domingo, 14 de setembro de 2014

Você vai morrer!!! E agora?

por Liszt Rangel
A reflexão acerca da própria finitude remete o indivíduo ao desespero e ao mesmo tempo ao manejo de todos os recursos disponíveis para tentar evitar o inevitável, que a grande mensageira da verdade está galopando velozmente em sua direção. Sabe-se quando ela chegará? Não! Ou ao menos, sabe-se por que você, entre tantas pessoas, foi escolhido para morrer? Também não se sabe esta resposta. Porém, a única certeza que qualquer o Homem tem, é a de que vai morrer. Aliás, já passou a morrer desde o instante que começou a viver.

Entretanto, saber que a morte está mais próxima do que se pensava e esperava, é algo por demais chocante. Segundo Kübler-Ross (1996), o paciente quando recebe a notícia de que o término de sua existência está próximo, geralmente, ele atravessa algumas fases no contato com o morrer e com a sua morte. Porém, ela adverte que nem todos passam pela mesma ordem sequenciada, e há outros pacientes que estacionam em algumas das fases do morrer.  

Ao saber que se encontra vítima de uma doença fatal, como certos tipos de câncer, por exemplo, naturalmente a primeira reação do paciente é Negar . Frases do tipo, "quem tem câncer é sua mãe, doutor!!!" Ou, "Eu??? Com câncer? Que brincadeira é esta?" E se dirige aos familiares, dizendo: "Ele está louco, me dizendo que tenho "aquela" doença. A negativa e o medo da doença são tão intensos que muitas pessoas nem falam o nome câncer, chamando a doença de "aquela" ou simplesmente, "aquela que começa com C". 

Já pude presenciar uma mulher, 56, vítima de uma câncer no aparelho reprodutor, que nunca chamava a doença pelo nome. Ela apenas dublava a palavra, sem emitir o som. E assim ela contava as pessoas como estava o tratamento, mas na hora de falar a palavra câncer, ela apenas movimentava a boca, como se fosse uma mímica labial. Quando questionei o porquê dela nunca emitir o som da palavra, ela me disse que era porque no hospital não tinha madeira para bater três vezes, pois falando a doença, a mesma não a deixaria e tocando na madeira, ela seria isolada da doença.

Ao lado desta negativa do paciente terminal, também aparece a negativa da família. Posturas como, "Não, isto só pode ser um erro médico", ou, a mudança de médicos e toda uma bateria de exames sendo repetida diversas vezes denotam a fuga para diminuir o choque da doença. Entrar em contato com morte do outro também nos apavora, porque nos mostra o quanto somos frágeis. 

Do ponto de vista psicológico, a negação é uma tentativa do psiquismo do paciente de diminuir os danos emocionais e psíquicos ao receber a notícia de que seu fim está perto. E o pior de tudo, é que ele não se preparou para ele.

Mas antes dele pensar que é hora de ir embora deste mundo, a Dra. Kübler-Ross percebeu que muitos são tomados pelo segundo nível do morrer, o da Revolta. Geralmente, o paciente que foi cristão a vida toda, usa como principal alvo de sua indignação, Deus. Sim, até porque o Deus dos cristãos é o Deus das lacunas, ora ele está presente, preferencialmente, quando tudo está bem, ora ele não está, quando tudo vai mal. Sendo assim, ninguém melhor do que Deus para ser o culpado de nossa dor e morte. Frases do tipo, "os desgraçados deste mundo que vivem aprontando na vida, vão viver, e eu vou morrer?" Por que eu, Deus?", "Por que o senhor fez isto comigo?" "Por que me escolheu?" "Com tanto bandido por aí, logo eu?" 

Esta postura revela traços egoístas do paciente, e não apenas o desejo de continuar a viver. Ele está revoltado não é porque ele vai morrer, mas porque outros que na visão dele, não merecem viver, vão continuar gozando. Isto é muito observado por profissionais da saúde, bem como por psicólogos que atuam em hospitais. O paciente mal trata os auxiliares, grita com os colegas de quarto, joga o alimento no chão, nega-se a dialogar educadamente com o médico, usa de ironia, enfim... até que um dia ele desperta pela manhã e algo nele começa a mudar.

Quando ele começa a viajar pelo mundo, tentando tratamento em tudo que é país, gastando o dinheiro da família, ou quando se põe a pedir em preces pela sua cura, a voltar o olhar para Deus, buscando fazer as pazes e bater na porta de terreiros, centros espíritas, ou regressa para o Catolicismo, religião tradicional, a qual pertenceram seus pais, ou chega até mesmo a apelar para a Igreja Universal, ele está entrando na terceira fase, a Barganha

Ele agora usa a caridade, "é bonzinho", pensa nos meninos da creche, nos velhinhos do abrigo, tenta fazer o bem até à sogra. Outros buscam terapias alternativas com luzes, cristais, energizações, banhos de lama, fazem penitências, ou seja, o desespero os toma, e nesta hora vale tudo! Se por um lado, este é um mecanismo de defesa usado pelo paciente contra a dor psíquica, por outro, ele está adiando o que terá que enfrentar em breve, a sua morte. Mesmo ignorando, não é a morte a sua única acompanhante nesta hora, mas a vida está operando em transformação em seu íntimo e não apenas em seu corpo.

E pensar na morte, após ter recorrido a tudo para escapar dela, leva-o ao quarto estágio do morrer, a Depressão. Deprimido, o paciente, não deseja ver ninguém, não quer visitas, manda dizer que não está em casa, se isola no quarto, também não se alimenta... porém, não se deve pensar que ele está se entregando. Não, não é isso! Ele agora começou a refletir sobre sua doença e está revendo sua vida, como se estivesse arrumando a mala para viajar. Ele abre o guarda-roupas e diz para si: "Por que guardei esta peça por tanto tempo dentro de mim?", Será que foi isso que me adoeceu?", "Por que não me desfiz das mágoas?", "Por que não vivi aquele grande amor e fugi covardemente?", "O tempo passou tão rápido para mim e não tive as oportunidades que queria, mas também as que tive nãos as aproveitei." 

Após este período, quando ele pedir para comer ou para abrir a janela, quem sabe pedir que alguém o ajude a organizar o testamento, ou simplesmente, pedir para que lhe tragam o álbum da família, é porque ele está pronto! Entrou na quinta fase, a da Aceitação. O que não quer dizer resignação. O paciente, diz para si, "bem, como não tem outro jeito, eu vou!"

Lembro de Jussara, 42, também com câncer, mas distribuído em três partes do corpo. Dois filhos, um menino e uma menina, cinco e oito, respectivamente. Vieram buscá-la na casa da prima, a pedido de Jussara que desejava morrer ao lado do marido que havia ficado no interior, enquanto ela se tratava na capital. Ela me disse na saída, "Não nos veremos mais, nem nos falaremos, Liszt. Agora devo voltar, enquanto ainda há tempo para pedir perdão àqueles a quem fiz mal." E se foi. Se foi primeiro para o interior. Se reconciliou com seus desafetos, depois, ela se foi para outra realidade, haja vista, tudo que nos cerca tratar-se de uma grande ilusão. E ela só foi, porque as malas estavam prontas. E que bom quando dá tempo de arrumar as malas. 

Por isso, como nunca sabemos quando a dama da morte, a grande mensageira da verdade nos visitará, é sempre bom deixar algumas peças já arrumadas na mala, porque quando o trem chegar na sua estação, você não esqueça de estar de posse de seu bilhete. Também é bom, evitar aqueles shows e  espetáculos de certos familiares, que mais atrapalham o moribundo do que o ajudam em sua libertação. O doente terminal que estacionou em uma das fases, também não ajuda, dando vexames, do tipo, "eu não quero ir, eu ainda tenho tanto o que fazer por aqui..." e começa a chamar pelo nome dos parentes, e grita e chora. 

