundo novas formas biológicas, mais resistentes a algumas enfermidades, mais perfeitas na estrutura, e sem deformações. Antecipamo-nos inclusive até à doença.


O Homem também atravessa esta metamorfose. Já foi mais instintivo, selvagem e precisou sair da caverna para garantir a sobrevivência. Foi morar ao lado dos grandes rios e lagos. Assentando-se, domesticou animais, plantou, demarcou territórios, ergueu as grandes civilizações, como as da Caldeia, da Babilônia, do Egito, da China, ou vestiu a armadura romana para conquistar o velho mundo. 


Já não mais limitado às forças instintivas, foi capaz de criar, manter, produzir, subjugar, criticar e o sentido de responsabilidade aproximou-se, descortinando uma nova maneira de se ver e também ver o mundo. Além do sistema límbico das emoções, conquistou o neocortex. Ele finalmente pensa! Que máximo! E o pior é, quando pensa também que é o máximo... e assim, ele destrói, sem dar-se conta que está promovendo uma transformação por onde passa. Sem consciência, ele serve de instrumento à dor alheia, ao caos e à colheita obrigatória que terá de realizar, enquanto pensa que é Senhor de si para semear. Pura ilusão!


Ele percebe que quanto maior é a responsabilidade, goza de mais liberdade. Mas desconhece que quanto maior a liberdade, mais contas a prestar à Natureza, ao próximo do uso desta liberdade. Entre o passado que lhe mostra as origens de sua evolução e o futuro tecnológico que se tornou seu presente virtual, fluido, ele moldou a sua vida e isolou-se da relação com o outro. Ele caminha, tropeçando mais do que avançando, mas ainda assim é capaz de vender à celebridades do cinema terrenos até no espaço sideral.


No entanto, ainda lhe falta muito em matéria de conhecimento, ou deveria dizer, falta-lhe a "essência" do conhecimento, de forma a aplicar em favor daquele que está ao seu lado, e que também se encontra em transformação. Seu Ego estruturado nas matrizes impulsivas de sua infância espiritual, permite que lhe escape a compreensão de si e de tudo o que o cerca. Ele machuca, ele adultera, ele mal trata! Embora não seja mais um primata, comporta-se às vezes como tal, ignorando que tais escolhas o levam, inevitavelmente no futuro próximo, à falta de escolhas. 


Carece-lhe ainda neste processo, descobrir um sentido, um porque, mas ele quer muitos porquês. Todavia, até agora aqueles que descobriram os porquês não foram felizes. Se viram como reis e rainhas egípcias, nobres da corte de Imperadores romanos, fidalgos medievais e acreditam de forma narcísica que sofrem porque abusaram de suas escolhas em existências passadas, enquanto gozavam de prestígio, riqueza e poder. Porém, ignoram que para o presente que os perturba não há fantasia que os console, haja vista tratar-se de uma transformação multicausal e não unicausal. 


Somos transcendentes, viajores do tempo, semeadores também do agora no sentido existencial. Então por que buscar respostas ilusórias no passado supostamente cármico, se não temos a ciência de nosso presente? Se nos falta na vida atual até mesmo a lembrança de sermos gratos e bons a quem só nos deu amor? 


E assim, agora decepcionado o Homem terá que descobrir sozinho, não mais os porquês da dor, da solidão e da morte, mas "como" irá lidar com essas transformações que sempre foram desprezadas e evitadas por ele. Neste labirinto o minotauro ainda está vivo e é bom ter cuidado!


Geralmente, nesta hora de dor existencial, ele foge para as ilusões, e os "anti-isto" e os "anti-aquilo" são os mais procurados, porque anestesiam a consciência.


Como Dorothy, o Homem busca a estrada de tijolos amarelos que o levará a lugar nenhum. Como Alice, ainda sonha de forma infantil com a rainha de copas a persegui-la, enquanto não percebe que é manipulada pelo coelho. Apenas no fim, ela descobre que somente na loucura do chapeleiro é que desperta para a vida real, quem sabe para o amor real. Mas ele só existe em seus sonhos. Ela não é madura para vivê-lo. Ela recusa transformar-se. Na verdade, Alice é o protótipo da menina-mulher que foge para o mundo da loucura a fim de não tomar suas decisões que a trarão para a realidade.    


Assim é o Homem Moderno. Quem sabe, sobre nesta hora de contato com a realidade, a maior descoberta, a do sentido da vida, a de entender a finalidade de tudo o que experienciou, mesmo que lhe doa. E se não ocorreu isto ainda, não será questionando, mas vivendo e revivendo, criando, e inventando, se permitindo cair, mas obrigando-se a levantar-se, até que a transformação ocorra, ou melhor que ela esteja em curso.


Mas, de qualquer forma é bom ter sempre em mente, ela jamais será completa. O dia de amanhã nunca chegará. Ele é sempre hoje! E o que estamos fazendo para transformar o hoje?


Ao que tudo indica, se o caminho é o da transformação, e se apenas esta poderosa companheira de viagem nunca abandonou o Homem ao longo desses 150 mil anos de sua existência, talvez o fim seja este, transformar-se. Quem sabe está aí a resposta ao seu porquê, porém este porquê jamais o levará de volta à origem, pois é impossível banhar-se por duas vezes nas mesmas águas de um rio. 


Se a finalidade for a transformação, então não terá fim, não terá acabado, não terá prazo, mas haverá sempre uma finalidade, mesmo que esta seja sem fim. E não há fim... o que há é transformação.


A dor veio e se foi. 
Algumas vezes ficou que parecia não querer ir embora.
Alegria fugidia foi tão rápida, que nem deu tempo para perguntar quando ela voltaria.
A ingratidão corroeu a alma e quebrou as lembranças mais delicadas. Entretanto, a atitude de amor construiu-se inquebrável.
Porém, em se tratando da cólera, quando esta cessou, deixou a exaustão. A expressão está no olhar que agora saboreia a decepção e a amargura.
E a mágoa? Tão resistente e teimosa, marcou o frágil corpo, que jamais voltará a ser o mesmo, afinal tudo é transformação.


Quando se experimenta a juventude, tem-se a ilusão que ela será eterna, mas acaba indo-se precipitadamente, especialmente quando já se sabe da hora marcada para seu fim. Mas ainda sim, houve transformação.


Já a saudade doeu, doeu... parecia que não tinha fim, entretanto desapareceu com a presença do amor que acreditou por um tempo que era melhor também ir embora, afastar-se para bem longe, para um lugar em que houvesse apenas ausência. Porém, o que é ausência, senão falta de atitude e lugar preenchido pelo vazio.


Todos bem sabem que é no egoísmo aonde reina a ausência!!! E o amor... só sabe quem o sente, porque se transforma. 


Quem se iludiu e sofre acusando pela sua dor o que chama de amor, correu atrás de fumaças que saem dos bueiros e logo se dispersam pelo mundo... E no fim... o amante terminou algemado a uma idealização.


Pobre louco que delira! Não se pode pedir-lhe paciência. 


Paciência? Não existe a que dure para sempre, pois "sempre" é um lugar desconhecido e o tempo lá é dominado pela transformação, ou seja, tudo muda! O relógio, os dias, os anos são inúteis para sua permanência. A transformação não os respeita, pelo contrário, usa-os. E os egoístas sabem perfeitamente o que é usar, mas há uma diferença, ele não se deixa mudar, quer aprisionar. Quem precisa de muito tempo é a nossa verdade acovardada, já a maldade em muito pouco deixa seu rastro. 


