domingo, 30 de agosto de 2015

Sociedade e Valores - Ontem e Hoje!

Romanos e Gregos optaram pela capa vermelha

por Liszt Rangel
Durante muito tempo, o estilo de vida romano da antiguidade predominou, principalmente após o declínio da cultura helenística. De uma certa forma, seria absurdo dizer que esta desapareceu, mas foi tomada emprestada sob alguns aspectos, segundo a Teoria dos Empréstimos da Sociologia, pela cultura avassaladora dos que surgiram da Bota Italiana, erguendo o estandarte da Águia. Roma não era apenas um sonho concretizado de imperadores ambiciosos, de generais estrategistas e senadores corruptos. Roma era muito mais... 


Roma era um estilo de vida, era um jeito de se vestir, de ter um status, de estar presente ainda que na condição de dominado, e sentir-se apesar dos desmandos, pertencente a uma ordem, sob a égide da Pax Romana, fazendo parte do mundo dos "civilizados". Mesmo sendo judeu, egípcio, bretão ou grego, o estilo romano era contagiante. Uma moeda forte, a arquitetura de suntuosos palácios, templos e fóruns, a construção das moradias com suas ornamentações luxuosas, contrastavam com a pobreza da periferia fétida esquecida da capital do vasto Império.


Francês da Pós- Modernidade, 
mas a capa continua...
O estilo de hoje, já se encontrara entre os antigos romanos. Eles ditaram e marcaram de forma singular, estimulando a moda, a intensa comercialização de azeite e vinho, a fabricação de utensílios para o lar que deveriam estar presente na mesa da elite, quer na casa de campo ou em sua residência portentosa. Enquanto isso, a presença da massa nos jogos revelava não apenas a sede de sangue de uma sociedade belicosa, mas também, os estados alterados de consciência que cultivavam a alienação e o esquecimento da desigualdade diante das privações de vária ordem.


Não muito longe dali, a ocupar os privilegiados lugares dos anfiteatros e das arenas, estava a Nobreza, o Senado, o público seleto com seus banquetes sempre cercados por bajuladores, beberrões e glutões que deram início aos primeiros casos de bulimia, como se verifica nos vomitórios construídos, a fim de que o participante da festa ao sentir-se empanturrado de tanto comer, pudesse assim provocar a expulsão dos alimentos e voltar a se fartar. Com isso, todo tipo de prazer não tinha limites e se prolongava até o amanhecer...


Mesmo tendo passado mais de XV séculos da queda do Império, Roma de uma certa forma ainda vive ou pode ser revivida nos cenários da Pós-Modernidade. A Águia com suas enormes asas douradas sobrevoa o cenário político seja de países pobres como os da América do Sul ou do continente africano. Ainda a vemos sobre o Capitólio com sua indústria armamentista, fabricando vítimas no Oriente ou em suas próprias escolas. A poderosa Águia ainda é erguida do outro lado do Atlântico pela Comunidade Econômica Europeia ou pela Inglaterra, e que ao lado dos EUA podem ser vistas como reorganizações de um imperialismo nos dias atuais.


De forma dominadora, a grande ave está nos países do primeiro mundo que devoram e esgotam a maior fatia das riquezas naturais do Planeta. Os imperadores atuais, quer aqui ou acolá, travestidos de Chefes de Estado, apresentam os mesmos sintomas da "Loucura Cesariana" que assombrou o psiquismo de Tibério, Calígula e Nero. O Senado envolto em corrupções ainda fazem seus investimentos em propriedades particulares, e com o objetivo de passarem despercebidos, aprovam obras faraônicas à custa de altos investimentos que simbolizam o poder passageiro.


Estádio Mané Garrincha em Brasília - Custo de 830 milhões
de dólares, cerca de 1 bilhão e 500 milhões de reais
As altas taxas de impostos cobrados à sociedade romana se estendia às demais, nos territórios aonde Roma, também, se fazia presente através de seus reis-clientes. Visavam com isso, cobrir as despesas de administrações desastrosas todas as vezes em que os cofres públicos estavam vazios. Tal iniciativa não é diferente das que foram praticadas na realeza francesa da coroa Bourbon, e da que ainda hoje, é amplamente feita quer sobre a dividida e perigosa classe média, quer sobre a massa esquecida e sufocada que sempre bancam as despesas dos excessos e dos luxos de uma pequena elite. Enquanto isso, na tentativa de manter a alienação social, multiplicam-se nos octógonos de MMA ou nas arenas das Copas, os atuais gladiadores e atletas de Cristo.

Documento em museu ao sul da França
que apresenta projeto de uma arena romana
Não escapa aos olhos do bom senso, o superfaturamento destas e outras realizações megalomaníacas que garantem o prestígio social ao lado de medidas populistas e burlescas, cada vez mais ascendentes e que silenciam àqueles que só tiveram direito de gritar no passado MORTE ou VIDA, e agora bradam, É GOOOLL!!!

A periferia mesmo reclusa e esquecida, insiste em se fazer teimosamente presente. Na capital do Império, estiveram nas casas de madeira que foram incendiadas para a construção de uma Roma mais moderna. Cá, as palafitas junto com as residências dos bairros antigos foram derrubadas para a construção de shoppings e enormes arranha-céus, e assim levaram também as lembranças de uma infância inocente em que não era perigoso sentar-se em frente de casa para dialogar ou, simplesmente, fazer girar um pião.


O perigo agora está dentro das casas, ainda que vigiado por câmeras, fechado em condomínios com cercas eletrificadas ou dirigindo automóveis com alarmes, travas e vidros protegidos, o cidadão da Pós-Modernidade trocou a liberdade pela segurança, e ficou trancafiado em seu Egoísmo, prisão sem grades de uma existência destituída de valores edificantes, e por isso  faz-se portador de um imenso vazio, que pode ser também interpretado como ausência de um sentimento de pertencimento e perda da identidade.


Qual o seu lugar? Quem ele é? De onde e para onde vai? O que finalmente o faz feliz?


As respostas para tais perguntas tão antigas e que perseguem o Homem onde quer que ele vá ou em qual época se encontre, valem mais do que todos os impérios sonhados e conquistados!


*** Fotos do Francês e do Documento da Arena Romana - Liszt Rangel

domingo, 5 de julho de 2015

Lançamento de Livro Novo - AMO, LOGO EXISTO!

por Liszt Rangel
Olá amigos e amigas leitoras, estou lançando o meu mais novo livro, Amo, Logo Existo!
Editado por uma das editoras mais sérias, o Instituto Lachâtre, o livro propõe uma reflexão acerca do Amor, de vários amores, bem como das formas de amar!

Você ainda viajará comigo ao mundo da Mitologia e da Psicologia e se emocionará com grandes lições de vida! O livro, também, narra minhas experiências no contato com o outro, durante as viagens de pesquisa e descortina um universo repleto de exemplos de superação, simplicidade e alegria de viver. 