Ora essa, você em vida foi um vitorioso, chegou chorando quando nasceu, é verdade, mas por que justo na hora de partir, não sai de cena sorrindo? Na verdade, somente sabe, portanto, morrer bem, quem soube bem viver! 

O problema não é a morte apenas, é o morrer que torna-se inaceitável. Então, como terapia pessoal, é bom de vez em quando, se perguntar, "Eu vou morrer, e agora?" Ou então, usar outra sugestão, "eu morri! Como me sinto agora?" Geralmente dá uma angústia. Pode ter como causa os preconceitos sobre o assunto, ou pode ser a sensação de finitude, ou quem sabe o pior, a prova que temos muitas coisas para fazer e que deveríamos tê-las feito. Então, façamos, enquanto ela não nos surpreende.

Que tenhamos todos uma boa morte!

 BIBLIOGRAFIA
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  

domingo, 7 de setembro de 2014

Rituais da Morte: dos egípcios aos gladiadores da Roma Antiga

Altar dedicado a Marte por um gladiador
por Liszt Rangel
Não dispor de direito aos rituais funerários e ter o corpo jogado no rio ou no mar, reflete bem o conceito romano de uma morte imposta àquele que não passasse de um infame. Ao mesmo tempo, a mutilação de um dos membros do corpo, como a mão ou o aspecto do isolamento do local do sepultamento e ainda o tipo que é descrito como uma vala ou um poço, afastado da sepultura dos familiares pode reforçar a teoria de que este morto seria alguém que causou vergonha à sociedade ou a um grupo.

Antes de serem examinados os diferentes aspectos culturais relacionados aos rituais da morte é preciso entender o que são práticas mortuárias, como e para que existem ou simplesmente definir seus ritos, o que representam e quais as suas dinâmicas e reflexos. Há que se considerar o contato entre diferentes culturas que redirecionou, acrescentou ou retirou algo da prática mortuária originária de um determinado grupo.

No campo das práticas mortuárias, a Nova Arqueologia coloca em discussão o lugar do indivíduo no registro arqueológico, analisando os símbolos presentes nos rituais funerários, através dos estudos da Arqueologia das Práticas Mortuárias. Com o nome de Arqueologia da Morte, cunhado a partir da década de 70, abriu-se uma perspectiva para um novo campo que se dedicasse a estudar as práticas, ritos e símbolos que envolvem a morte, iniciando-se na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas logo foi utilizado em outros países. 

Vale salientar que a morte em si não é o único objeto de estudo da Arqueologia, mas tudo o que sobrou do processo que a envolve e que pode ser apreendido pelo pesquisador, como o funeral, os restos materiais da cultura que cada civilização possui ao destinar o corpo à morte, a memória do morto representada pelas escolhas da sociedade e da família, bem como toda a simbologia que dá sentido às práticas mortuárias. A reconstituição do ritual e seu significado acontece através dos objetos da orientação do corpo e do tratamento dado a ele. 

Neste ínterim, a própria Arqueologia diverge em relação aos termos usados para nomear tais estudos. Nessa divergência há o termo “Arqueologia dos Cemitérios”, criticada pelo fato da não existência desse local em várias sociedades, limitando, assim, o alcance dos estudos arqueológicos. O próprio termo “Arqueologia da Morte” é considerado inapropriado, pois coloca o fenômeno da morte como físico e humano, limitando o estudo na causa da morte e suas circunstâncias, e que por sinal devem ser consideradas, mas não apenas isso deve ser levado em conta. 

Na tentativa de resolver este impasse, surgiu a nomenclatura “Arqueologia Funerária”, porém esta não amplia o estudo às práticas funerárias, que podem ser percebidas pelos arqueólogos, sendo melhor interpretadas em seu processo de crenças e ritos. Entretanto, a expressão “Arqueologia das Práticas Mortuárias” aparece como mais abrangente e oportuna, além de direcionar o estudo às práticas concretas, em termos de vestígios da cultura material existente, deixando de lado o que não é acessível, como pensamentos e vontades do morto ou dos que o assistiram e que não foram materializados. 

Por outro lado, apesar da busca por uma definição da nomenclatura em torno das práticas mortuárias, há que se considerar uma outra questão mais importante que a da forma, que é a de fundo. Ou seja, o próprio estudo da finalidade de tais práticas, o que se considerar em seu contexto ou fora do mesmo e especialmente as leituras que são feitas, considerando as divergências e os pontos em comum que são encontrados entre os que se dedicam a estas observações e estudos. 

Ao examinar o túmulo ou a urna funerária, antes mesmo, há uma discussão que é preciso levar em conta acerca das inúmeras possibilidades de interpretar e reinterpretar o significado da morte para o grupo e assim poder viabilizar a identificação das características culturais, a contemporaneidade de seus objetos, bem como os detalhes presentes na decoração.

Esta discussão parece ter ficado presa no tempo, obedecendo à ideologias políticas, como é o caso dos estudos de Kossina (1911) que tentou resolver a questão de como se explica a existência de ritos funerários em diferentes grupos, simplesmente, propondo em seu discurso, que se considere a existência de culturas criativas e passivas e o domínio portanto que se opera entre elas. (RIBEIRO, 2007) Como se fosse possível desconsiderar que nesta influência (cultura criativa e passiva) não existisse “o retorno”, ou seja, enquanto observo e estudo tal objeto, este também me influencia, e foi desta forma que ocorreu no contato entre as culturas supostamente vistas como superiores e inferiores.

Há, portanto, uma polêmica em torno da transmissão dos traços culturais e que repercute na análise das práticas mortuárias. O Evolucionismo defende a ideia das transmissões de traços culturais, pela via exclusiva das culturas mais evoluídas para as menos evoluídas e assim contraditoriamente se afasta da crença no potencial de criatividade humana. Sem considerar este aspecto, somos induzidos a entrar em um contexto de superioridade racial e este debate se estrutura, através da dominação dos brancos sobre os negros e amarelos.

Englobando esses aspectos culturais e retomando então a questão do fundo, estar-se-ia pronto para uma análise das práticas funerárias. É oportuno observar a posição do corpo, a pintura de ossos e decorações das cerâmicas do mobiliário funerário, presentes em grupos afastados dos de origem. Ao se rastrear grupos diferentes pelo mesmo traço cultural, podemos atribuir que tal traço permaneceu mantido no tempo, não foi alterado.

As lendas antigas são fontes para nos oferecer conhecimentos acerca deste tratamento dado ao morto. Quando nelas, sejam gregas ou celtas, identifica-se a gravidade da importância das práticas mortuárias. Famoso ficou o conto de Sísifo, rei de Corinto, personificação do homem astucioso que levava vantagem nas situações e que tentou de todas as formas ludibriar a morte. Uma de suas táticas, segundo a lenda, foi combinar com sua esposa que quando a morte o levasse para as regiões de sofrimento, ela não realizasse seus ritos fúnebres, pois ele daria um jeito de voltar à vida. E assim, ele fez, dizendo a Hades que sua esposa fora uma ingrata, porque ele não recebera as honras em seu sepultamento e solicitou ao deus, permissão para voltar e reclamar a sua companheira, seu direito aos rituais. Hades concordou e ele mais uma vez escapou da morte, enganando o deus (FRANCHINI; SEGANFREDO, 2012). 