Igual ao amor, a bondade fecunda, transborda e também, transforma: o fraco, renasce forte, o inibido, surge como audacioso, o mesquinho refloresce em gargalhadas de solidariedade. 


Por outro lado, no bairro sombrio da alma humana, lágrimas secam e os mesmos sorrisos não voltam mais, assim como as oportunidades na vida. A janela está vazia, e quem estava ali, cansou e se foi, correu abrindo a porta em busca do sorriso que partiu. Em verdade, acabam por surgir outras lágrimas, outros sorrisos e haverá sempre um egoísta debruçado na janela. Já as oportunidades perdidas ou vividas, nunca mais trarão os mesmos momentos. Se foram... O que finalmente sobrou?  


Transformação! Enfim, ela foi a única que nunca nos abandonou, nem se permitiu desaparecer. Opera-se na maioria das vezes em silêncio e na solidão, mesmo quando a ignoramos ou não a desejamos. Ela não escolhe cor, raça, crença, se é saudável ou doente, muito menos riqueza ou pobreza. Para ela, "eternidade" não é uma estância no além, é algo a fazer. Não importa quanto tempo leve, ela não chega, porque é, ou melhor, já chegou! E assim esperar por ela é inútil!


Obedecendo, portanto, a grandiosidade de seu Criador que é imutável, e por isso nunca se transforma, pois se isto ocorresse tudo seria um caos permanente e não uma transformação harmoniosa. Quem não tem harmonia é o Homem, porque luta contra as forças da sua essência e da Natureza. 


Esta foi quem sabe a maior ironia herdada pela criatura humana no momento de sua criação. Nascidos da imutabilidade, somos mutáveis.


Se pudéssemos ainda aceitar um Deus em sua dimensão antropomórfica, aquele velhinho de barbas brancas, acho que Ele teria dito de forma jocosa no instante da nossa criação: "Já que eu não posso, vai tu, criatura, se transformar! Seja o ato constante que guarda a transformação pulsante."

E assim fomos, e assim somos, seremos, e não deixaremos de ser!

Mas ainda tem gente que não quer ser...


COMUNICADO IMPORTANTE:
ESTA É UMA MENSAGEM PARA O FIM DE ANO, HAJA VISTA, ASSIM COMO MINHA VIDA ESTÁ EM TRANSFORMAÇÃO, ESTE BLOG TAMBÉM PASSARÁ POR MUITAS. INFORMO AOS 221 MEMBROS DO BLOG (SÃO POUCOS, MAS SÃO DE MUITA QUALIDADE) E AOS MAIS DE 104 MIL LEITORES DO BRASIL, DOS EUA, DA FRANÇA, DA ALEMANHA, DA RÚSSIA, DA CHINA, DA ANGOLA, DA CROÁCIA, DA ÍNDIA, DA MALÁSIA, DA ESPANHA, DE PORTUGAL, DO REINO UNIDO, DA ITÁLIA E QUE EM APENAS 2 ANOS DE EXISTÊNCIA REAL DO BLOG, ENTRE 2012 E 2014, ONDE ESCREVO SEMANALMENTE (FALTANDO ALGUMAS VEZES É CLARO) SÓ MOSTRARAM-SE ASSÍDUOS. 

AGRADEÇO PELO RESPEITO PARA COM MEU TRABALHO E POR TEREM ACOMPANHADO AS MINHAS PESQUISAS, AS MINHAS CRÍTICAS "ÁCIDAS" E ALGUMAS IRONIAS (RISOS), MAS ACIMA DE TUDO, AGRADEÇO AOS QUE TORCERAM PELA DIVULGAÇÃO DESTAS INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS E RELEVANTES NA BUSCA PELA VERDADE E PELA NOSSA EVOLUÇÃO. 

COMO SEMPRE DIGO, MESMO QUE AINDA NÃO COMPREENDAMOS A VERDADE, TEMOS O DIREITO DE SABER DE SUA EXISTÊNCIA.

DEIXO DE PRESENTE PARA TODOS VOCÊS, CAROS LEITORES, ESTA CRÔNICA QUE ME VEIO DE FORMA INSPIRADA HÁ ALGUNS ANOS E AGORA A COMPARTILHO COM TODOS. 

ACHO QUE SABERÃO APROVEITÁ-LA MELHOR DO QUE QUEM FOI BENEFICIADO NA ÉPOCA!

ABRAÇO EM TODOS E ATÉ BREVE!!! ATÉ UM NOVO BLOG, DE CARA NOVA! ATÉ UMA NOVA TRANSFORMAÇÃO...

Atenciosamente,
Liszt Rangel

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cristo, uma mercadoria importada!

por Liszt Rangel
A religião cristã vem cumprindo, "magnificamente", a função de cada vez mais comercializar um judeu, filho de um pedreiro, que viveu no século I d.C. Sob a designação de Cristo, Yehoshú'a ben Yussef, foi tornado um produto. O Homem encantador que viveu ao lado de simples e analfabetos pescadores, foi substituído aos poucos por um mito. A produção do Cristo mítico da fé é em larga escala e os preços são elevados, afinal de contas ser escolhido pelo "Salvador" para ter uma cadeira cativa no Paraíso não é para qualquer um. Porém, tem gente disposta a pagar. 


O assunto, logo torna-se um campeão de vendas nas mãos dos que procuram soluções rápidas e mil maneiras de reinventar a realidade sofrida, e desta forma, ocupa as estantes das livrarias através de temas como, "Jesus - o maior Psicólogo", "Jesus um exemplo de líder para sua empresa", "Jesus e o Marketing", "Jesus, o maior médico de todos os tempos" e assim por diante...  Cada vez mais o desconhecido de Nazaré desaparece para ceder espaço ao Cristo, representante e fundador de uma religião salvacionista. Nascido na manjedoura, em Belém, morto entre bandidos e ressuscitado, o Cristo operador de milagres, agora os produz através de seus missionários, exclusivos portadores da palavra da salvação e que vendem curas à vista, no boleto ou no cartão em até 12 vezes sem juros. 


Disputando uma fatia deste rentável mercado, estão os cantores da renovação carismática. Mesmo à contragosto da CNBB, que finge que não está nem aí, mas em verdade se felicita pela volta do rebanho aos braços da Igreja, os padres cantores tentam resgatar as almas desviadas nos últimos dez anos para as mais de 1.500 (mil e quinhentas) denominações protestantes. De uns anos para cá, os adoráveis padres, que por sinal deixaram aquela imagem misteriosa dos monges medievais, agora se apresentam sempre bem vestidos com ares de Clark Gable, num misto de Fábio Júnior e Tacísio Meira, trazendo sempre um sorriso que combina com o olhar, arrastando multidões para a Fé Católica e ainda arrancam inúmeros suspiros das fervorosas irmãs em Cristo.


Do outro lado, estão os novos convertidos para Cristo. Os cantores de música Gospel ocupam as maiores paradas de sucesso e o público alvo, é claro, não podia deixar de ser os sem esperança, os sofridos, essa gente do povo... gente simples que trabalha duro e que antes apostava no jogo do bicho, fazendo a sua fezinha, mas que agora aposta numa vida tranquila, sonhando com a casa própria no céu, pondo a sua felicidade nas mãos de outra "gente", gente esperta que não trabalha, ou melhor, trabalha para Deus, que vive da religião e que tem "féde mais".