Em verdade, cada história aqui narrada, nos levará a refletir acerca do Sentido da Vida, seja quando amamos ou quando sofremos! 

Na obra, tive a oportunidade de aliar as experiências aos estudos de Abraham Maslow, Martin Buber, Victor Frankl, Carl Rogers e Bauman.

E a promoção de venda do livro vale para as primeiras cem pessoas que adquirirem a obra pelo e mail: lisztrangel@hotmail.com

As cem primeiras pessoas que comprarem o livro pelo e mail, terão 50% de desconto no ingresso do seminário de lançamento oficial do livro em Recife. Atenção!!! Esta promoção vale apenas para o seminário em Recife!

Espero que gostem!
Abraço, Liszt


domingo, 28 de junho de 2015

Por dentro do Judaísmo - Quem disse que os judeus foram escravos no Egito?

por Liszt Rangel
Até hoje, o povo judeu lembra o Pessach, o dia de libertação, a saída dos hebreus, os eleitos de Jeovah que estavam subjugados na casa de servidão, o Egito. Em qualquer parte do mundo pós-moderno, não importa, onde quer que more um judeu, celebra-se a tradição de "lembrar", contar através de narrativas aos mais jovens do quão foi importante esta libertação. Na Hagadá de Pessach, obra literária conhecida entre os judeus, lê-se: "Mesmo que sejamos todos sábios, todos entendidos, todos conhecedores da Torá, ainda assim temos o dever de contar a respeito do êxodo do Egito. E todo aquele que mais se estender cotando a respeito do êxodo do Egito, elogiado será."  


Muito mais do que simplesmente narrar, isto desperta um sentimento de pertencimento. Além disso, estimula o orgulho nacionalista e mantém viva a memória de seus antepassados, bem como a preservação da identidade cultural, política e religiosa nas novas gerações que passam a contar o Pessach, e ficam tão envolvidos afetivamente, que chega a parecer mesmo que estiveram lá, naquele dia da libertação, tendo como líder Moisés.


Mas, teria Moisés libertado o povo hebreu mesmo? Os hebreus foram escravos no Egito? Ao menos, há evidências históricas que comprovem isso? Quem foram os hebreus e por que foram viver no Egito? Estas e outras perguntas encontram-se sem a devida resposta e as que surgem parecem não agradar aos judeus. 


Durante muitos anos, teólogos, exegetas, historiadores, arqueólogos e curiosos no assunto debatem acerca da escravidão dos hebreus no Egito e se houve de fato um Êxodo. Estes temas fazem parte de um grande enigma ainda carente de novas luzes de conhecimento e de pesquisas afastadas do olhar perigoso, que é o da vertente religiosa. Ao mesmo tempo, todos reconhecem que a suposta escravidão dos hebreus no País dos Faraós é algo tão marcante que ajudou na construção da identidade dos israelitas.


As pesquisas que se desenvolvem no Delta do Nilo e em outras partes do Egito, como nas ruínas de uma cidade antiga, Ramsés, revelam a presença do povo hebreu que teria ajudado na construção, incluindo a de seus monumentos. "A Bíblia diz que os hebreus cansaram da servidão no Egito e depositaram em Moisés a liderança para escaparem do País dos Faraós." (RANGEL, 2011). Existe um documento egípcio datado entre 1550-1070 a.C. que fala da presença de um povo de nome estranho, o apiru. Segundo este registro, os apirus eram mercenários e servos livres que ofereceram suas forças para trabalhar nos campos, vigiar fronteiras e ainda ajudaram no transporte de enormes blocos de pedra para a construção do portal de Ramsés. Todos os trabalhadores não importava a etnia, segundo revelam documentos antigos, tinham residência, direito ao pão e à cerveja. Portanto, não existiram escravos egípcios e como explica o egiptólogo, Rafath Kalifa "quem não quisesse trabalhar, podia ir embora, atravessando o deserto. Podia ficar à vontade... 


Interessante... algumas vezes percebe-se que povo é povo em qualquer época, em qualquer lugar. Os que trabalharam no Egito, parecem com um certo povo que mora abaixo da Linha do Equador. Trabalha para ter pão, sonha com a casa própria, apelando até para pastores e adora uma cerveja... 


Há um ponto importante a ser considerado acerca da suposta escravidão dos hebreus no Egito. Além deles, outros grupos de trabalhadores deixaram suas marcas quer na intimidade das pirâmides, quer nas paredes de cidades antigas e inclusive até mesmo na hora da morte, pois tiveram direito a enterros em locais apropriados que foram registrados por ordem de seus governantes.


Alguns estudiosos fizeram uma análise etimológica e descobriram uma certa analogia linguística entre o termo Apiru  e Ibri, ou como é mais conhecida esta expressão, "hebreu". A partir daí, passaram a defender a tese de que os antigos apirus são os antepassados dos filhos de Abraão que junto com sua esposa Sara foi se instalar no Egito. Apesar de não existir registro histórico de Abraão e de sua peregrinação àquela região, posto que esta narrativa é apenas bíblica, o documento encontrado pode dar alguma garantia de que sendo os apirus livres trabalhadores e mercenários que serviam ao Faraó, este deve ter chegado à conclusão de que esse grupo por ter crescido demais, poderia por em risco a independência do Egito, o que pode ter levantado um acerta insegurança na corte do Faraó. 


É possível entender agora o porquê de Moisés ter sido classificado por sérios pesquisadores como um general militar, um estrategista bélico. Os apirus além de trabalharem nos campos, na construção civil, ao tomarem conta das fronteiras do Egito contra invasores estrangeiros, se especializaram na arte da guerra e assim, serviram aos interesses do Faraó até o dia em que Moisés, o "Boca de Praga", resolveu conduzir estes mercenários para o que ficou conhecido como, o Êxodo.


Mas será que o tal Êxodo existiu mesmo?  

BIBLIOGRAFIA:
RANGEL, L. Por Que Jesus? Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Recife: Editora Bom livro, 2011.  

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Cuidado! Você sabe o que é misoneísmo?

por Liszt Rangel
Voltar ao passado exige transpor não apenas a linha que separa o hoje do ontem, porém, muito mais do que isso. Olhar o pretérito é descobrir o que formou a identidade do Homem, em suas crenças, preconceitos, valores, paradigmas intelectivos e afetivos, enfim a sua constituição. Defrontar-se com essa espécie de sombra, remete o indivíduo a descobrir muitas vezes o que não deseja, mesmo que ainda lhe surja à frente um deslumbramento com algo desconhecido que mais o assusta do que o seduz. Os antropólogos dão o nome de misoneísmo ao medo profundo e supersticioso do que lhe aparece como novo.