Entre os celtas, consta a narrativa do reino de Donn, o Senhor dos Mortos, a quem todos os seres humanos um dia acabam prestando homenagens. Tais homenagens começam nas sepulturas, onde guerreiros e reis celtas estão enterrados com suas armas, joias e trajes cerimoniais (WOOD, 2011).

Os túmulos possuem vários significados em diferentes civilizações. Na Grécia, por exemplo, eram locais de cultos e oferendas, principalmente os túmulos dos chamados herois, onde, posteriormente, havia oferendas como forma de veneração aos antigos semi-deuses. Neste momento verifica-se inclusive, a busca de seus ossos como pressuposto de vitória contra o inimigo.

Ainda sob este aspecto, é apropriado observar o tratamento diferenciado antes e após o sepultamento. A continuidade dos ritos e oferendas feitas no túmulo pode indicar a importância do falecido, mas também foi observado nas sepulturas que tal continuidade de adoração pode sugerir um culto aos antepassados de familiares. A busca por possuir restos mortais ou objetos pessoais seria algo a considerar quanto à posição social do reverenciado, pois sugeriria relação com poder, respeito e realçaria a uma continuação da legitimidade na liderança de um grupo, como forma de suposta “bênção” do rei ou heroi, ou simplesmente uma associação com sua posição e prestígio. “A posse de tais objetos autoriza aquele que o possui a representar o passado, autoridade fundamental para o funcionamento da vida presente” (RIBEIRO, 2007).

No que diz respeito ao tratamento dado às práticas mortuárias, é preciso entender que este processo tomou um âmbito social mais amplo. No Egito, nos fins do Reino Antigo e início do Médio, conforme textos encontrados nas pirâmides, eles revelam parte de rituais funerários, verdadeiros guias para o morto no outro mundo. Estes textos puderam ser utilizados por outros componentes da sociedade egípcia, que os copiavam em suas esquifes os encantamentos fúnebres antes escritos pelos reis, porém de forma resumida, fazendo surgir o ritual conhecido como Texto dos Sarcófagos, acompanhados por ritos, objetos e símbolos, anteriormente apenas régios (FINNESTAD, 1989 apud DAVID JOÃO, 2011). 

Um importante aspecto sobre o significado dos rituais funerários, é que este deveria permitir a retomada das faculdades físicas e mentais dos mortos, a fim de que esses desfrutassem, no outro mundo, de uma vida similar àquela terrena. Um exemplo disso são os banquetes funerários, parte essencial dos ritos egípcios, pois através dele, o morto poderia absorver a energia vital dos alimentos (DAVID JOÃO 2011).

As práticas funerárias devem, nesta perspectiva egípcia, ser entendidas num contexto de transformações políticas e sociais. Lidando com os mortos, os vivos fazem uso de rituais que representem uma renovação social (GARRAFFONI, 2005). Ou seja, controle social. 

Esse conceito nos remete, também, ao controle social e manutenção da ordem através da violência. Um exemplo disso é a luta de gladiadores.  Hopkins (1983) apud Garraffoni (2005), refere-se às lutas de gladiadores como um teatro político, um terror que legitimava a força imperial, ajudando a construir a soberania política.

Inscrição do altar dedicado a Marte 
Antes mesmo de se lançarem à morte na arena, os gladiadores realizavam o ritual de adoração a Marte, deus da guerra, expressão máxima da violência, cultuado em um altar específico antes dos espetáculos violentos. Marte era considerado o deus protetor das arenas. Pude ver um desses altares em minhas pesquisas realizadas em Lyon, França. Eis a inscrição da foto ao lado e que nos remete à foto acima, "Ao deus Marte, Callimorphus, segundo comandante desta companhia, na realização de um desejo".


Assim, já podem ser vistos como rituais mortuários certos procedimentos que se iniciavam desde a luta. Os gladiadores se vestiam como bárbaros ou guerreiros míticos, com armas e armaduras tradicionais entre as tribos inimigas e estavam treinados a morrer com dignidade, sem pedir clemência. Para terem a certeza de que o gladiador estava morto, eles sofriam mutilações de toda ordem. Neste contexto, sacrificar prisioneiros de guerra e espalhar seu sangue sobre as tumbas de grandes guerreiros era uma prática comum e tinha como finalidade transferir seu poder para os herois, cortando suas gargantas sobre uma sepultura (WHITE, 2013).

Os gladiadores foram adorados e aclamados pelo povo em sua forma violenta que lhes conferia ares de seres poderosos, cujos suores podiam ser vendidos como afrodisíacos e quando a morte os visitava, alguns recebiam tratamento com rituais funerários e ainda tinham suas lápides com epítetos dignos dos herois. A manutenção do culto em seus túmulos era feita por seus admiradores e fãs.

Após esta pequena viagem pelo Mundo Antigo, vemos o quanto o nosso passado está presente em nossos cemitérios atuais, bem como os rituais da morte ainda nos envolvem. Não devemos, portanto, interpretar a prática mortuária como um ato isolado, pois ela faz parte de todo um conjunto, um processo que acontece ainda em vida e por isso não encontra-se ligada apenas à morte, mas também ao morrer.

REFERÊNCIAS:

DAVID JOÃO, Maria Thereza. Do templário ao funerário no Egito Antigo: o exemplo do Ritual de Abertura da Boca. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.
FRANSCHINI, A.S.; SEGANFREDO, Carmem. As Melhores Histórias da Mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. Porto Alegre: L&PM, 2012, v.2.
MORRIS, Ian. Death-Ritual and Social Structure in Classical Antiquity. New York:
Cambridge University Press, 1996.
RIBEIRO, Marily Simões. Arqueologia das Práticas Mortuárias: uma abordagem historiográfica. São Paulo: Alameda, 2007.
WHITE, Mathew.O Grande Livro das Coisas Horríveis: a crônica definitiva da história das 100 piores atrocidades. Rio de Janeiro: Rocco, 2013).
WOOD, Juliette. O Livro Celta da Vida e da Morte: um guia ilustrado. São Paulo, Pensamento, 2011. 



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Morte - uma questão universal!

por Liszt Rangel
É bem curioso observar que até hoje, quando se ouve falar sobre morte, pensa-se muito pouco no morrer. A morte é o fenômeno biológico, pertencente à natureza e obedece ao fim da existência, pois tudo o que nasce, vive e morre. Já o morrer encerra todo um significado de relação com a morte, não só para o morto, mas também para aqueles que irão pranteá-lo ou não, recordá-lo ou não, reverenciá-lo ou não e que pode ter no morrer do outro, a oportunidade de se acostumar com o próprio término da existência.

A sociedade pós-contemporânea inventou e reinventou a sua relação com a morte, e de preferência uma em que os mecanismos de fuga desta realidade temerária sejam constantemente acionados, quer através das máquinas que mantém a vida artificial, quer no desaparecimento do corpo daqueles que morrem em hospitais com o objetivo de não chocar quem está muito doente, quer pelos encontros sociais com bebidas, salgadinhos e docinhos em que foram tornados os funerais, ou ainda pela maquiagem e adornos com flores que disfarçam a aparência do falecido, e sem esquecer, é claro, da colocação do tapete verde em volta do esquife, para evitar que os presentes não se deem conta que o morto entrará em contato direto com a terra e não pensem no detestável material orgânico que ajudará na decomposição do cadáver. Tudo para evitar o temido, o encontro com a morte!