No âmbito deste comércio, a concorrência é acirrada e o interessante é que quanto maior a crise econômica, moral e espiritual, mais Cristo vende! No mercado da música gospel, onde "Jesus é dez!", ou "É o cara!" tem forró, axé music, sertanejo, romântica, pagode, samba, funk, rap, rock metal, enfim todos os ritmos exaltando "Só Jesus é o Senhor!".


O Cristo da fé, atualmente, se envolve até em jogos de futebol, recebendo orações de agradecimento após as partidas no próprio campo de batalha, à semelhança dos gladiadores romanos que agradeciam a Marte. Eles rendem graças a Cristo por tê-los ajudado, como seus atletas  a vencerem seus inimigos e também, é claro por ter deixado a torcida adversária chorando ou furiosa quebrando o patrimônio público e agredindo transeuntes na saída dos estádios.


É bem verdade que a música sempre teve seu efeito terapêutico, mas a religiosa que hoje se apresenta tem uma certa diferença dos sensíveis cantos gregorianos, dos vibrantes e disciplinados corais das Igrejas Batistas e Presbiterianas, ou indo mais ao passado, da arrebatadora sacralidade renascentista e da alegre e envolvente sonoridade pagã. Já vão longe os dias de almas inspiradas como Handel que compôs O Messias ou de Bach em Jesus Alegria dos Homens.


E o mais irritante desta musicalidade que comercializa Cristo está chegando... pois o natal vem por aí. Prepare-se para ouvir, tocando nas lojas Renner e na Riachuelo, Imagine de John Lennon, e aquela outra que quando toca, estimula depressão e suicídio, o clássico Então é Natal, de Simone, sempre em primeiro lugar nas Lojas Bompreço do grupo Walmartt. Para quem estiver sozinho, sem a companhia daqueles familiares falsos vale a pena se sentir mais egoísta, ouvindo Oswaldo Montenegro com a melancólica A Lista, sempre bem acompanhada de um vinho Quinta do Morgado para terminar a enfadonha noite de Natal.


Entretanto, para quem curte Cristo na manjedoura ao lado dos animaizinhos, é bom se preparar para gastar muito, pois tem guirlanda, árvore, estrela, presépio, presentes, coca-cola, salpicão, peru ou chester para a perigosa e em "cima do muro" classe média, composta de uma infinidade de comilões e comilanças noite à fora, ou melhor noite à dentro, dentro de sua casa é claro.


Essa gente não sabe que lhe deu muito trabalho arrumar tudo aquilo, pois acreditam que é um sonho de Natal, um presente de Cristo, quem sabe. Você passou o dia inteiro arrumando o apartamento para receber aquela turma da barra pesada, sempre cheirando a perfumes amadeirados. É um pessoal que não respeita seu esforço e nessa 'plebe rude' tem sempre um cunhado que vai fazer um comentário desagradável sobre tua filha de quinze anos e o playboy marombado com quem ela está de "rolinho", como dizem os jovens.


Não podemos esquecer do sem graça "Amigo secreto", que por sinal não é nada secreto, e sim indiscreto, porque todo mundo sabe quem tirou quem, mas todos fingem que não sabem, e que nem viram o ridículo sorteio dos papeis com os nomes previamente escolhidos. E é indiscreto sim... porque tem sempre alguém dizendo o que aquela prima azeda ou aquela tia velha precisam ganhar ou então, dá logo para ver a simpatia e a amizade reinando na família quando tira-se o nome do chato ou daquele que dizem ter tudo, e você pede para trocar o papel, alegando que tirou você mesmo. Que mentira!!!


Depois disso tudo, você vai prometer que este natal foi o último em sua casa, mas não se iluda não, porque ano que vem tem mais. Sabe por que? Porque tem mais Cristo no comércio, e toda sua família escravocrata estará em sua senzala.


Como se não bastasse tanto Cristo mercantilizado com código de barra, tem também o pirateado. Todos sabem que ninguém supera em chatice e irritação, o Jingle bells executado ao som de um odiento cavaquinho e que com certeza, você poderá ouvir nas Lojas Americanas, ou então, passando em frente de sua casa ou do seu trabalho naquele carrinho de ambulante que vende CD pirata. Para irritar mais ainda, o vendedor usa um ridículo gorrinho do Papai Noel!


Ai que saudade daqueles vira-latas que corriam atrás dos carros-de-boi, das bicicletas, dos caminhões do lixo, dos carteiros e das motos. As carrocinhas que tocam Jingle Bells mereciam conhecê-los!!!


Enfim... Cristo tornou-se ou não um recorde de vendas? É um sucesso inquestionável. Fizeram dele uma mercadoria importada, segundo os desejos e os interesses dos cristãos.


Discografia Sugerida na Crônica para seu Natal
http://www.vagalume.com.br/john-lennon/imagine-traduzida.html
http://www.vagalume.com.br/simone/entao-e-natal.html
http://www.vagalume.com.br/oswaldo-montenegro/a-lista.html
http://www.vagalume.com.br/george-frederic-handel/the-messiah-hallelujah.html
http://www.vagalume.com.br/bach/discografia/bach-em-instrumentos-antigos.html

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carl Rogers e o Self

Carl Rogers criou  a terapia
centrada no cliente
por Liszt Rangel
Ao contrário do que se costuma pensar, a palavra self tão usada no momento por celebridades e ilustres anônimos não tem qualquer relação com o ato de tirar a própria foto. A expressão inglesa pode significar, "Eu", "si mesmo", "personalidade", "natureza" e até "caráter". Sendo assim, tirar um self significa fotografar a própria imagem, porém a fotografia assim mesmo, não captará seu self.


Para Carl Rogers que propôs uma psicoterapia numa perspectiva centrada no cliente, "o self não é uma entidade estável, imutável" (Fadiman, p. 226). Ou seja, para ele o self é um processo constante e não pode ser comparado a uma fotografia que apenas congela o momento. Rogers queria que o indivíduo entrasse em contato com sua identidade, iniciando assim seu autoconhecimento e de forma contínua.


Por outro lado, o autoconhecimento não deve ser confundido com a tal da Reforma Íntima. Reforma se faz em casa e apto, até na garagem, ou quando chega no fim de ano, resolve-se passar uma mão de tinta barata no muro e depois que chega o inverno, chove e a tinta cai, mostrando as texturas dos anos anteriores. Isto, na verdade, poderia ser comparado com as máscaras das representações sociais que o indivíduo usa. O desconforto se agrava na vida psíquica do indivíduo por ele não conseguir conciliar seu self com seu ideal. E neste mundo virtual de photoshop, o que não falta em revista masculina e em facebook, é a busca pelo self ideal. Quanto maior afastamento da própria realidade, gera incongruência entre o self real e o self ideal, e consequentemente, mais o indivíduo neurotiza, tornando-se infantil, dificultando o seu amadurecimento psicológico.


Para Rogers, o autoconhecimento só é viável quando se entra em contato com o self, sem subterfúgios ou dissimulações. entretanto, o problema reside neste fator. O Homem não consegue ser autêntico, ou como Rogers definiria, "congruente". Para ele, pessoas congruentes são mais felizes, pois aliam o autoconceito, o que sabem de si mesmas e se aceitam como são, com o discurso e o comportamento (experiência). Veja por exemplo, as crianças, como são congruentes com o que pensam e falam (FADIMAN). Também não se deve confundir, "aceitar-se" com 'zona de conforto', 'comodismo' ou em expressar a natureza primitiva, sem a mínima "regra de civilização", como bem definiu Freud. Atualmente, este comportamento é chamado de Síndrome de Gabriela, "eu nasci assim, eu vivi assim, e sou mesmo assim, vou sempre assim, Gabrieeeela..."