Quando nos detemos para ver ou sentir o que está posto em nossos ombros, percebe-se nossos antepassados, e com isso, observa-se que a carga transferida não foi, simplesmente, a genética. Mas, ao lado dela há toda uma estrutura, a qual Carl G. Jung chamou de Arquétipos. Estes povoam nossas crendices quer no imaginário ou no simbólico, e tal qual o ar que respiramos, o Arquétipo encontra-se em todos as etnias e nas grandes civilizações que deixaram suas marcas até o presente.


Portanto, ainda é comum que diante de tal estrutura que acompanha o psiquismo humano, ocorram diversas reações quando o assunto é tocar, mexer, e até mesmo questionar tais arquétipos. "O homem "civilizado" reage a ideias novas da mesma maneira, erguendo barreiras psicológicas que o protegem do choque trazido pela inovação." (JUNG, p. 33, 2008). Seguindo a linha desse raciocínio, o Dr. Jung reconhece que o indivíduo age de forma igual quando se trata dos sonhos que teve durante o sono. A partir do instante que estes o incomodam, tenta esquecê-los, sufocá-los, com o intuito de não admiti-los. 


Do mesmo jeito, as pessoas procedem umas com as outras, em especial, quando se trata de por fim àqueles que lhes ameaçam  a "estabilidade e o domínio". Jeovah assim agiu com Job; Saul fez isso com Davi. os sacerdotes e os escribas calaram Jesus; o Senado silenciou Júlio César usando a covardia e o ciúme de Brutus; João Huss, Giordano Bruno, Joana D'arc, o Papa Albino Luciani e tantos outros foram silenciados pelo temor da Igreja. Calar os idealistas, já que é impossível queimar ideias, sempre foi a maneira mais rápida para manter-se sob as máscaras da hipocrisia e subjugar a sociedade à ignorância e ao medo.


Entretanto, não é justo esquecer que o Homem sempre está à procura de alguém que pense por ele, e assim, evitando assumir riscos, atribui ao outro ares de divindade, transferindo responsabilidades, criando dependência psicológica e ampliando desta forma o círculo de sua zona de conforto.


No passado, foram os adivinhos, os oráculos, as pitonisas, as sacerdotisas e os profetas. Hoje, delegamos às cartomantes, aos padres, aos pastores, às bispas, aos astrólogos e aos médiuns o poder de decidirem o que é certo ou errado, o que devemos ou não fazer e como podemos ou não agir, sentir, pensar. Porém, expressar jamais! E ai daquele que questionar!!! A fogueira atualmente é de outra ordem e os leões já não estão mais nas arenas. As labaredas da leviandade e da vaidade não fazem menos vítimas do que as da Santa Inquisição. As chibatas dos sicários da morte ainda dilaceram, mas agora é a moral do próximo que está aberta em feridas de humilhações. Os leões já não se alimentam mais por causa da fome, mas pelo puro e insaciável desejo de denegrir, de fomentar a discórdia e obter o prazer de dividir para melhor governar. 


Atrelado ao esquecimento da arte de pensar tão bem proclamada por Immanuel Kant, quando asseverou, "Sapere Aude - ouse saber, ouse pensar!", o indivíduo ególatra, como bem conceituou Sigmund Freud, agarra-se às ilusões ou seria a um futuro ilusório? Para evitar seu amadurecimento e a saída de sua menoridade para tornar-se Pessoa, como desejou Carl Rogers, ao contrário, afasta-se de qualquer possibilidade que possa lhe tirar de sua infância espiritual, pois preso a esta, tem ainda como justificar seus comportamentos inconsequentes. Todavia, não se dá conta que quanto mais foge de seu destino que é o de desvendar, pensar, ajuizar, criticar, construir, crescer, ele mais adia o encontro com a possibilidade de seu bem estar psíquico. 


Também, delegar ao outro o discernimento e as suas escolhas é declarar o próprio atestado de insanidade. Dar o direito ao outro do que devemos ou não acreditar, é um ataque imediato a democracia do conhecimento, e neste caso é entregar o poder à falsas lideranças. 


Existem pessoas cultas, intelectualizadas e instruídas até dos princípios da ética e da moral, mas apenas instruídas. Há uma grande distância entre ter conhecimento de algo e apropriar-se deste conhecimento ao ponto de permitir-se lograr a consciência que ele pode resultar. Isso foi bem observado com o Iluminismo, quando os tratados do enciclopedismo de Voltaire e outros filósofos que ampliaram o pensamento pós-revolução francesa, foram usados por reis e rainhas para seus mandos e desmandos. Frederico II na Prússia, Catarina II na Rússia, Napoleão Bonaparte na França, Marquês de Pombal em Portugal e no Brasil Dom Pedro II ficaram conhecidos como "Déspotas Esclarecidos". 


Estes homens e mulheres, que ainda existem entre nós, se apropriam do conhecimento, realizam algumas benfeitorias no grupo social ao qual pertencem, mas, por outro lado, utilizam a máquina estatal, a posição de comando dentro dos lares e com controle se agarram ao poder passageiro. Em âmbitos maiores ou menores manipulam as massas com o recurso da posição do "pretenso saber" sejam como militares, políticos, psicólogos, advogados, juízes, jornalistas, professores, médicos ou meros palestrantes que aparecem lustrosos com seus sorrisos dissimulados e gestos programados para impressionar. Eles estão por toda parte, nos diversos setores sociais, quer na política, quer na religião para obterem vantagens sob a propaganda de um bem maior. São defensores de uma verdade que apenas eles conhecem e julgam-na absoluta.


Para a infelicidade deles, são mais responsáveis do que a seta na estrada, pois esta mesmo sem seguir o caminho que aponta, permite que outros sigam e cheguem ao local desejado.  Déspotas esclarecidos e Pseudo-líderes já os tivemos aos montes, todos sucumbiram ao tempo e foram esquecidos ou lembrados como obstáculos ao progresso da Humanidade. Ao mesmo tempo, nunca faltaram os afins para seguir-lhes os passos. 


Por outro lado, o que observa-se com a democracia do conhecimento, é o nascimento de novas lideranças, sendo estas agora, de natureza positiva. Elas contribuem para a formação de uma nova geração, uma mais apta à compreensão e ainda que pouco numerosa, mais forte, unida e segura, posto que carrega nas matrizes psíquicas o desejo de não repetir os nosso erros, meros mortais que esquecemos nossa imortalidade e o pior de tudo, foi quando a corrompemos. 


Esta nova geração não se encontra entre os superdotados, até porque já vimos do que a inteligência e o conhecimento mal aplicados foram capazes de fazer a face do Planeta atrasado que habitamos. Estes, também não se encontram entre os famosos, mas em sua maioria são anônimos solidários, que respeitam o próximo, praticam a fraternidade e interrompem definitivamente a transmigração dos arquétipos que ainda nos prendem a um passado de medo, de ignorância e de maldade que resultou em tantos crimes hediondos e atitudes nefastas. 