Não obstante o temor dispensado com a ameaça de sua extinção física, o Homem sempre esteve envolto nos mistérios da morte. Algumas vezes, adorada e cultuada; outras, recitada em verso e prosa, ou até musicada por gênios como Beethoven, Mozart e Bach. Enfim, a morte sempre cercou os passos dos mortais e até lhes serviu de inspiração. Em muitas oportunidades, foi reverenciada como a grande mensageira da verdade e libertadora dos tormentos terrestres, sendo desejada por escravos, idosos, doentes e moribundos. Porém, ela nunca lhes obedeceu a vontade e por isso torna-se inesperada e surpreendente, deixando na vida o doente e levando o saudável, esquecendo o fraco e carregando o forte, abandonando o velho e silenciando o bebê de colo. E mesmo quando não desejada, ela pouco se importa com a vontade do Homem, pois mesmo que ele não queira, vai morrer.

Examinando o fenômeno da morte e do morrer, simbolizado nas práticas mortuárias, verifica-se a tentativa do Homem em manter relações das mais diversas no campo do desconhecido, mesmo que às custas de sacrifícios de seu semelhante e de animais ou na composição do mobiliário funerário com seus respectivos significados, não apenas para o morto e sua função social, mas para aquele que realiza os rituais fúnebres não ser perturbado, segundo ensinavam suas crenças antigas, pelas sombras dos mortos que voltavam para reclamar os cuidados, as preces e até da bebida e da comida que lhes foram negadas (COULANGES, 2011). Sendo assim, a morte assume o caráter de desequilíbrio das relações, causando medo e perturbação. Por outro lado, ela reintegra o grupo que ficou.

A outra face dessa relação com a morte é apresentada, também, como indício de coragem e honra. Seja nos campos de batalha ou na conquista do coração de jovens da nobreza e até como questão de defesa da própria imagem, ela foi enfrentada de peito aberto nos duelos. Não raro, buscar a morte desta forma foi visto como um sinal de autoafirmação da identidade, destemor e desapego. Todavia, o que se convencionou chamar de o “ponto de honra” foi muitas vezes o resultado do orgulho ferido, como no caso do suicídio.

O poeta Álvares de Azevedo morreria em nome de um amor não correspondido por uma donzela inalcançável em sua mocidade sonhadora e tímida. Sêneca teve o suicídio imposto por Nero, que, aliás, também optou em por termo à existência quando se viu diante de seu fracasso. E ele não foi o único a fugir da dor da humilhação. O orgulho ferido de Marco Antônio e Cleópatra após a batalha de Ácio motivou-os ao abandono da vida. 

Alguns historiadores dizem que Pilatos após ter sido chamado de volta à Roma, sentindo-se diminuído perante às acusações de corrupção, de incitação à revoltas por ter ofendido a crença dos judeus e por atitudes cruéis através da prática de crucificação sem que antes o acusado recebesse um julgamento, pode ter tomado o caminho de por fim à própria existência (FILO, 1961; JOSEFO, 2008). Cometer suicídio seria pois um atestado de confissão de culpa e assim, a sua família não ficaria deserdada. Matar-se para tal cultura, seria uma boa solução para preservar não apenas os bens materiais em terras e riquezas, mas também a honra. “De acordo com a versão negativa ele foi executado por Tibério ou Nero, ou cometeu suicídio, e seu corpo, acompanhado de demônios, foi transportado para Viena, na Gália. Como o rio Ródano devolveu seu cadáver, ele finalmente foi transportado para a Suíça e enterrado num poço em uma montanha, junto ao lago Lucerna, conhecida como Monte Pilatos ou Pilatusberg” (VERMES, 2005).

Entretanto, para a grande maioria dos mortais, seja ela feita de poetas e iletrados, reis e plebeus, senhores e vassalos, a morte representa antes de qualquer coisa, a despedida do mundo material, visível e sensorial. Em substituição ao vazio deixado pelos que se foram e como consequência da necessidade de prepararem o adeus final, a morte dos afetos e desafetos ao mesmo tempo, passou a sinalizar em muitos grupos a preocupação com o porvir, e em decorrência disto surgiu a crença no cumprimento das promessas de recompensas e sofrimentos no além, ou simplesmente, a possibilidade de maiores cuidados com as honrarias e práticas funerárias prestadas entre vivos à personalidade social do falecido. Como assevera Kübler-Ross (1996) "o problema da morte é uma questão humana universal. Porém, a resposta a ele difere entre as culturas". 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga: estudos sobre o culto, o direito e as instituições da Grécia e da Roma. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
FILO, Alexandria de. Legatio ad Gaium. Tradução e Edição E. Smalwood. Leiden, 1961.
JOSEFO, Flávio. Antiguidade Judaica. In: História dos Hebreus. Tradução Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, 14 ed.
KUBLER-ROSS, Elisabeth. Morte: estágio final da evolução. Rio de Janeiro, Record,1996.
VERMES, Geza. Quem é Quem na Época de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2005.



domingo, 13 de julho de 2014

A Pirâmide de Maslow

por Liszt Rangel
Os que viveram a década de 80 devem lembrar, certamente, da famosa música dos Titãs, "Comida".
A letra diz assim: "Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que? A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte..."¹ Pois bem, o hit agitou a "galera", mas mandou um recado em forma de pergunta: de que realmente você tem necessidade?

Ano passado, uma instituição não-governamental nos Estados Unidos publicou uma pesquisa interessante, após entrevistar as pessoas em diferentes estados. Os dados revelaram que de cada dez coisas que os cidadãos possuem, na verdade só necessitam de quatro. 

Observando, por exemplo, o desenvolvimento da espécie humana desde o Homem de Neanderthal, vemos que a ingestão excessiva de gordura tinha uma finalidade, preservar a espécie, ajudar na sobrevivência durante os períodos de inverno, onde a caça ficava mais rara e de alguma forma os alimentos não eram produzidos pela natureza, e assim eles tinham que se preparar para a necessidade. E hoje, já temos necessidade de ingerirmos tanta comida assim, para nos mantermos vivos quando o inverno chegar? Pelo contrário, a comida em excesso, e levando em conta a sua qualidade, tornou-se um dos maiores ladrões da saúde.

Abraham Maslow observou os indivíduos e suas necessidades. Ele as chamou de Necessidades Básicas e as dividiu em grupos escalonados, em forma de pirâmide. A de comer, a de dormir, a de fazer sexo, a de beber água e outras, ele as denominou de necessidades Fisiológicas. "É inteiramente verdadeiro que o Homem vive apenas de pão-quando não há pão. Mas o que acontece com os desejos do Homem quando há muito pão e sua barriga está cronicamente cheia?"² (1970). Maslow percebeu que para se galgar outros níveis que ele chamou de necessidades "superiores", é preciso ter as primeiras satisfeitas.

Para Maslow, fica muito difícil falarmos em ética, honestidade e justiça para quem não tem suas necessidades fisiológicas satisfeitas e pedir a esta sociedade que não vá para as ruas reclamar, nem fazer protesto. Muito menos, esperar que tenhamos segurança social quando os próprios "bandidos" estão mais bem equipados e organizados do que aqueles que deveriam manter a segurança nas ruas. Ainda para o estudioso, o nível de reclamações e até a forma como uma civilização reivindica suas necessidades, reflete os valores da mesma.

Então, se no passado, tivemos as arenas, o circo e o pão, hoje temos as mesmas arenas que logo se tornarão "elefantes brancos"; temos os leões, porém agora patrocinados pela Nike e que choram diante do Hino Nacional, mas bem que poderiam chorar por terem tanto nos bolsos, enquanto a pátria de chuteiras chora em seus hospitais públicos; e o povo a se divertir... e a jovem jornalista a chorar... e haja ópio, já que não tem mais pão!    