Já os incongruentes, negam, frequentemente, o que sentem. Isto se aplica tanto aos homens quanto às mulheres. Ciúme, por exemplo, é um sentimento que geralmente é trocado por quem o sente por outro estado emocional e recebe o nome de "cuidado" ou "zelo", porém o comportamento desconfiado, e que mal trata o ser amado não quer dizer cuidado, quer?


Muitas vezes, na infância, os incongruentes foram crianças reprimidas por seus pais ou educadores. Podem tornar-se indivíduos indecisos e com baixa na autoestima, não se achando capazes para suas conquistas. Quanto maior incongruência, portanto, aumenta-se a soma de conflitos psicológicos, em especial a ambivalência, como as do tipo, "eu odeio este emprego, mas preciso dele!",  ou ainda, "minha família me sufoca, mas preciso dela, porém meu desejo mesmo é o de chutar o pau da barraca..." Situações como estas, tendem a levar o indivíduo a neurotizar, aumentando a sua ansiedade, tornando-a patológica. Não se deve porém, considerar toda pessoa incongruente como sendo leviana ou consciente no que faz ou sente, pois ela pode simplesmente agir assim por falta de referencial. Eis o porquê da proposta da terapia ser centrada na Pessoa.


Neste contexto, também a religião cristã teve uma negativa contribuição a dar quando ensinou ao Homem "pecador" a ser "bonzinho" na Casa de Deus, voltar a pecar durante a semana e retornar arrependido no domingo para confessar. Criaram uma sociedade de ansiosos e de hipócritas, o que gerou um emaranhado de conflitos entre ser e aparentar, mas enquanto isto, escolhemos a melhor fantasia para brincar o carnaval durante todo o ano. Isto implica também dizer que, quanto mais máscaras usamos, mais nos tornamos alienados. "Isto é o que, em nossa opinião, constitui o estado de alienação de si. O indivíduo faltou com a sinceridade consigo mesmo (Rogers apud Fadiman, p. 231).


Quando então obrigamos alguém, ou este se sente pressionado a expressar o que não sente ou o pior, o oposto do que sente, além de se tratar de uma auto-anulação que custará caro ao seu psiquismo, neste momento surge o processo de alienação. Assim, o indivíduo criará uma falsa auto-imagem. Neste ritmo, ocorrerá o quê? Aumento da ansiedade, crises de pânico, atitudes incongruentes e além de neuróticos, podem gerar até comportamentos psicóticos. E não é assim que se comportam os psicóticos? Ou seja, quando então, ao usarem demais seus mecanismos de defesa, se fragilizam e terminam por buscar um reequilíbrio através de experiências nada saudáveis, especialmente as que foram objeto de frustração. É por isso então, que este ciclo torna-se repetitivo, viciante.


Então, para Rogers, o caminho é entrar em contato consigo, experienciar-se, abandonar a rigidez, de forma que em suas escolhas não haja incongruência entre valores e bem estar psíquico, a fim de que seu contato com o self seja algo prazeroso, uma experiência com o seu eu, sem tirar fotografias é claro.

Assim, diminuirão os conflitos, a ansiedade generalizada, os infelizes episódios de pânico, de insatisfação e frustração consigo.


BIBLIOGRAFIA
FADIMAN, James., FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. Editora Harbra: São paulo, 1986



domingo, 26 de outubro de 2014

Corrupção - você faz parte disso?

por Liszt Rangel
Se bem que o subtítulo deste artigo poderia ter sido, Corrupção - Crime ou tradição? Pois é... se for levado em conta que este assunto já era preocupante entre os gregos e os romanos, teremos mais motivos ainda nos dias de hoje para trazê-lo à tona. 

Para os romanos, jamais um administrador de uma província poderia passar muito tempo no mesmo cargo, caso contrário faria acordos sórdidos com a elite local e se envolveria em desvios de dinheiro, como foi o caso de Pilatos na Judeia e de Marco Antonio à frente das províncias no Mediterrâneo. Outra figura emblemática e ao mesmo tempo populista em seu tempo, foi Herodes, o Grande. Quando os judeus passaram por uma grande fome, o rei cliente de Roma que governava a Judeia, mandou dizer ao povo que se solidarizava com seu sofrimento e que também ficaria sem comer em seu palácio. Mas desde antes, já havia posto em leilão o cargo de sumo-sacerdote às famílias mais ricas de Jerusalém. Eis o porquê da família de Anás e Caifás ter demorado tanto no poder e gozado de tantos privilégios. 

Como se pode ver em um breve passeio histórico, a corrupção é verme que corrói, semelhante às traças que devoram o tecido novo. O problema, entretanto, se alastra desde que a corrupção passa a ser percebida como um fenômeno natural, assumindo as características de normal, banal e a tratamos com indiferença. E assim, este ato criminoso, além de ter sido banalizado e tornado parte da cultura, passa a integrar na conceituação da moderna sociologia, a nova "moral total flex". 

Quem já não ouviu tais frases "quando ninguém está vendo", ou "como está muito difícil e não tem outro jeito", ou "mas é claro, se fosse outra a situação, não haveria necessidade para tanto", ou ainda "eu não sei de nada", ou outra também absurda, "eu assinei sem ler"... A corrupção está em todos os setores da sociedade, e não é apenas um privilégio de países de terceiro mundo como o Brasil. 

Rússia, Itália, Japão, China, Haiti, Somália, Sudão, Venezuela, enfim, a corrupção tem história e a brasileira também. Mas será que aumentou a corrupção ou será que foi a percepção da população que aumentou? 

Os antigos republicanos do século XIX já se queixavam da corrupção no império. Não escaparam da corrupção figuras como Getúlio Vargas e alguns militares da ditadura também foram acusados de corrupção, sem esquecer do "Minha gente não me deixem só!", Fernando Collor que se elegeu como o caçador dos marajás e que não conseguiu terminar o mandato. E não se pode deixar de citar os mais recentes, alguns destes já se foram para o além, e outros que ainda estão entre nós graças à caridade da equipe do Sírio Libanês que insiste em curá-los e devolvê-los a nossa sociedade. 

Estes corruptos carregam os méritos de terem como parceiros uma sociedade que de tão corrupta que é, chega a perdoá-los, com o lema, "rouba, mas faz!". Que frase linda... chega até a me comover... Seria poética, se não fosse trágica! Porque me comovo apenas com as vítimas dessa corrupção, mas os "companheiro" não têm ideia disso, porque o único vermelho que veem é a da bandeira deles e não o do sangue que sai do seio de uma mãe que de tão desnutrida, não pode amamentar seu filho.

As leis que sempre são criadas em países como nosso, já arranjaram nova definição que antecede ao corrupto, é o transgressor. Muitos são transgressores, e não são corruptos. Então, eles são apenas transgressores! "Corruptos", mas transgressores... Sim, porque há também quem transgride, mas que não corrompe. Nossa que confusão!!! Mas deu para entender... afinal quem não entende é quem diz que não sabia de nada... E as leis terminam por criar mais transgressores que se tornam com o costume, corruptos.