Dia virá e este não está longe. Já se fazem sentir os seus primeiros raios... Eles anunciam um novo amanhecer, mas não ocorrerá da noite para o dia, até porque depois da meia noite, há uma loga madrugada a ser atravessada.  E para se dar conta disto não é preciso olhar para o horizonte, basta ver aqueles que se debatem em ódio, em desespero e aflição carregando muito mais do que doenças físicas, mas morais, arrastando suas sombras e fazem-se acompanhar pelo egoísmo, pelo ódio e pelo orgulho e ainda se comprazem em deixar pelo caminho suas vítimas.

BIBLIOGRAFIA:

JUNG, C.G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.    


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Por dentro Judaísmo - Quem foi Moisés?

por Liszt Rangel
Moshé é um dos maiores líderes do Judaísmo, porém seu nome é de origem egípcia. Ao contrário do que ocorreu com outros príncipes e reis no Egito, Moisés teve apenas o último nome sem qualquer prefixo. Um caso diferente do dele, por exemplo, observa-se em Ramoshé ou Ramosé, traduzido como Ramsés. O Ra no nome de Ramsés seria uma homenagem ao deus Rá, então entende-se "o deus Rá nasceu". Da mesma forma com o rei Thutmoshé ou Thutmosé, que significa "o deus Tot nasceu". Na mitologia egípcia o deus Tot é aquele que aparece com cabeça de Íbis e sua função no além é escrever, registrar os atos da alma enquanto esteve na Terra. Eis o porquê dele sempre aparecer fazendo anotações enquanto o coração do morto é pesado na balança.  


No entanto, em relação a Moisés que também é conhecido em egípcio na forma abreviada, Mosés, a escolha do seu nome não indica referência a qualquer deus, sem especificar a quem este menino estaria reverenciando. Ou seja, ele seria o próprio deus? Ou, simplesmente, estaria sem designação da proteção de um deus egípcio? Por ventura, não seria a explicação para ele mais à frente, surgir com a ideia de reverenciar o seu Javeh e colocá-lo como único Senhor? Coincidência ou arranjo? 


No relato bíblico, sua mãe biológica engravidou de um homem da tribo de Levi, ou seja, também do povo hebreu. Porém, ela resolveu por o recém-nascido dentro de um cesto feito de papiro e o aproximou da margem do rio, onde haviam muitos juncos. Moisés foi criado na cultura egípcia, porém não pela filha do faraó, mas por uma mulher dos hebreus (Êxodo, 2, 1-10). Ela foi paga pela filha do faraó para criar o menino com a promessa de que, quando ele estivesse jovem, seria devolvido para que ela o adotasse. Diante de Moisés, já crescido, ela teria dito, "Eu o tirei das águas." Daí equivocadamente, até hoje ter ficado a mística de que seu nome significava "salvo das águas". Outras lendas na cultura oriental, também falam de crianças que foram salvas das águas.


Algo significativo a considerar é que não se pode aceitar tudo o que está na Bíblia como se fosse a mais pura verdade, ou como sendo a Palavra de Deus. Além de ser fora da razão e da sanidade, é antes falta de conhecimento, especialmente histórico e científico acerca das descobertas em torno das origens dessas civilizações antigas. Diante de qualquer análise, também não se pode dizer que este ou aquele especialista em idiomas conseguiu traduzir o Velho, muito menos o Novo Testamento baseado em textos originais. Isto também é uma lenda, só que com uma diferença, é uma lenda pós-moderna, porque textos originais não existem. 


Dos livros considerados como o pentateuco de Moisés, somente os dois primeiros, a Gênese e o Êxodo chegaram a ser compilados sete séculos após a suposta ocorrência daqueles fatos ali narrados. Ou seja, são setecentos anos depois do que pode ou não pode ter ocorrido, até porque tudo começou com a tradição oral, passando de boca em boca, e sabe-se que quando cai na boca do povo, nada fica mais original. Os difamados que o digam...


Uma outra questão sem fundamento e que não se pode deixar de lembrar, é que os livros teriam sido de autoria do próprio Moisés. Porém, como ele escreveria cinco livros, estando morto? E mais, um livro que narra sua própria morte. Alguns especialistas em Arquelogia e História, acreditam que Moisés de fato, não chegou a ver a Terra Prometida, e que teria sido, provavelmente, assassinado pelo seu próprio grupo, tendo a liderança talvez de Josué, que tomou o seu lugar no comando.


Em verdade, pesquisas realizadas no Egito não comprovam o tal Êxodo, que segundo os relatos bíblicos teria ocorrido. Não há registros históricos de tamanha movimentação social. É possível imaginar um grupo que deveria ter em média 600 mil homens deixando o Egito? Além desses números serem questionáveis, vale salientar que uma saída brusca dessa natureza, abalaria a economia de qualquer civilização (RANGEL, 2011). E por que não há outras narrativas sobre este fenômeno social? Tudo naquela época já era bem registrado em "estelas" ou em "tabuinhas". A arqueologia bíblica é quem vem tentando provar o contrário, porém é preciso ter muito cuidado quando se trata de revelar "verdades", levando-se em consideração a linha de pesquisa, quem patrocina e qual a ideologia deste grupo. Já manipularam a História por demais, quer de forma inconsciente, quer intencional e levianamente. 


No tocante a Moisés, ou Moshé, não se pode colocá-lo como um revelador da Lei de Deus. As leis que ele propôs ao povo são a cópia das leis egípcias. Além do mais, as descrições de terríveis batalhas onde por sua ordem muitos foram miseravelmente assassinados, não o credibilizam como um intermediário entre o "povo eleito de Deus" e o próprio Javeh, principalmente, quando se leva em questão, um dos mandamentos, "Não matarás!". Javeh, ao menos, poderia ter feito um parágrafo nesta Lei e assim teria escrito, " Não matarás!!! - Parágrafo único -  "apenas aqueles que não estejam em teu caminho, Moisés..." Porque foi justamente matar que Moisés mais fez. Perde-se a conta dos grupos étnicos que ele dizimou por onde passou. Moisés. atualmente, é visto por estudiosos, como um grande estrategista militar, porque  um gênio belicoso o animava, tornando-o no campo de batalha tão cruel quanto qualquer outro líder sanguinário da História. Ainda para muitos especialistas, Moisés em suas estratégias de guerra, é comparado a Júlio César e a Napoleão Bonaparte.


Quanto ao Êxodo, seu diálogo com Deus e a compilação da Torá...estes assuntos serão abordados em outro momento...

BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Editora Paulus, 2002.

RANGEL, L. Por Que Jesus? - Para Compreender a História de um Homem e seu Povo. Recife: Editora Bom Livro, 2011.     

domingo, 5 de abril de 2015

Reflexões sobre a Paixão em Nova Jerusalém

por Liszt Rangel
Desde que a Rede Globo assumiu o espetáculo encenado em Fazenda Nova, os astros da plim plim sempre atraem multidões que deliram para ver Fábio Assunção, Marcelo Antoni, Humberto Martins, e este ano um tal de Igor sei lá das quantas, enfim... a mulherada e a rapaziada não sossegam e com essa histeria, as falas dos atores ficam entrecortadas por causa da tietagem.