Por outro lado, Maslow reflete acerca do momento em que a sociedade está demasiadamente, absurdamente farta, ou como ele chama "enfadonha", por ter vivido apenas da satisfação das necessidades tidas como "inferiores". Países como a Dinamarca, a Noruega, a Suíça e o Japão registram altos índices de suicídio. E isto refletiria a chegada ao topo da pirâmide? O lugar em que os indivíduos se encontram satisfeitos, seria motivador para alguém perder a vontade de viver? Não, não é isso!!! Para Maslow, a tendência é que o Homem vá crescendo em seus anseios, aprimorando suas necessidades, mudando essencialmente seus valores e assim, ele continua se satisfazendo, ou como diria Maslow, se auto-atualizando. 

Após as necessidades fisiológicas, o Homem busca a de Segurança que lhe trará a estabilidade. Os altos índices de depressão, estresse pós-traumático, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada têm também como causa a instabilidade social e as relações interpessoais, afinal de contas nos marcamos e na maioria das vezes estas marcas trazem traumas profundos, como se verifica no convívio em família. Para tanto, resolvemos trocar nossa liberdade pela segurança em automóveis blindados, com alarmes, vidros elétricos, travas automáticas, sem esquecer dos muros com cerca elétrica das residências e a vida isolada dos grandes condomínios. Já não se sai mais para ir às compras, as solicitamos em casa. O sociólogo, Zigmunt Bauman, em seus tratados esclarece que trocamos a liberdade pela segurança, mas agora sufocados por tanta segurança, ou seja, "enfadados", já não somos mais felizes, justamente por termos nos afastado de algo indissociável, a nossa natureza. 

Sobre a natureza humana, Alfred Adler, psicólogo, também se aprofundou nestes estudos, quando se referiu à perda de nossa liberdade ao nos afastarmos de nossa natureza. Em sua perspectiva, o mais curioso de tudo é que, quanto mais vivemos com o outro, mais somos independentes e livres. Todavia, frequentemente pensamos o contrário. E ainda há quem pense que há liberdade e felicidade apenas para si. Sobre isto, Cazuza, o grande poeta da música brasileira, escreveu que "As possibilidades de felicidade são egoístas meu amor!!! Viver a liberdade, amar de verdade, só se for a dois!"

Em seguida, Maslow observou que o Homem parte para satisfazer a necessidade do Amor, buscando família e amizade. Ele não se refere ao amor idealizado, pois este por ser inacessível, não satisfaz, frustra. O amor como algo que mobilize a saída de si em direção à alguém, e desdobrando-se até mesmo a uma causa. Neste sentido, Leonardo Da Vinci, Einstein, Jesus e Sócrates foram grandes amantes. Amantes da arte, da ciência, da filosofia, do Homem e da Humanidade...

Avançando em sua caminhada, a sociedade chegará a usufruir de necessidades que estão nos pontos mais altos da pirâmide, a da Auto-Estima e a da Auto-Atualização. Respeitando-se, já não se corrompe e a consciência acusa sua conduta através da aprovação. Compreende que o que faz ao outro, tem diretas consequências sobre seu bem ou mal estar. O respeito por si mesmo, eleva sua auto-estima, pois reflete a lucidez de suas escolhas. O poder agora está com ele (indivíduo) e não pelo que dizem sobre o que ou quem ele é.

No tocante à auto-atualização, o Homem examina sua capacidade e se realiza, ao invés de se colocar como um eterno pecador, como apregoa o Cristianismo. A sua inspiração não se encontra num mito de sofrimento a ser copiado, nem ele irá se realizar na postura de hipocondríaco, chamando atenção para sua dor, como se fosse um mártir da autoflagelação. Só a auto-realização, momento em que o indivíduo se conhece, pode oferecer-lhe a satisfação ainda que distante da tão sonhada e ilusória plenitude. Esta auto-realização muitas vezes custa-lhe o preço de uma viagem dolorosa inicialmente, mas realiza-o quando em contato com sua natureza profunda.   

O indivíduo auto-realizado é o oposto daquele que evoca e vive o complexo de Jonas. Jonas foi aquele da Bíblia, que preferiu fugir ao compromisso de ser um profeta com suas responsabilidades e capacidades. 

Quantos Jonas, portanto, existem que não desejam assumir seus compromissos perante si mesmos, para com o próximo nem com a sociedade? E assim, evitam o contato com seu potencial, com suas capacidades, sabotam a si mesmos e desta forma, fogem das responsabilidades de uma transformação não apenas interior, mas também não contribuem para uma renovação social.

BIBLIOGRAFIA

² Maslow, Abraham Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.

     

domingo, 29 de junho de 2014

Abraham Maslow e o Homem Imperfeito!

Abraham Maslow
por Liszt Rangel
Considerado o "Pai da Psicologia Humanista", Maslow (1908-1970), não aceitava este título, pois se autodenominava um homem antidoutrinário e reconhecia que seus estudos visavam sempre encontrar novas saídas para a saúde ou para a doença do Homem, e principalmente, procurava se afastar dos rótulos e do lado sempre "patológico" percebido pela Psicanálise.

Mesmo tendo sido influenciado pela Psicanálise em sua vida e em seu pensamento, Maslow foi mais além e chegou a ser um sério crítico das explicações psicanalíticas, "Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher agora a outra metade sadia¹" (1968).

Maslow ainda estudou com Alfred Adler, Erich Fromm e Karen Horney e se aprofundou no Behaviorismo e na Gestalt, porém foi com a Antropologia Social que ele mais se identificou. Ele estava mais interessado em demonstrar que era possível uma psicologia voltada para o SER, considerando especialmente sua potencialidade ao invés de seus fracassos, já que para ele até mesmo os ditos "Santos" tinham seus conflitos e imperfeições. "Não existem seres humanos perfeitos! Pode-se encontrar pessoas que são boas, realmente muito boas, na verdade excelentes. Existem, na realidade, criadores, videntes, sábios, santos, agitadores e instigadores. Este fato, com certeza, pode nos dar esperança em relação ao futuro da espécie, mesmo que considerando que pessoas deste tipo são raras e não aparecem às dúzias. E, ainda assim, estas mesmas pessoas às vezes podem ser aborrecidas, irritantes, petulantes, egoístas, bravas ou deprimidas. Para evitar a desilusão com a natureza humana, devemos antes de mais nada abandonar nossas ilusões a este respeito²" (1970).

No que tange as nossas idealizações em torno de figuras "exemplares", resulta nas reflexões de Maslow como uma necessidade de termos nossos ícones, quando especialmente nos negamos a amadurecer e a vermos o outro como uma extensão de nossa própria espécie, ou seja, falível tanto quanto qualquer outra pessoa. Por outro lado, há os indivíduos que gostam de manter e alimentar esta ilusão acerca de sua imagem, colocando-se como missionários, enviados, tomando posturas místicas e românticas, embalando o discurso em voz melodiosa, enquanto criam um secto de discípulos fascinados pelo que aparentam, e profundamente ignorantes quanto ao que realmente são.

A congruência entre o que se fala e o que se faz não é para qualquer um. Como bem escreveu Maslow, são pessoas raras, mas mesmo assim ainda encontraremos nestes, condutas, traços e perfis de imperfeição, o que demonstra que se de nossa parte nos envolvemos com alguma ilusão, esta foi criada na maioria das vezes pela nossa infantilidade psicológica. Como exemplo maior disso, vemos a figura de Jesus de Nazaré ainda tão romantizada pelos cristãos. Quem admite que Jesus revolucionou o Templo de Jerusalém expulsando os vendilhões? Quem é capaz de ler e entender que ele mostra indignação e irritação com os corruptos de seu tempo, chamando-os de hipócritas e cegos? Ou que ele teria se negado a morrer? Quem aceita como normal que ele teria se casado com Maria Madalena ou com outra mulher e mais, que a teria beijado na boca ou tido filhos com ela?