Lembro do fusca 68 que meu pai dirigia, quando eu era garoto. Ele era tão velhinho que parecia o carro dos Flintstones. Não tinha o salão para pormos os pés. E por aquele grande alçapão que havia no carro, entrava uma ventilação natural tão gostosa... Na época, exigiam tanta coisa para se ter um carro, e me lembro bem de um tal de kit para primeiros socorros. A população foi obrigada a comprar. Deveríamos tê-lo no porta-luvas do veículo. Meu pai pagava todas as taxas, tudo estava em dia para poder rodar e tentava obedecer a todas as regras. Todavia, o guarda que nos parou naquele dia de sábado não queria nem fazer cumprir a lei, nem apenas transgredir. Após vistoriar o veículo de um ao outro canto, perguntando se tinha até buzina, disse ao meu pai: "vou multá-lo por poluição visual nas estradas, pois seu carro está cheio de ferrugem!"

Poluição visual??? O que é isso, meu Deus? Que loucura!!! Eu era um garoto, mas sabia que não podia ter uma lei dessas. Meu pai sorriu e lhe disse que podia aplicar a multa! E o guarda de trânsito, ainda insistiu, "posso aliviar se o senhor quiser... basta colaborar com o Natal dos meus filhos que eu libero!" Meu pai era alto, magro e tinha cabelos pretos, não caberia em uma roupa de Papai Noel!

Esta foi minha primeira experiência com a corrupção e logo cedo descobri que leis e mais leis não fazem o sistema funcionar. Sabe por que? Porque o sistema está podre! Talvez precisemos de uma lei que seja criada para que se cumpra todas as leis existentes. Ou se faz uma reforma política neste país, acabando com a reeleição destes profissionais da politicagem ou vamos todos para o quinto dos infernos! 

Se bem que eu não acredito em inferno, tão pouco os envolvidos nos escândalos do mensalão já que estão todos sendo liberados para cumprir pena em casa, graças à bondade dos deuses! E em breve todos eles estarão rindo da nossa cara amarela de comedores de rapadura... enquanto se deliciam num enorme faisão, enquanto você vai ver na noite de natal, aquelas mulheres parideiras que se apropriam até dos filhos das vizinhas para preencherem as ruas da sua cidade à espera dos que distribuem sopa e brinquedos usados... você dirige para jantar na casa da sua sogra, vai ouvir o jingle bells, pensando que o mundo está melhorando porque você pode este ano assistir a um jogo da copa, pode comprar um carro novo, popular, com zero de entrada e o saldo em 60 parcelas de R$ 989,25. E o vendedor lhe fez ainda acreditar que a taxa de juros é zero... 

Esta sociedade de consumo que dá esmolas e que seus governantes dão "bolsas", não é capaz de se privar de seu Iphone nem de sua bolsa Prada, ou de sua camisa Lacoste para vestir quem está com frio. As perspectivas não são nada agradáveis. Não sei nem o que comemoramos na noite de domingo de 26 de outubro. Eu não tenho nada a comemorar faz um tempinho... 

No mesmo tempo em que você lê minhas queixas, o dólar só aumenta, a indústria tem mais uma queda, há fuga de capital estrangeiro, dispara o risco Brasil, a Petrobrás tem suas ações desvalorizadas e a famigerada inflação volta galopando, tão veloz quanto o cavaleiro sem cabeça em sua lenda! Mas isto chamado Brasil, não é uma lenda, não é um pesadelo, é a minha, é a sua realidade. Bem como a realidade daquela economista de 57 anos, altamente qualificada que está desempregada, e que ainda teve que ouvir de Coração Valente, o cover do "Mel Gibson", em plena cadeia nacional que "ela precisa estudar no Senai, quem sabe no Pronatec se quiser arranjar um emprego". Só faltou Mel dizer que ela também vai ser colega de turma de Guido Mantega quando ele for demitido. 

Muito petróleo ainda vai jorrar neste governo e tomar as ruas da Pátria do Cruzeiro (por favor, sem menção alguma à utopia chamada Brasil Coração do Mundo...) Deixemos o fanatismo para os alienados! O produto que consumimos já está com a validade vencida, são os paradigmas e as crenças que estão velhas e carcomidas, e estas já não servem mais nas prateleiras deste país. Como dizia o Cazuza, "meus herois morreram de overdose!" E quem são os herois, salvadores de nosso Brasil, de nossa gente?

Um Robin-Hood às avessas? Uma militante que combateu a ditadura com assaltos? São esses nossos ídolos? Nossas fontes de inspiração? São os mesmos de ontem e que beijam os pés de outros ditadores? Interessante isto... Como qualquer brasileiro, sou contrário a qualquer violação dos direitos humanos ou a qualquer outra violação. Sou contra até o abuso de submeterem os Hamsters a serem obrigados a ficar girando naquela rodinha idiota que seus criadores retardados os colocam só para verem estourar o coraçãozinho desses pobres coitados... 

Voltando, então, à ditadura e deixando o pobre do hamster para lá...Odiamos a ditadura, não queremos nem ouvir falar nela, mas Robin e a Coração Valente (que Mel Gibson não saiba disso) só tem amigos ditadores. Não é incrível? Sem falar das mesmas medidas populistas do índio, Evo na Bolívia e do maluco do Chavez que passou o cargo de diretor do hospício ao Maduro.

Finalmente, quem são nossos líderes políticos? Quem nos restou? Oh que angústia pungente... é um drama shakespeareano: "to be or not to be, ficar calado ou falar, enfim, achei melhor escrever. Mas se não gostou, tem problema não, vai assistir Coração Valente, mas vou logo avisando... no final ele perde a cabeça!!!      

domingo, 19 de outubro de 2014

Sexo em Pompeia - do poder do falo ao lupanar

Pintura na parede, retrata os serviços das mulheres no Lupanar
por Liszt Rangel
Quem já visitou o sul da Itália, ou leu em algum livro ou assistiu documentários, deve ter conhecido ou ouvido falar de Nápoles, Capri, Herculano e a famosa Pompeia. Esta, mais uma vez, recentemente, inspirou um roteiro cinematográfico, "Pompeia". O filme não é nem uma obra prima, mas tem seus méritos por trazer à tona um importante acontecimento da história da Humanidade. Basicamente, ele narra um ardoroso romance entre um escravo celta e a filha de uma família aristocrata. O Vesúvio e a tragédia ocorrida na região, também recebem atenção, enquanto a narrativa central, num misto de amor e vingança se desenrola. 

A vida quotidiana da cidade é apresentada aqui e ali através de suas ruas movimentadas, e também não ficou de fora mesmo com rápidas cenas, a bela arquitetura de suas casas, o formato das ruas com o comércio dos pequenos restaurantes e das padarias. As famosas batalhas dos gladiadores também recebeu enfoque, afinal de contas qual província romana que privaria o povo desses espetáculos? Mesmo sem apresentar os famosos lupanares, o filme mostrou um pouco a adoração em torno do gladiador como objeto sexual. Vistos como homens viris, serviam como atrativos sexuais para mulheres ricas de Pompeia que os escolhiam como objetos expostos para uma noite de prazer.

A vida sexual de Pompeia e que não é apresentada no filme, não difere muito das demais localidades do império romano, mas talvez o enaltecimento que se tenha dado por parte dos turistas de uma Pompeia devassa, se dê pelos achados arqueológicos na cidade, até porque sexo é sexo e é praticado por todos os povos. Para tanto, basta lançar um olhar sobre outros lugares famosos pelo atrativo sexual, e logo ver-se-á que Pompeia fica bem atrás de algumas cidades na Índia, no Japão e na Tailândia que realizam festivais em comemoração ao pênis, possuem templos onde ele é adorado e cultuado não apenas como símbolo de poder, mas também como exaltação à vida sexual, sem deixar de citar, é claro, o famoso Kama Sutra

Puritanismos* à parte, talvez a perspectiva ocidental também esteja impregnada pela conceituação cristã que sempre associa o sexo ao pecado e à perda do Paraíso e da felicidade eterna. Se bem que nesta relação pecado versus salvação não se sabe quem foi mais pecador, a família dos Bórgias que inundou a Igreja Católica de corrupção, perversões sexuais e luxúria nos séculos XV e XVI ou se Messalina, esposa do imperador Cláudio (41-54 d.C), por ter feito sexo durante um dia e uma noite com 25 homens, quando então se dispôs a derrotar em uma orgia sexual a maior prostituta de Roma. E a derrotou! (PLÍNIO, História Natural, 10.172).