É bem verdade que se trata do maior espetáculo ao ar livre do mundo e do ponto de vista teatral vale a pena conferir. Entretanto, sob a ótica da exegese bíblica, da crítica textual, da História e da Arqueologia, o espetáculo é um desastre. E para mim, foi uma tortura assisti-lo em suas 3 horas de duração, e em pé. Tinha momento que dava vontade de gritar: "corta". Pois é... estava tudo errado. Desde as roupas de alguns atores, como o cenário, por exemplo do Templo de Salomão. Os fatos envolvendo Jesus, foram colocados de forma que aproveitam um cenário para espremer todos os seus ensinos de uma só vez. E não faltaram, é claro, as novidades.


Logo de início, surgem dois espíritos, um representando Moisés e outro ao que parece era Abraão. Estas figuras citam os primeiros versículos do evangelho atribuído a João acerca do "verbo que se fez carne." Ou seja, logo se percebe que a base da narrativa será católica, "um Deus tornado Homem". E assim ocorreu. Em todos os momentos aparecem palavras tipicamente católicas, o que terminaram por transformar Jesus, um bom judeu, em um bom católico, pagador de promessas. 


Outras vezes, o texto usado é o de Marcos que se mistura com algo de Lucas, e mais uma vez se estabelece uma verdadeira salada exegética. A ordem das discussões em torno da morte de Jesus não obedece aos roteiros dos evangelhos, nem tão pouco, nela aparece Jesus expulsando os vendilhões do Templo. A mulher pega em adultério mais uma vez é confundida com Maria Madalena, o que resgata a visão católica de colocá-la como meretriz e afastá-la do lugar de destaque que tinha ao lado de Jesus.


Um outro ponto curioso é a tentação que Jesus sofre de figuras satânicas. Em meu livro, Arqueologia dos Evangelhos, explico o porquê dos homens judeus buscarem o deserto, o que seria motivo de inspiração e meditação para muitos. Havia também uma crença que nele existiam almas que vagavam perdidas. Não se pode esquecer que todo herói nasce do contato com o deserto, era assim com os gregos. Porém, o que mais nos interessa na cena, é ver os demônios tentando Jesus com as mesmas tentações que Buda sofreu. Coincidência? Você acredita em coincidência?


Antes de falar da morte de Jesus, vamos a de Judas. Nos evangelhos ele se enforca, mas em Atos dos apóstolos, com o dinheiro que ganha com a morte de seu mestre, compra um terreno, até que certo dia um instrumento cortante, rasga seus intestinos e ele morre. Até hoje em Israel há um pedaço de terra, chamado de "campo de sangue", supostamente comprado com o dinheiro da venda de Jesus. E agora vamos acreditar em qual morte? A do suicídio? Ou a do acidente no campo? Este é um caso para o CSI- FAZENDA NOVA. E o pior é que as pessoas se envolvem em tanto ódio ainda por Judas, que quando este sai do sinédrio após entregar Jesus, um homem que estava ao meu lado na plateia, disse, "vou pegá-lo ali na esquina pra ele ver o que é bom pra tosse." Pronto! Bastou o pobre se suicidar, que a multidão foi ao delírio. Foi a cena mais aplaudida! Já a das bem-aventuranças o público saiu em silêncio, e ainda me roubaram uma garrafa de água mineral. Justo depois de Jesus ter ensinado que "ajuntássemos tesouros nos céus".


Não pode ficar de fora da nossa análise, a cena canibalística que ocorre na Santa Ceia. Digo isto porque nenhum judeu ergue o vinho para o alto e divide o pão e pede para os outros comerem e beberem como se aquilo fosse seu corpo e seu sangue. Mais uma celebração católica, a Eucaristia!
Vale lembrar que esta é uma celebração das hordas primitivas, segundo Freud, onde comer a carne e beber o sangue do líder da tribo, passava a crença de que todos iriam gozar de seu poder. Depois, quando viam que nada ocorria, eles, se colocavam aos prantos e choravam em culpa, aguardando que ele ressuscitasse. Igualzinho aos cristãos. Para o desfecho, típico de novela das oito, os atores repetem a cena de Da Vinci, congelando a imagem da Santa Ceia e todos ficam na posição da famosa tela. Mas é claro que não chamaram Madalena para fazer parte dela. Não iria pegar bem, ver Pedro com uma faca ameaçando cortar o pescoço da esposa de Jesus.


Quanto a questão do julgamento, realmente é por demais contraditório. Caifás nem espera as festividades passarem e a cena que envolve o ator Humberto Martins, no papel de Pilatos, reflete o que há em Mateus 27, 24-25, onde os judeus pedem o sangue de Jesus, deixando claro a responsabilidade deles sobre sua morte. E sabe qual a consequência desse arranjo proposital? Judeus e cristãos se odeiam até hoje. Vale a pena aplaudir a forte cena dos cavalos romanos entrando em cena. Isto foi belo!
Do ponto de vista histórico, no ano 36, Pilatos foi mandado de volta a Roma por ordem de Tibério, pois não conseguia mais conter os motins que se espalharam pela região.¹ O senhor Paulo de Tarso, grande perseguidor e assassino de cristãos e o maior deturpador da mensagem de Jesus, também fez de tudo para tirar dos romanos a culpa da morte do Nazareno.


No tocante à morte de Cristo, mais um erro. Os copistas plagiaram as passagens de Sl 22,19 e de Is 53,10. Esta passagem é clássica. Envolve a cena do bom ladrão, sorteio das vestes de Jesus e a promessa do Nazareno ao ladrão, de que ele iria a partir daquela hora "roubar" no céu. Típica cena católica para quem aprontou muito no mundo e com o perdão da Igreja na hora da extrema unção, paga pela salvação e fica tudo garantido no Paraíso. Outro detalhe da cena é a terrível frase colocada na boca de um Jesus revoltado, quando ele pergunta a Deus porque ele o teria abandonado. A inovação agora é por parte da La Pietà esculpida por Michelangelo e que a repetem na descida do corpo da cruz. Vai ver ele estava lá e tirou uma foto para mais tarde na idade média reproduzir.

Bem, estas foram minhas impressões iniciais acerca do maior espetáculo ao ar livre do mundo. Quando fui pela primeira vez eu era um garoto e Jesus ainda não tinha ressuscitado. Como uma bela peça teatral, por isso mesmo deveriam ter uma maior preocupação com os fatos e sua ordem, bem como com a estrutura histórica da Palestina do século I.  Falaram mais de um Cristo católico do que de um Jesus Histórico, um homem apaixonante e sedutor que apesar de todas as adulterações em sua imagem e mensagem, ele nos marcou ao ponto de tornar-se o maior enigma para aqueles que sinceramente o buscam.