Quem acreditaria que Madre Teresa de Calcutá sofria de depressão e que pensou por várias vezes em abandonar o ministério e só não fez por causa de suas irmãs de fé e dos doentes? Quem creria que ela disse: "Se eu alguma vez vier a ser Santa - serei certamente uma Santa da "escuridão", estarei continuamente ausente do Céu - para acender a luz daqueles que se encontram na escuridão da Terra".

E aqui, no Brasil, quem vê o Chico Xavier como um homem comum, que também teve seus anseios frustrados por não ter tido privacidade, ou por não ter podido ter uma família ou por não ter concluído os estudos? Não, não! É melhor chamá-lo de "O SANTO DOS NOSSOS DIAS". E quando ele afirmava que, quando um de seus gatos morria, ele se sentia tão desolado do mundo, uma melancolia o tomava ao ponto dele se entregar ao desânimo. Se isto é verdade, o que o torna uma ilusão? Quem aceita isto como normal, vindo de um homem tão bom? Quem aceita que ele também se irritava, que perdia a paciência e que alguma vez sentiu mágoa de certos companheiros de jornada?

Quem aceita como verdade, quando as provas e evidências históricas demonstram que certos espíritos vistos como famosos com seus livros que viraram dogmas, se equivocaram em suas narrativas históricas? Quem aceita passar por esta desilusão? E quem tem maturidade para viver com o que é diferente, ou passar a aceitar o que outrora era verdade, mas agora ter que se deparar que não é nossa verdade que prevalece? Quem consegue dormir, sabendo que a verdade foge à nossa compreensão limitada por nossos preconceitos e pela nossa própria ignorância perfeita em nossa imperfeição?

Maslow ainda deu maior contribuição quando nos ofereceu esclarecimentos acerca de nosso comportamento e de nossas necessidades como indivíduos e como sociedade, porém este assunto ficará para o próximo artigo, afinal já temos muito o que refletir sobre nossa admirável e feliz imperfeição. E seja bem vindo ao clube do Homem Imperfeito!

Mas, o que é mesmo ser imperfeito? Bem, acho que só sabe quem se vê como tal...

BIBLIOGRAFIA

¹ MASLOW, Abraham. Introdução à Psicologia do Ser. Eldorado: Rio de Janeiro, 1968.
² _________. Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.                             
   






quinta-feira, 29 de maio de 2014

Complexo de Inferioridade: motivando ou destruindo vidas!

por Liszt Rangel
Alfred Adler foi discípulo de Freud e um dos membros fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena. Fazia parte daquele seleto grupo que se reunia com Freud para estudar a psiquè e o comportamento humano. Apesar de não existir uma psicoterapia fundamentada em Adler, muitos são os seus leitores. Foi ele quem deu uma vertente bem interesse ao conceito de Complexo de Inferioridade.

Se para Freud, o complexo nasce da relação edípica, da falta de investimento narcísico e outras intricadas relações entre irmãos e pai e mãe, para Adler o Complexo de Inferioridade surge diante da infância, quando a criança sente-se pequena em relação ao mundo "gigantesco" que a cerca. Neste momento, ela percebe suas limitações, enquanto toma conhecimento de si, vê-se muitas vezes dependente e incapaz de suas realizações. Para o estudioso será através da relação de interesse social que o individuo se revela, "o interesse social é a verdadeira e inevitável compensação de todas as fraquezas naturais dos seres humanos."

Freud não aceitou as explicações que Adler deu ao Complexo de Inferioridade, no que diz respeito a sua influência cultural. Adler, por sua vez é reconhecido como um culturalista. Também Adler não deu um olhar totalmente pejorativo ao sentimento de inferioridade, colocando-o muitas vezes como motivador para a superação. Mediante a cultura, tudo o que a permeia como, valores, crenças, conceitos, significados, enfim, tudo o que nela se localiza, esta pode fomentar o Complexo de Inferioridade no indivíduo. Por exemplo, uma criança nasce com alguma deficiência física e se na escola em que ela for incluída, caso o ambiente não a acolha saudavelmente, ela poderá, então, passar a desenvolver o sentimento de inferioridade. Por outro lado, se a criança for estimulada, respeitada e reconhecida, ajudada em suas limitações, teremos grandes possibilidades dela atingir em primeira instância, o que Adler chamou de Compensação para depois conseguir a Superação.

O nosso próprio corpo que faz parte da natureza deste planeta obedece a esta lei de reprogramação, de compensação. A Neuropsiquiatria reconhece que pacientes que sofreram traumas e tiveram perda do material cerebral, onde algumas áreas foram afetadas, o próprio cérebro se encarrega de compensar aquela perda ativando outra área para justamente compensar e ajudar a pessoa a superar o problema. Assim funciona com os neurônios, células nervosas que não se renovam, mas que pela sua plasticidade podem ocupar o lugar de outros que já não mais existem.

Se com o corpo é assim, por que não será também com o psiquismo? Adler propõe uma compensação na superação do Complexo de Inferioridade, e é nesta hora que o complexo já não mais adoece o indivíduo. Ele ainda chama atenção para a sociedade onde estamos vinculados e trazendo para nossa realidade, a competição capitalista, o estímulo ao ter, à posse, à busca pelo domínio e a demarcação de território, à semelhança dos animais, geram ainda mais o adoecimento do Homem. Sem deixar de falar, é claro, pela busca de um "lugar ao sol" que nos leva muitas vezes a agir como animais, derrubando o outro. Como exemplo disso, o Brasil assistiu recentemente a paralisação da polícia em Pernambuco, e a barbárie revelou sua faceta oculta sob o véu do que chamamos de civilização.

É muito comum, vermos alguém dito civilizado, uma pessoa instruída, que se sente inferior e na hora em que se acha ameaçado, age na surdina, sem qualquer ética nem escrúpulos a fim de destruir aquilo que ele não pode mais ter. O Complexo de Inferioridade estimula a inveja também. Já afirmou o jornalista Zuenir Ventura, que "A inveja não é querer o que o outro tem, isto é cobiça! Inveja é não querer que o outro tenha!" Ou seja, o outro não tem direito a ter o que eu não tenho ou não posso mais ter. A psicóloga Melaine Klein, usa o termo "espoliar". O invejoso, para ela, deseja espoliar o prazer do outro. 

O invejoso é um doente! Ele sofre porque o outro está feliz. É assim, então, que também agem os perversos que são classificados como psicopatas. Dissimular, se aproveitar das fraquezas do outro, inventar falsas provas para por o outro em situação inferior revelam um comportamento sórdido, tipicamente pervertido que tem como base um sentimento de inferioridade. Já disse um filósofo que "quando não se consegue derrubar alguém com ideias, investe-se em sua moral!" Quando os ratos não conseguem atingir a superioridade dos grandes homens, eles apenas roem-lhes os calcanhares.

Quantos ex maridos existem que para não perderem o objeto de seu desejo para outro da mesma espécie, atuam de forma vil, dominado pelo sentimento da inferioridade? Ou seja, eles pensam, "já que ele (o outro) é melhor do que eu, irei destruir a sua imagem, mesmo que minha ex esposa não fique comigo, mas nem ela nem ele serão felizes juntos."