Dentro dos achados arqueológicos em Pompeia, o que mais atrai a curiosidade da gente alegre e festeira de diversos cantos do mundo, realmente, é o sexo. A atração por este tema é tão intensa e sedutora que fez você mesmo, caro leitor, que agora devora este artigo, criar talvez, uma imensa expectativa do que virá linha após linha. Mas não se iluda, pois este objeto de estudo diante de seus olhos, trará como finalidade maior, demonstrar a visão romana acerca do falo, mesmo observado na representação do pênis e sabendo que quando se trata de sexo, tudo é possível, até a área das perversões sexuais, estudada por Sigmund Freud. Todavia, o capítulo das perversões terá espaço em uma outra abordagem.   

Esta imagem também aparece nas casas
No início do século XIX, uma placa considerada obscena pelo governo italiano e juntamente com outros objetos fálicos, foi posta sob sigilo no "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu de Arqueologia de Nápoles. A referida placa é a que se encontra ao lado, foi encontrada sobre o forno de uma padaria e traz a inscrição em latim, "A felicidade mora aqui". Era usada para afastar os maus espíritos do estabelecimento comercial.

Parece uma piada, mas não é! E a ironia é maior ainda, quando há poucos anos, este acervo pertencente aos achados arqueológicos das escavações em Pompeia e na região, veio à público, justamente durante a última gestão (2008-2011), do primeiro ministro italiano, Silvio Berluscone, envolvido em corrupção e escândalos sexuais. Será que foi coincidência ou obra do acaso? 

Deixando de lado Berluscone, e voltando então para Freud, que sem dúvidas é mais chocante, porém mais instrutivo, no que diz respeito a questão do pênis e da vagina, ele revisou por várias vezes suas teorias acerca da sexualidade feminina e masculina, e apesar de considerar o assunto por demais complexo e que não poderia dar a palavra final, ele dirigiu sua análise para algo além das diferenças entre as formas anatômicas. Mostrou com isso a ligação entre poder e castração relacionados à menina e ao menino. Na linha deste pensamento, chegou a dizer que as mulheres invejam os homens por não terem o pênis, e também analisou a relação do ódio da filha para com a figura materna. "Observa-se com facilidade que as meninas compartilham plenamente a opinião que seus irmãos têm do pênis. Elas desenvolvem um vivo interesse por essa parte do corpo masculino, interesse que é logo seguido pela inveja" (Freud, 1976, [1908], p. 221).

O que se deve entender aqui em uma análise histórica e porque não, até em uma perspectiva da própria Psicanálise, é que o falo não deve ser confundido ou simplesmente reduzido ao órgão genital masculino, mas ele está sim, associado a toda uma relação simbólica. No caso de Pompeia, as fachadas das casas, o calçamento das ruas, a intimidade dos estabelecimentos comerciais como as padarias possuíam imagens de pênis, algumas vezes desenhado, outras em relevo na parede, no chão ou até em forma de sino dos ventos, com asas, para decorar e trazer oportunidade de enriquecimento. Uma outra referência ao falo vem com a imagem do deus Príapo que com seu enorme pênis ereto, sua imagem era colocada em meio às plantações ao lado de frases nada agradáveis, carregadas de ameaças do que o deus iria fazer com os meninos e as meninas que tentassem roubar as frutas.

Verifica-se assim, que o falo (pênis simbólico) carrega outros significados, ou seja, não se trata apenas de "poder" relacionado à virilidade masculina, mas de algo ligado à ambição, ao privilégio de receber a sorte, sem deixar de citar que para o pensamento da época, o falo teria o poder de afastar até os maus espíritos.

Porém, seria inocência negar que Pompeia respirava sexo. No dia da erupção do vulcão Vesúvio, 24 de agosto de 79, a cidade tinha entre 10 e 15 mil habitantes (FUNARI, 2003) e 25 prostíbulos, os conhecidos lupanares.
Um dos quartos do piso
inferior de um Lupanar
Lupanar é uma expressão que vem do latim e significa "covil de lobas". O mais interessante deles fica na ruela do Lupanar, localizado bem de esquina, num cruzamento entre duas ruas secundárias. Ele possuía dez alcovas que se distribuíam entre o piso térreo e o primeiro andar. Pelos grafites encontrados nos prostíbulos e que sobreviveram até hoje, vê-se pela escrita que a clientela era bem diversificada. A estrutura do local também ajuda a identificar a classe social dos frequentadores. Os andares de cima tinham camas melhores e mais espaçosas e eram para clientes ricos e as do piso inferior eram apertadas e mais expostas. A cama era feita de cimento e recebia um saco com preenchimento nada muito higiênico, e ali eram espalhadas algumas almofadas. As paredes retratavam cenas de sexo como se fossem propagandas do que as mulheres ali vendiam aos que procuravam prazer.

Portanto, Pompeia não é bem aquilo que a nossa imaginação elabora, tão pouco o que o cinema retrata. Pompeia foi uma província romana que não pode ser vista como uma Dubai dos tempos modernos, muito menos uma Sodoma bíblica e que foi construída apenas para que os pagãos curtissem suas férias. A província enfrentava sérias questões sociais e econômicas, e refletia uma realidade bem difícil, mas isto já faz parte de uma outra história...


* Puritanismo - Segundo o dicionário histórico de religiões, foi um movimento religioso que surgiu na Inglaterra no reinado de Elisabete I. Depois, ao longo do século XVII, com a formação da América, muitos puritanos desembarcaram nos EUA com o objetivo, segundo eles, de ajudar na formação moral daquele país. Os chamados "pais peregrinos" fundaram a colônia de Plymouth e com a presença deles o estado de Massachusetts tornou-se teocrático e puritano. Eles viviam sob o regime da intolerância, e os ditos "santos" da Igreja além de levarem uma vida isolada, respondiam até pelos direitos políticos. 

** FOTOS - LISZT RANGEL

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREUD, Sigmund (1976). Sobre as Teorias Sexuais das Crianças. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., vol 9, p. 211-230). Rio de Janeiro. Imago (trabalho original publicado em 1908). 