FOTOS: LISZT RANGEL

BIBLIOGRAFIA
1- RANGEL, Liszt. Arqueologia dos Evangelhos - uma releitura histórica do pensamento de Jesus. Recife: Editora Bom Livro, 2009.  

terça-feira, 3 de março de 2015

Outro apocalipse? Agora espírita?


por Liszt Rangel
Há milênios, o Homem se preocupa com sua origem e destinação. Antes mesmo de levantar-se em profundas reflexões através da dialética, da filosofia socrática, platônica e aristotélica, o ser humano mesmo movimentado pelo instinto de sobrevivência, de alguma forma tentou controlar a força implacável da natureza que sempre ameaçou a sua sobrevivência. Afinal de contas viver é preciso!


Entretanto, todas as vezes em que o Homem se encontra diante de uma desordem social, econômica, política, religiosa e moral surge o fenômeno do pânico. Desestabilizado em seu eixo, recorre às medidas mais urgentes, quer usando o Estado para atuar mediante a sua declaração de falência e inapetência para lidar com certos problemas sociais e familiares, quer recorrendo às próprias mãos para se constituir senhor e assim tornar-se justiceiro, quer especulando por meios místicos, aproveitando a fé simplória do povo, como veículo de divulgação de assombros e catástrofes que deverão se abater sobre esta pequena bola solta no espaço, a Terra.


Na causalidade deste desejo mórbido, pode-se identificar o próprio vazio existencial. A angústia por um amanhã incerto, as ameaças de guerras de extermínio por vírus e bactérias, a descrença no poder público e judiciário, a desigualdade social que impera galopante em vários países do mundo e a estranha sensação de que mesmo tendo conquistado a liberdade, o Homem a trocou pela segurança, através das posses, dos carros blindados, dos luxuosos condomínios fechados, das festas com lista de convidados seletos, das inúmeras câmeras que o resguardam da violência das ruas. E apesar de tudo ainda é infeliz... e teme a sua principal adversária, a morte.


Em psicanálise, costuma-se dizer que quanto mais se teme algo, mais próximo o indivíduo fica do que lhe causa temor. E não é assim que vemos nos relacionamentos amorosos algumas vezes? Ou nos comportamentos infantis e dos adolescentes? Escolhemos também como acompanhantes, velhas reedições de relacionamentos infelizes e que muitas vezes foram vividos por nossos pais. Quem busca a morte, encontra; quem busca dor, acha. Mas, isto também vale da mesma forma e intensidade para quem busca o reverso. Sim, porque sempre há o reverso da moeda. É como corredores de cem metros, há sempre aqueles que estão nas extremidades. Portanto, quem busca vida, vive e não apenas existe. Quem busca amar, termina por se descobrir amante mesmo quando não amado e assim por diante...


Isto nos leva consequentemente a uma outra questão, a das escolhas. Jean-Paul Sartre já disse uma vez, "Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo." Isto é inevitável! E agora surge a  pergunta, por que escolher sempre a tragédia como solucionadora de nossas angústias, dores e incertezas? 


Justamente na hora em que deveríamos tentar olhar para a miséria moral e sem limites em que nossos jovens se encontram, quando estamos destruindo o planeta diariamente ou envolvidos em corrupção, inundando as ruas de petróleo, por que o que propomos como saída, são sempre atitudes extremistas? O que pode resultar na nossa declaração de inapetência por não sabermos lidar com nosso fracasso. Então, fala-se em guerra, em catástrofes naturais, mudança do eixo da Terra, em fim de mundo e agora surge um novo surto psicótico, ou como poderíamos chamar de uma nova neurose coletiva, a tal da DATA LIMITE! 


Já não bastaram as profecias astecas, as maias, as celtas, as tibetanas, as de Nostradamus e as dos X-MEN, agora temos a profecia do respeitável e inesquecível Chico Xavier? Seja por negligência humana, seja por ordem de um Deus cristão vingativo que ainda é típico de uma concepção católica, ou por invasão de extraterrestres que administrarão o planeta em uma espécie de governo de transição, após a raça humana ter recebido um "impeachment", o que está sendo divulgado em larga escala só comprova a nossa estreita ligação com religiões apocalípticas. 


O Homem já vem em busca de ocupação em outros lugares fora da Terra desde o início da guerra fria. Isto não é novidade. A medicina já vem divulgando que a partir de 2020 teremos dado grandes saltos na descoberta da cura para inúmeros males, incluindo o melhoramento na qualidade de vida e a longevidade humana. Países como a França, já anunciaram oficialmente que estão com registros de extraterrestres, e isto já foi assunto até na pauta da ONU.


Vale ressaltar, algumas coisas importantes. Quando se fala em revelação sobre isto ou aquilo, é preciso ter documentos, e na entrevista, Pinga Fogo, na qual se baseiam os defensores ardorosos de tal hecatombe, não se pode dizer que ali, existe material suficiente, oferecido pelo honrado Chico Xavier, prevendo a desgraça da Humanidade. Pelo contrário, ele nos fala de uma possibilidade de uma nova era de fraternidade, de renovação dos paradigmas afetivos e intelectuais. Ou será que como verdadeiro e sincero espírita, ele não sabia que Deus é infinitamente bom? E não podemos esquecer que se nós, seres imperfeitos e ignorantes, conseguimos ter misericórdia e compaixão para com quem sofre, imagine Deus? 


Fazendo uma análise apurada do documentário, percebe-se a tentativa na introdução e no desfecho que a direção do material produzido teve, em realçar a figura do Chico para dar respaldo ao conteúdo que virá a seguir. Incluindo a fala do respeitável e incansável Divaldo Franco, que do mesmo jeito que o Chico suas obras testemunham quem eles são. O Chico não precisa disto, pois sua trajetória de transformação se operou sem testemunhas oculares, na madrugada em solidão, e sua DATA LIMITE nunca existiu porque sempre ensinou que a qualquer hora o Homem podia fazer uma história diferente. Ele fez questão de ao invés de semear terror, espalhar esperança e consolo aos aflitos.


Apresentada a defesa desnecessária da integridade de Chico, começam os "depoimentos na madrugada" em que "Chico disse isto", "Chico disse aquilo". Porém, é preciso ter-se em mente que o Chico não se encontra fisicamente entre nós para se defender ou afirmar o que dizem, ou que o que ele teria dito. Mais uma vez vemos repetir-se o que fizeram com Sócrates, Platão, Francisco de Assis, Madre Teresa, Jesus de Nazaré e agora com um dos vultos mais marcantes que sempre vem sendo colocado sob um véu de santidade e de mistérios, desde a sua morte. Será que não podemos ter a nossa própria luz, mesmo que seja a de um vaga-lume? 


E assim, começa a segunda parte que é uma consequência da primeira, a de que o Brasil é o país escolhido para salvar o mundo...