São muitos os ex maridos e ex esposas que ao se sentirem perdendo a zona de conforto e a região do falso domínio em que se encontravam, passam a praticar um dos crimes mais graves contra os próprios filhos. O crime da Alienação Parental. Este tem como objetivo destruir a imagem do outro, mãe ou pai, com apontamentos na maioria das vezes disfarçados de preocupação, mas que escondem a manipulação sobre os sentimentos e pensamentos infantis. 

O Complexo de inferioridade necessariamente não está relacionado às condições de pobreza. Há pessoas simples, que trabalham e moram em locais da periferia de nosso país, mas que se sentem reconhecidas e respeitas em sua comunidade. Aos sábados lavam a roupa que usarão durante a semana e aos domingos vão ao pagode, e ainda arranjam tempo para auto-realização e auto-atualização ajudando o próximo. Do outro lado da cidade, muitas vezes, vemos uma família de médicos, onde já existe uma pressão para que os filhos, sobrinhos, netos sigam a caminhada neurótica da família tradicional, e ali se destaca alguém que mesmo que ocupe esta função de médico, na intimidade sente-se um fraco, não tem atitude na vida, cria vínculos de pendência com o outro, é dominado pela presença da covardia e é vítima fatal do Complexo de Inferioridade. Então, sentimento de inferioridade não tem relação com status, nem com poder, muito menos com dinheiro. É uma doença da alma! 

Quantas pessoas existem que têm de tudo, mas que ainda assim não dormem arquitetando o mal do outro? E a não aceitação deste sentimento trará ainda maiores distúrbios ao psiquismo de seu portador, como uma baixa na autoestima, falta de autoconfiança, tendência a intimidar e a chantagear aqueles que não lhe obedecem a vontade, enfim, trata-se de comportamentos doentios que aproximam o indivíduo da psicopatia.   

Um outro fator interessante analisado por Adler, é que este lugar de adoecimento no Complexo de Inferioridade irá manter-se desta forma enquanto o indivíduo não buscar a compensação para as suas perdas. Pois sem compensação, não há superação. Entretanto, há que se observar que existem pessoas que conseguiram compensar a falta, superaram e ao invés de compartilharem sua experiência na transcendência com o outro, elas são dominadas pela arrogância, pela ambição e até por comportamentos perversos, trazendo sofrimento a quem elas acham ser inferior.

Então, para Adler, há saída para o Complexo de Inferioridade? Sim, apenas uma, a Cooperação! Quando pacientes que sofreram de alguma doença grave, compensaram o momento da dor através de uma linda e verdadeira história de amor, eles tendem com a superação ajudar aqueles que atravessam também suas dores, e assim, aquele sentimento de inferioridade e de perda é substituído, segundo Adler, até por um filho, pois para ele a união dos amantes é naturalmente agraciada com o prêmio da maternidade e da paternidade. Adler, também, focou ao lado do amor, mais duas fortes atividades humanas: o trabalho e a amizade. Nestas circunstâncias, onde existia inferioridade, agora há uma autoestima elevada. Até mesmo os neurônios cooperam na liberação de endorfinas, dopaminas, adrenalinas, noradrenalinas e o psiquismo vai se harmonizando. 

A solução proposta por Adler para o Complexo de Inferioridade, é a cooperação. E cooperação, principalmente em culturas tão apegadas aos bens materiais como a nossa, onde se mata por um relógio, ou tira-se a vida de uma mulher porque não sabe perdê-la para outro homem. Enquanto esta superação não ocorrer, haja vítimas deste Complexo, pois por onde ele passa deixa um rastro de dor, amargura e decepção!  

BIBLIOGRAFIA:
KLEIN, Melaine. Inveja e Gratidão. Imago: Rio de Janeiro, 1957.
HALL, Calvin., LINDZEY, Gardner., CAMPBELL, John. Teorias da Personalidade. Artmed: São Paulo, 1998 

domingo, 4 de maio de 2014

Por dentro do Cristianismo - O problema dos evangelhos!

por Liszt Rangel
O problema do Novo Testamento é o mesmo que se encontra no Antigo Testamento: a originalidade destes documentos está perdida. Se os primeiros livros do Antigo Testamento foram escritos em média 700 anos após o ocorrido daqueles fatos, isto já nos leva a questionar a credibilidade de tais narrativas, e em especial quem foram seus autores, mas também a quem desejavam atingir. O maior erro do Cristianismo foi ter tornado a Bíblia um livro histórico e ao mesmo tempo um artigo de fé inquestionável, um livro sagrado.

Não há registros seguros na Bíblia, e isto inclui também os evangelhos. Os evangelhos que hoje dispomos são cópias de cópias que se multiplicaram ao longo dos séculos. Eles carregam a marca de escribas gregos intelectuais que pouco conheciam os costumes judaicos. Raros são os momentos em que aparecem citações em aramaico nos textos gregos, como é o caso de "Abba" que deve ser entendido como "Papaizinho" (Mc 14,36) e "Talitha cum", que significa "Menina, levanta-te" (Mc 5,41). "Isto quer dizer que nenhum dos evangelhos canônicos pode remontar a Jesus. Como a maioria dos membros da Igreja era falante de grego, habitantes não-judeus do Império Romano, era necessário que os ensinamentos de Jesus fossem feitos em grego."¹

Ao que se sabe até o momento, em crítica textual e exegese, é que as cartas de Paulo devem ter sido os primeiros textos usados pelas comunidades cristãs não-judaicas. Isto também não implica dizer que as cartas são originais e confiáveis. *

Aliás, não se pode levar a sério quem disser, atualmente, que possui alguma tradução original dos evangelhos. Não há nenhuma possibilidade de termos acesso às fontes originais quer em aramaico, hebraico muito menos em grego antigo. E esta é a opinião dos maiores especialistas no assunto. Ao menos em alguns pontos eles concordam. "Entretanto, os nossos quatro evangelhos sobreviveram em grego; eles não são traduções de um original semítico." ¹

Os evangelhos não foram escritos por quem os assinou, aliás nenhum daqueles que escreveu o evangelho conheceu de fato Jesus. É bom frisar que os evangelhos não foram escritos por uma pessoa apenas, mas por 4, 6, 8, 12 e até por 20 mãos para chegar a formatação que hoje conhecemos. Sendo assim, Marcos não foi escrito totalmente por Marcos; nem tampouco Mateus escreveu Mateus. Este que assina Mateus não é aquele Levi, coletor de impostos, que por sinal não há explicações racionais para Jesus ter mudado o nome dele para Mateus. E o evangelho atribuído a Lucas, então, nem se fala, pois o que mais tem neste texto são arrumações posteriores para que tudo fique bem organizado e à disposição de uma religião nascente. Já o de João, como se afirma nos próprios Atos que ele e Pedro eram analfabetos, não foi escrito por ele. Além do mais, a escrita e o pensamento ali predominante pertencem a um estilo grego e não a um homem nascido na Judeia.  

Os primeiros escritos são chamados pelos pesquisadores de Q, ou ainda de os Ditos do Senhor. A letra Q vem da palavra alemã "Quelle", que significa "fonte". Já tive a oportunidade de escrever sobre este material em outra oportunidade nos meus livros. A fonte Q seria um documento que possuía as palavras e fatos mais originais de Jesus. Nela encontraríamos a sabedoria e a regra de conduta que norteou os passos daqueles que o ouviram. Este grupo que conheceu Jesus e seus ensinos são conhecidos pelos especialistas como o Povo de Q. 