FUNARI, Pedro Paulo. A Vida Quotidiana na Roma Antiga. São Paulo: Annablume Editora, 2003.      

domingo, 12 de outubro de 2014

Morte - Um caso de vitória!

por Liszt Rangel
Apesar de fazer muito tempo... Eu nunca mais esqueci de dona Juliete, 68. Ela chegou e se apresentou após uma palestra. Pelos olhinhos inquietantes, estava querendo muito falar. Mas depois que começou a sua narrativa, o seu rosto pesou e foi visível a sua tristeza. Fora diagnosticada com câncer na tireoide, um tumor do tamanho de um pequeno limão. Os médicos não lhe deram mais do que entre 4 e 8 meses, após tratamento. Foi aí que ela me perguntou:
- Que faço?
Eu lhe respondi: - o melhor!
Ela me disse: - Não sei o que é o melhor?
Eu lhe esclareci: - Aquilo que nos faz bem, que nos deixa leves, livres...
- Mas não há mais tempo, - obtemperou ela.
Eu lhe respondi sorrindo, para provocá-la (sim, porque, muitas vezes, as pessoas precisam ser provocadas através de um choque), - A senhora ainda tem quatro meses, e eu posso ter apenas doze horas!
- Como assim? - indagou ela.
- Posso sair daqui e sofrer um acidente de carro ou infarto, esclareci.
- Meu Deus, que horror!, falou ela
- A diferença entre nós dois, dona Juliete, é que a senhora já comprou o bilhete do trem e daqui há quatro meses se o trem não atrasar, a senhora vai viajar. Quanto a mim... não sei quando vou, serei pego de surpresa e isto não é bom, porque chegamos na estação sem mala alguma.

Ela pôs-se a chorar. Quando parou, disse-me que tinha duas grandes mágoas da vida. 
"Eis o problema, - pensei comigo - guardamos comida podre na geladeira e depois perguntamos porque adoecemos. É claro comemos coisas estragas por muito tempo, o que há de se esperar?"

Então, perguntei:
- Quais mágoas?
A primeira, foi relacionada ao marido que a traía com a sua melhor amiga! Durou mais de 30 anos.
A segunda mágoa era da filha que a mal tratava em casa...

Eu fiquei calado, pensando o que diria àquela mulher que podia ser minha mãe. Sabe, não é fácil falar a quem está perdendo na vida, porém admito que o pior é não mostrar ao outro o quanto ele está perdendo, o desafio é maior, é tentar apresentar a ele uma nova perspectiva de vitória, aprender a se tornar melhor com a dor ao invés de arrastar toda a família para uma crise existencial e repetitiva de doenças. Para mim, é tudo ou nada! Não aceito pessoas indiferentes! Como diria o estranho Paulo de Tarso, "quente ou frio, nunca morno!" Então, não dá para ficar assistindo e ainda aplaudindo o espetáculo do horror!!! Ela estava doente e não importava agora a origem de sua dor, apesar de haver a possibilidade na mágoa, na simbologia do "nó preso na garganta" estar relacionada à doença. Segundo, a psicossomática esta energia retida, traumatiza o corpo, adoece e pode matar!

Então, tomei coragem e lhe perguntei: - a senhora acredita em algo em sua vida?
Ela me disse que sim, que acreditava em uma vida além da morte. As pessoas precisam ser respeitas em suas crenças e convicções, até porque muitas vezes foi nelas que elas se agarraram e até se alienaram. 

Aproveitando esta deixa, falei: 
- Bem, para a senhora, se a vida continua, o que nos interessa agora e no além não é porque a senhora sofre, mas como a senhora vai enfrentar a dor e a morte. Porque sejamos honestos dona Juliete, aqui ou acolá a senhora deve se preocupar com o COMO  e não com o porquê. Se eu e a senhora vamos morrer, então como ficaremos no mundo dos mortos é o que nos interessa. A senhora não acha? Ela balançou positivamente a cabeça...

Agora foi a vez dela me perguntar:
- E como devo então me livrar deste peso da mágoa?
- Primeiramente, respondi-lhe, dialogue com quem lhe magoou. Exponha a quem lhe fez mal, suas queixas para dar ao outro a oportunidade de seu arrependimento e de sua tranquilidade ao abrir-se para o perdão. Caso ele não lhe perdoe, o problema será dele, mas a senhora seguirá mais leve. É preciso se perdoar, dar-se uma chance de verdade para ser feliz e não aquela pela metade em que se fica sabotando.

Ela então, me deixou em uma encruzilhada ao me dizer:
- Mas meu marido já morreu!!!

Uiii, gelei! Mas logo puxei a sua convicção de volta e lhe disse:
- Então, se a senhora sabe que a morte não existe, está na hora das preces e orações que a senhora faz, e nelas começar a dialogar com ele, não ruminando o passado, mas tentando uma reconciliação, uma diálogo honesto, com seu coração transparente.

Este é um grande problema que temos. Maliciosos, não somos mais como as crianças, transparentes. Estamos acostumados a ser vistos com crítica e com isso, passamos a representar. Então, lhe dei um reforço na ação:
- Converse com seu Antonio, dona Juliete, pois será melhor que a senhora fale com ele agora do que após a morte. E ele se apresentar na estação para receber a senhora descendo do trem...???

Ela sorriu e me disse, Deus me livre...
Porém ela prometeu se esforçar... Iria dialogar com a filha problemática, falar-lhe das mágoas..., ou seja, ela iria libertar-se das amarras do ressentimento. E eu fiquei torcendo por ela. Porque torcer pela vitória do outro, é torcer pela nossa, pois ele em sua capacidade de superação pode nos ensinar e muito.

Porém dona Juliete, sumiu...

Cinco meses depois ela entrou no salão em que eu acabara de realizar uma palestra. Tomei um grande susto, pois já havia passado o prazo de validade de vida dela e eu a estava vendo. Apavorei-me, achando que ela tinha vindo me cobrar algo do além...

Ela me abraçou e me disse bem feliz, o tumor sumiu! Os exames mostram isso.
Eu chorei ao seu lado. Nos abraçamos demoradamente... E antes que ela se fosse, me disse que havia ficado livre das mágoas, e que agora eram apenas cicatrizes da vida. Então, eu lhe disse:
- Certa feita eu conheci um médico que escreveu um livro maravilhoso e gostaria de lhe dar de presente. 
Eu lhe ofereci o livro do Dr. Marco Aurélio, intitulado, "Quem ama não adoece".
Mas na saída lhe disse:
O Dr. Marco Aurélio, adoeceu e morreu, viu dona Juliete!!!

Ambos sorrimos. Acho que sorrimos do inevitável. A morte! As vezes é bom dar uma gargalhada para ela... Mostrar-lhe que ela não nos assusta.
Quase dois anos depois, recebi a notícia da morte de dona Juliete. Foi dormindo, uma parada cardíaca. Ela se foi e nunca mais a esqueci. Para mim, ela venceu não apenas a doença, mas a morte, pois tornou mais bela e digna a sua vida e tornou tranquilo o seu morrer!

Dona Juliete antes de curar o corpo, curou a alma...  

domingo, 14 de setembro de 2014

Você vai morrer!!! E agora?

por Liszt Rangel
A reflexão acerca da própria finitude remete o indivíduo ao desespero e ao mesmo tempo ao manejo de todos os recursos disponíveis para tentar evitar o inevitável, que a grande mensageira da verdade está galopando velozmente em sua direção. Sabe-se quando ela chegará? Não! Ou ao menos, sabe-se por que você, entre tantas pessoas, foi escolhido para morrer? Também não se sabe esta resposta. Porém, a única certeza que qualquer o Homem tem, é a de que vai morrer. Aliás, já passou a morrer desde o instante que começou a viver.

Entretanto, saber que a morte está mais próxima do que se pensava e esperava, é algo por demais chocante. Segundo Kübler-Ross (1996), o paciente quando recebe a notícia de que o término de sua existência está próximo, geralmente, ele atravessa algumas fases no contato com o morrer e com a sua morte. Porém, ela adverte que nem todos passam pela mesma ordem sequenciada, e há outros pacientes que estacionam em algumas das fases do morrer.  