Já fomos o da copa e foi um fracasso, imagine agora para salvar o mundo? Não conseguimos nem nos salvar dos corruptos que temos e de nossa própria vaidade e orgulho,buscando sempre os holofotes das plateias, os aplausos dos sofridos que deveriam ser para uma Causa e não para o nosso Ego...


Surge, então, uma nova neurose coletiva, a que o Brasil é o escolhido para receber imigrantes de todas as partes do mundo. Esta ideia apocalíptica sempre esteve acompanhada deste narcisismo ufanista. Foi assim com os gregos, com os maias, com os egípcios, com os romanos e todas estas civilizações faliram por causa do orgulho e da arrogância. Estaríamos então, em verdade caminhando para este labirinto, cujo nome em Espiritismo, chama-se "Fascinação?" E ainda mais, tentando atrair um maior número de desesperados, para que ela se torne coletiva? Já não bastaram as teorias alucinatórias e persecutórias dos chips implantados? A das legiões de dragões, das reencarnações de celebridades do passado? E o espetáculo das cirurgias cortantes? E agora, os shows mediúnicos das psicografias que são cobradas em grandes teatros? Já não bastam os leilões de obras ditas como mediúnicas de artistas famosos? 


Sempre queremos mais. Estamos achando pouco o que já escolhemos como meio de expiações e provas por nosso comportamento hediondo no pretérito e agora queremos comprometer os caminhos daqueles que buscam esclarecimento e consolo no Espiritismo? Além de nos comprometermos pessoalmente com nossos equívocos, falhas morais, desajustes na personalidade, agora iremos solapar as bases de uma Ciência e de uma Filosofia cujo alcance moral ainda não conseguiu nos atingir? 


Em pesquisa, apresentem-se as provas materiais! E assim, só a partir daí as colocaremos sob a razão ensinada e não esquecida por Rivail, utilizando como método o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos. Através de médiuns que não se comuniquem entre si, e que os ditados venham por diversos espíritos, só assim, avançaremos moral e intelectualmente. Os próprios espíritos ensinaram ao Rivail que nas Leis Naturais, a do Progresso sempre impera, mesmo diante da Lei da Destruição. Se a morte nos espera, qual motivo então, para o Codificador ter escrito com convicção em O Céu e o Inferno,"Por que o Espírita Não Teme a Morte."


Então, adeptos desta fé raciocinada, não façamos soar a hora do horror nos ouvidos que se acostumaram a escutar os gritos da misérias sombrias. Se apresentamo-nos como sinceros espíritas, quais lucros teremos com as notícias que apenas exaltam o nosso orgulho de nos sentirmos escolhidos de Deus e melhores de que nossos companheiros de viagem? Que as multidões de aflitos possam ouvir de vossos lábios e de vossas obras esclarecimentos libertadores e consoladores, posto que estas massas já não necessitam mais de falsas promessas de um paraíso inatingível, muito menos das ameaças da psicologia do medo.


Os tempos anunciados por Rivail foram bem delineados, "é a despedida de uma geração e a chegada de outra", conforme se observa em A Gênese. E deixou claro que nestes novos tempos, o que se agitariam, seriam as entranhas da Humanidade, e não mais as devastações naturais. Se o Homem anda tomando atitudes que o levarão à morte e à dor, ao caos social e moral, não é porque estava previsto, mas é por suas escolhas atuais.


Então, escolher, é o grande enigma a ser revelado!!!


Avancemos então, sem a perda de tempo com ameaças de terror, nem elegendo-nos como mártires de um Cristianismo que o tempo se encarregou de apagar. A essência da mensagem de Jesus de Nazaré é de estímulo em uma fé que se renova nas atitudes edificantes e não sob o estalar do chicote do pavor!       

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Tudo é Transformação!

Arena Romana em Nimes, Sul da França
por Liszt Rangel
Na verdade, tudo é transformação. Se a matéria transforma-se, em decomposição e se a essência que a habita é matéria, apesar de sutil e de outra natureza, esta também se submete à transformação.


O nosso corpo já foi bem diferente e limitado em suas funções.
Hoje, já nos preparamos geneticamente para trazer ao mundo novas formas biológicas, mais resistentes a algumas enfermidades, mais perfeitas na estrutura, e sem deformações. Antecipamo-nos inclusive até à doença.


O Homem também atravessa esta metamorfose. Já foi mais instintivo, selvagem e precisou sair da caverna para garantir a sobrevivência. Foi morar ao lado dos grandes rios e lagos. Assentando-se, domesticou animais, plantou, demarcou territórios, ergueu as grandes civilizações, como as da Caldeia, da Babilônia, do Egito, da China, ou vestiu a armadura romana para conquistar o velho mundo. 


Já não mais limitado às forças instintivas, foi capaz de criar, manter, produzir, subjugar, criticar e o sentido de responsabilidade aproximou-se, descortinando uma nova maneira de se ver e também ver o mundo. Além do sistema límbico das emoções, conquistou o neocortex. Ele finalmente pensa! Que máximo! E o pior é, quando pensa também que é o máximo... e assim, ele destrói, sem dar-se conta que está promovendo uma transformação por onde passa. Sem consciência, ele serve de instrumento à dor alheia, ao caos e à colheita obrigatória que terá de realizar, enquanto pensa que é Senhor de si para semear. Pura ilusão!


Ele percebe que quanto maior é a responsabilidade, goza de mais liberdade. Mas desconhece que quanto maior a liberdade, mais contas a prestar à Natureza, ao próximo do uso desta liberdade. Entre o passado que lhe mostra as origens de sua evolução e o futuro tecnológico que se tornou seu presente virtual, fluido, ele moldou a sua vida e isolou-se da relação com o outro. Ele caminha, tropeçando mais do que avançando, mas ainda assim é capaz de vender à celebridades do cinema terrenos até no espaço sideral.


No entanto, ainda lhe falta muito em matéria de conhecimento, ou deveria dizer, falta-lhe a "essência" do conhecimento, de forma a aplicar em favor daquele que está ao seu lado, e que também se encontra em transformação. Seu Ego estruturado nas matrizes impulsivas de sua infância espiritual, permite que lhe escape a compreensão de si e de tudo o que o cerca. Ele machuca, ele adultera, ele mal trata! Embora não seja mais um primata, comporta-se às vezes como tal, ignorando que tais escolhas o levam, inevitavelmente no futuro próximo, à falta de escolhas. 


Carece-lhe ainda neste processo, descobrir um sentido, um porque, mas ele quer muitos porquês. Todavia, até agora aqueles que descobriram os porquês não foram felizes. Se viram como reis e rainhas egípcias, nobres da corte de Imperadores romanos, fidalgos medievais e acreditam de forma narcísica que sofrem porque abusaram de suas escolhas em existências passadas, enquanto gozavam de prestígio, riqueza e poder. Porém, ignoram que para o presente que os perturba não há fantasia que os console, haja vista tratar-se de uma transformação multicausal e não unicausal. 


Somos transcendentes, viajores do tempo, semeadores também do agora no sentido existencial. Então por que buscar respostas ilusórias no passado supostamente cármico, se não temos a ciência de nosso presente? Se nos falta na vida atual até mesmo a lembrança de sermos gratos e bons a quem só nos deu amor? 


E assim, agora decepcionado o Homem terá que descobrir sozinho, não mais os porquês da dor, da solidão e da morte, mas "como" irá lidar com essas transformações que sempre foram desprezadas e evitadas por ele. Neste labirinto o minotauro ainda está vivo e é bom ter cuidado!


Geralmente, nesta hora de dor existencial, ele foge para as ilusões, e os "anti-isto" e os "anti-aquilo" são os mais procurados, porque anestesiam a consciência.


Como Dorothy, o Homem busca a estrada de tijolos amarelos que o levará a lugar nenhum. Como Alice, ainda sonha de forma infantil com a rainha de copas a persegui-la, enquanto não percebe que é manipulada pelo coelho. Apenas no fim, ela descobre que somente na loucura do chapeleiro é que desperta para a vida real, quem sabe para o amor real. Mas ele só existe em seus sonhos. Ela não é madura para vivê-lo. Ela recusa transformar-se. Na verdade, Alice é o protótipo da menina-mulher que foge para o mundo da loucura a fim de não tomar suas decisões que a trarão para a realidade.    


Assim é o Homem Moderno. Quem sabe, sobre nesta hora de contato com a realidade, a maior descoberta, a do sentido da vida, a de entender a finalidade de tudo o que experienciou, mesmo que lhe doa. E se não ocorreu isto ainda, não será questionando, mas vivendo e revivendo, criando, e inventando, se permitindo cair, mas obrigando-se a levantar-se, até que a transformação ocorra, ou melhor que ela esteja em curso.


Mas, de qualquer forma é bom ter sempre em mente, ela jamais será completa. O dia de amanhã nunca chegará. Ele é sempre hoje! E o que estamos fazendo para transformar o hoje?


Ao que tudo indica, se o caminho é o da transformação, e se apenas esta poderosa companheira de viagem nunca abandonou o Homem ao longo desses 150 mil anos de sua existência, talvez o fim seja este, transformar-se. Quem sabe está aí a resposta ao seu porquê, porém este porquê jamais o levará de volta à origem, pois é impossível banhar-se por duas vezes nas mesmas águas de um rio. 


Se a finalidade for a transformação, então não terá fim, não terá acabado, não terá prazo, mas haverá sempre uma finalidade, mesmo que esta seja sem fim. E não há fim... o que há é transformação.


A dor veio e se foi. 
Algumas vezes ficou que parecia não querer ir embora.
Alegria fugidia foi tão rápida, que nem deu tempo para perguntar quando ela voltaria.
A ingratidão corroeu a alma e quebrou as lembranças mais delicadas. Entretanto, a atitude de amor construiu-se inquebrável.
Porém, em se tratando da cólera, quando esta cessou, deixou a exaustão. A expressão está no olhar que agora saboreia a decepção e a amargura.
E a mágoa? Tão resistente e teimosa, marcou o frágil corpo, que jamais voltará a ser o mesmo, afinal tudo é transformação.


Quando se experimenta a juventude, tem-se a ilusão que ela será eterna, mas acaba indo-se precipitadamente, especialmente quando já se sabe da hora marcada para seu fim. Mas ainda sim, houve transformação.


Já a saudade doeu, doeu... parecia que não tinha fim, entretanto desapareceu com a presença do amor que acreditou por um tempo que era melhor também ir embora, afastar-se para bem longe, para um lugar em que houvesse apenas ausência. Porém, o que é ausência, senão falta de atitude e lugar preenchido pelo vazio.


Todos bem sabem que é no egoísmo aonde reina a ausência!!! E o amor... só sabe quem o sente, porque se transforma. 


Quem se iludiu e sofre acusando pela sua dor o que chama de amor, correu atrás de fumaças que saem dos bueiros e logo se dispersam pelo mundo... E no fim... o amante terminou algemado a uma idealização.


Pobre louco que delira! Não se pode pedir-lhe paciência. 


Paciência? Não existe a que dure para sempre, pois "sempre" é um lugar desconhecido e o tempo lá é dominado pela transformação, ou seja, tudo muda! O relógio, os dias, os anos são inúteis para sua permanência. A transformação não os respeita, pelo contrário, usa-os. E os egoístas sabem perfeitamente o que é usar, mas há uma diferença, ele não se deixa mudar, quer aprisionar. Quem precisa de muito tempo é a nossa verdade acovardada, já a maldade em muito pouco deixa seu rastro. 


Igual ao amor, a bondade fecunda, transborda e também, transforma: o fraco, renasce forte, o inibido, surge como audacioso, o mesquinho refloresce em gargalhadas de solidariedade. 


Por outro lado, no bairro sombrio da alma humana, lágrimas secam e os mesmos sorrisos não voltam mais, assim como as oportunidades na vida. A janela está vazia, e quem estava ali, cansou e se foi, correu abrindo a porta em busca do sorriso que partiu. Em verdade, acabam por surgir outras lágrimas, outros sorrisos e haverá sempre um egoísta debruçado na janela. Já as oportunidades perdidas ou vividas, nunca mais trarão os mesmos momentos. Se foram... O que finalmente sobrou?  


Transformação! Enfim, ela foi a única que nunca nos abandonou, nem se permitiu desaparecer. Opera-se na maioria das vezes em silêncio e na solidão, mesmo quando a ignoramos ou não a desejamos. Ela não escolhe cor, raça, crença, se é saudável ou doente, muito menos riqueza ou pobreza. Para ela, "eternidade" não é uma estância no além, é algo a fazer. Não importa quanto tempo leve, ela não chega, porque é, ou melhor, já chegou! E assim esperar por ela é inútil!


Obedecendo, portanto, a grandiosidade de seu Criador que é imutável, e por isso nunca se transforma, pois se isto ocorresse tudo seria um caos permanente e não uma transformação harmoniosa. Quem não tem harmonia é o Homem, porque luta contra as forças da sua essência e da Natureza. 


Esta foi quem sabe a maior ironia herdada pela criatura humana no momento de sua criação. Nascidos da imutabilidade, somos mutáveis.


Se pudéssemos ainda aceitar um Deus em sua dimensão antropomórfica, aquele velhinho de barbas brancas, acho que Ele teria dito de forma jocosa no instante da nossa criação: "Já que eu não posso, vai tu, criatura, se transformar! Seja o ato constante que guarda a transformação pulsante."

E assim fomos, e assim somos, seremos, e não deixaremos de ser!

Mas ainda tem gente que não quer ser...