Ao saber que se encontra vítima de uma doença fatal, como certos tipos de câncer, por exemplo, naturalmente a primeira reação do paciente é Negar . Frases do tipo, "quem tem câncer é sua mãe, doutor!!!" Ou, "Eu??? Com câncer? Que brincadeira é esta?" E se dirige aos familiares, dizendo: "Ele está louco, me dizendo que tenho "aquela" doença. A negativa e o medo da doença são tão intensos que muitas pessoas nem falam o nome câncer, chamando a doença de "aquela" ou simplesmente, "aquela que começa com C". 

Já pude presenciar uma mulher, 56, vítima de uma câncer no aparelho reprodutor, que nunca chamava a doença pelo nome. Ela apenas dublava a palavra, sem emitir o som. E assim ela contava as pessoas como estava o tratamento, mas na hora de falar a palavra câncer, ela apenas movimentava a boca, como se fosse uma mímica labial. Quando questionei o porquê dela nunca emitir o som da palavra, ela me disse que era porque no hospital não tinha madeira para bater três vezes, pois falando a doença, a mesma não a deixaria e tocando na madeira, ela seria isolada da doença.

Ao lado desta negativa do paciente terminal, também aparece a negativa da família. Posturas como, "Não, isto só pode ser um erro médico", ou, a mudança de médicos e toda uma bateria de exames sendo repetida diversas vezes denotam a fuga para diminuir o choque da doença. Entrar em contato com morte do outro também nos apavora, porque nos mostra o quanto somos frágeis. 

Do ponto de vista psicológico, a negação é uma tentativa do psiquismo do paciente de diminuir os danos emocionais e psíquicos ao receber a notícia de que seu fim está perto. E o pior de tudo, é que ele não se preparou para ele.

Mas antes dele pensar que é hora de ir embora deste mundo, a Dra. Kübler-Ross percebeu que muitos são tomados pelo segundo nível do morrer, o da Revolta. Geralmente, o paciente que foi cristão a vida toda, usa como principal alvo de sua indignação, Deus. Sim, até porque o Deus dos cristãos é o Deus das lacunas, ora ele está presente, preferencialmente, quando tudo está bem, ora ele não está, quando tudo vai mal. Sendo assim, ninguém melhor do que Deus para ser o culpado de nossa dor e morte. Frases do tipo, "os desgraçados deste mundo que vivem aprontando na vida, vão viver, e eu vou morrer?" Por que eu, Deus?", "Por que o senhor fez isto comigo?" "Por que me escolheu?" "Com tanto bandido por aí, logo eu?" 

Esta postura revela traços egoístas do paciente, e não apenas o desejo de continuar a viver. Ele está revoltado não é porque ele vai morrer, mas porque outros que na visão dele, não merecem viver, vão continuar gozando. Isto é muito observado por profissionais da saúde, bem como por psicólogos que atuam em hospitais. O paciente mal trata os auxiliares, grita com os colegas de quarto, joga o alimento no chão, nega-se a dialogar educadamente com o médico, usa de ironia, enfim... até que um dia ele desperta pela manhã e algo nele começa a mudar.

Quando ele começa a viajar pelo mundo, tentando tratamento em tudo que é país, gastando o dinheiro da família, ou quando se põe a pedir em preces pela sua cura, a voltar o olhar para Deus, buscando fazer as pazes e bater na porta de terreiros, centros espíritas, ou regressa para o Catolicismo, religião tradicional, a qual pertenceram seus pais, ou chega até mesmo a apelar para a Igreja Universal, ele está entrando na terceira fase, a Barganha

Ele agora usa a caridade, "é bonzinho", pensa nos meninos da creche, nos velhinhos do abrigo, tenta fazer o bem até à sogra. Outros buscam terapias alternativas com luzes, cristais, energizações, banhos de lama, fazem penitências, ou seja, o desespero os toma, e nesta hora vale tudo! Se por um lado, este é um mecanismo de defesa usado pelo paciente contra a dor psíquica, por outro, ele está adiando o que terá que enfrentar em breve, a sua morte. Mesmo ignorando, não é a morte a sua única acompanhante nesta hora, mas a vida está operando em transformação em seu íntimo e não apenas em seu corpo.

E pensar na morte, após ter recorrido a tudo para escapar dela, leva-o ao quarto estágio do morrer, a Depressão. Deprimido, o paciente, não deseja ver ninguém, não quer visitas, manda dizer que não está em casa, se isola no quarto, também não se alimenta... porém, não se deve pensar que ele está se entregando. Não, não é isso! Ele agora começou a refletir sobre sua doença e está revendo sua vida, como se estivesse arrumando a mala para viajar. Ele abre o guarda-roupas e diz para si: "Por que guardei esta peça por tanto tempo dentro de mim?", Será que foi isso que me adoeceu?", "Por que não me desfiz das mágoas?", "Por que não vivi aquele grande amor e fugi covardemente?", "O tempo passou tão rápido para mim e não tive as oportunidades que queria, mas também as que tive nãos as aproveitei." 

Após este período, quando ele pedir para comer ou para abrir a janela, quem sabe pedir que alguém o ajude a organizar o testamento, ou simplesmente, pedir para que lhe tragam o álbum da família, é porque ele está pronto! Entrou na quinta fase, a da Aceitação. O que não quer dizer resignação. O paciente, diz para si, "bem, como não tem outro jeito, eu vou!"

Lembro de Jussara, 42, também com câncer, mas distribuído em três partes do corpo. Dois filhos, um menino e uma menina, cinco e oito, respectivamente. Vieram buscá-la na casa da prima, a pedido de Jussara que desejava morrer ao lado do marido que havia ficado no interior, enquanto ela se tratava na capital. Ela me disse na saída, "Não nos veremos mais, nem nos falaremos, Liszt. Agora devo voltar, enquanto ainda há tempo para pedir perdão àqueles a quem fiz mal." E se foi. Se foi primeiro para o interior. Se reconciliou com seus desafetos, depois, ela se foi para outra realidade, haja vista, tudo que nos cerca tratar-se de uma grande ilusão. E ela só foi, porque as malas estavam prontas. E que bom quando dá tempo de arrumar as malas. 

Por isso, como nunca sabemos quando a dama da morte, a grande mensageira da verdade nos visitará, é sempre bom deixar algumas peças já arrumadas na mala, porque quando o trem chegar na sua estação, você não esqueça de estar de posse de seu bilhete. Também é bom, evitar aqueles shows e  espetáculos de certos familiares, que mais atrapalham o moribundo do que o ajudam em sua libertação. O doente terminal que estacionou em uma das fases, também não ajuda, dando vexames, do tipo, "eu não quero ir, eu ainda tenho tanto o que fazer por aqui..." e começa a chamar pelo nome dos parentes, e grita e chora. 

Ora essa, você em vida foi um vitorioso, chegou chorando quando nasceu, é verdade, mas por que justo na hora de partir, não sai de cena sorrindo? Na verdade, somente sabe, portanto, morrer bem, quem soube bem viver! 

O problema não é a morte apenas, é o morrer que torna-se inaceitável. Então, como terapia pessoal, é bom de vez em quando, se perguntar, "Eu vou morrer, e agora?" Ou então, usar outra sugestão, "eu morri! Como me sinto agora?" Geralmente dá uma angústia. Pode ter como causa os preconceitos sobre o assunto, ou pode ser a sensação de finitude, ou quem sabe o pior, a prova que temos muitas coisas para fazer e que deveríamos tê-las feito. Então, façamos, enquanto ela não nos surpreende.

Que tenhamos todos uma boa morte!

 BIBLIOGRAFIA
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.