Este grupo de galileus analfabetos e pescadores se associou a pessoas nas cidades de Corazim, Betsaida, Migdal, Cafarnaum e assim dividiam-se entre os que seguiam Jesus, os que patrocinavam suas andanças e os que apenas o acolhiam em seus lares. Nem todos, ou melhor, a maioria não estava disposta a sair pelo mundo para falar de amor ao próximo. Na verdade, eles eram judeus e praticantes do Judaísmo. Não queriam uma nova religião. O Nazareno, para eles, era apenas um mestre de profunda sabedoria, e eles deveriam admirá-lo, especialmente pela coragem de tentar ajudar os mais fracos enquanto o mundo era dominado pela violência dos mais fortes, os romanos.

Muitos estudiosos acreditam que a fonte Q perdeu-se no tempo. Já uma minoria ainda tem a esperança de achar tal documento e quem sabe resgatar a essência de sua mensagem. Há ainda um grupo de pesquisadores que aceitam que tal fonte encontra-se espalhada nos próprios evangelhos e identificá-la seria um trabalho árduo, mas alguns acreditam ser possível.

Os que acreditam na tese da fonte Q, defendem que ela foi usada pelos amigos de Jesus por volta dos anos 30 e 40 d.C. e deve ter sido escrita por uma pessoa instruída, talvez o Levi ou outro coletor de impostos, já que Jesus adorava viver na companhia deles e também retirava-os do trabalho que explorava os mais pobres. É possível que Marcos tenha lido alguma coisa nela, quando começou a escrever suas primeiras anotações por volta de 65 e 70 d.C. Porém, escrever algo sobre o que alguém fez e falou depois de quase 40 anos após a sua morte, é muito difícil, ainda mais quando se está ouvindo o que sai da memória do povo. Entre os anos 85 e 90 d.C. apareceram os evangelhos atribuídos a Mateus e a Lucas e pelos fins de 90 d.C., surge o evangelho atribuído a João. Tanto este evangelho quanto as cartas do senhor Paulo de Tarso serão muito usadas na formação da Igreja, e até hoje constituem seu maior pilar.

O evangelho de Marcos, portanto, foi o primeiro a surgir. Quando se pensa em evangelho sendo escrito no primeiro século, é bom imaginar um papiro, sem títulos, sem capítulos, muito menos versículos, um texto corrido. Trata-se apenas de anotações soltas colhidas nas ruas, nas aldeias, conversando com transeuntes que diziam assim: "eu ouvi dizer que Jesus curou um homem cego lá para as bandas de Jericó!". E um outro ao lado, vai completar, "sim, eu conheço uma mulher que a mãe dela conheceu um nazareno que era do mesmo lugar desse tal Jesus".

Além do mais, há uma outra dificuldade, é encontrar testemunhas de tal mensagem, principalmente depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C. feita pelas forças do general Tito. Um outro ponto importante na busca pelas testemunhas oculares, é que na época de Jesus as pessoas tinham suas preocupações diárias, e nem todas ouviram falar dele. Ele não teve a fama que os próprios evangelhos tanto carregam quando se referem a uma multidão que o seguia. Jesus não teve tantos adeptos de sua mensagem como muitos pensam. É claro que suas pregações e feitos devem ter atraído a muitos, entretanto a maioria não estava preocupada com questões espirituais, mas interessada em uma vida sem problemas, pacífica e andar com Jesus era atrair os olhares do sacerdócio corrupto e do representante de Roma. Assim como ele, multiplicavam-se outros curandeiros e profetas naquele tempo. E muitos morreram por incitarem as massas contra Roma. 

O que se percebe, portanto, é que os evangelhos nasceram para um objetivo, a Cristianização do Mundo. Jesus é o Salvador! E nele devemos ter a promessa de um retorno para que apenas os justos, os escolhidos tenham a vida eterna! O resto? Ah... o resto vai é para o Inferno mesmo!!! Esta é a filosofia do Cristianismo, salvar o mundo do mal e ter "Nosso Senhor Jesus Cristo" à frente como a encarnação do próprio Deus, ou seja, Deus também é cristão!

E quem não for cristão, não pode ser filho de Deus. Então, é filho de quem? Só pode ser do diabo!

Quando se fala, portanto, em ideologia cristã e releitura da mensagem de Jesus, seja esta psicológica ou moral, deve-se ter muito cuidado, sinal de alerta está aceso, principalmente para que não se cometa o mesmo erro dos cristãos copistas, o de manipular para encaixar nesta ou naquela doutrina ou religião. É muito perigoso dizer que Jesus disse isso ou aquilo, ou que este pensamento é verdadeiramente de Jesus. Os cristãos normalmente, não possuem esta prudência, até porque não se exige ter uma fé aliada ao conhecimento. Ainda há os que conhecem as adulterações, mas que optam por uma fé cega. E assim, multiplicam o rebanho em torno de interpretações desta ou daquela escola religiosa.

O problema dos evangelhos então, é de todo um problema? Em absoluto! De forma alguma, pois ali estão belas máximas morais, verdadeiras pérolas; algumas delas, provavelmente, saídas dos lábios do Homem de Nazaré. O problema, portanto, constitui em tornar os evangelhos um documento inquestionável e seguro. Agindo assim, quem sabe não seremos "cegos que guiam cegos"? E ainda hoje talvez ele pegunte: "o que acontece quando um cego guia outro?"

"Ambos caem no abismo", eis a resposta. 

Mas nós já caímos. Estamos apenas tentando nos salvar, subindo uns sobre os outros, os mais fortes sobre os mais fracos... Eis um outro problema dos evangelhos - a Salvação!

* Consultar artigo anterior, "Por dentro do Cristianismo - Quem fundou?"

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
¹ VERMES, Geza. O Autêntico Evangelho de Jesus. Record: Rio de Janeiro, 2006. 

domingo, 13 de abril de 2014

Por dentro do Cristianismo - Quem fundou?

por Liszt Rangel
Logo de início, quando se ouve as palavras Cristão e Cristianismo, deduz-se que elas possuem origem na palavra Cristo. A expressão é de origem grega, CHRISTUS e quer dizer, "o Ungido".

Até hoje os cristãos creem que foi Jesus quem fundou o Cristianismo, entretanto não há qualquer fundamentação histórica, muito menos evidências para esta crença ser aceita como um fato. Ela nasce do pressuposto que Jesus seria o Messias, mas não foram poucas as vezes que, segundo as narrativas, ele mesmo não expressava interesse pelo título messiânico, ou quando fugiu das cidades (Marcos, 1:45) ou quando repreendeu as pessoas para que não falassem sobre isto (Marcos, 3:12).  

O problema de Jesus ser visto como o fundador de uma nova religião, não foi culpa dos cristãos. Alguns de seus amigos o viram como um homem sábio, mas a maioria estava à procura do Messias esperado. Entre estes, contam-se também os cristãos da segunda e da terceira geração em diante, responsáveis por projetarem no Nazareno, a carência social e moral de um libertador na Palestina do século I d.C. "A expectativa de muitos judeus na época de Jesus era a de que o Messias seria um poderoso rei-guerreiro".¹ Entretanto, há uma larga distância entre Jesus e o suposto Messias, ou melhor, entre Jesus e o Cristo, personagem criado pelos líderes cristãos, ao longo da edificação da nova religião.

As adequações feitas em Jesus para que este fosse visto como o Cristo também foi fator determinante no rompimento com o Judaísmo e com a consequente perseguição que os Filhos de Abraão - os judeus - sofreram por parte dos cristãos, os "únicos" Filhos de Deus". E um desses responsáveis pela adulteração tanto na mensagem de Jesus, quanto na compreensão da finalidade de sua presença entre os homens, foi um doutor da Lei, fariseu, perseguidor e assassino de cristãos, chamado Paulo de Tarso. "Paulo não estava preocupado com a atuação e os ensinos do Jesus vivo, mas com o feito do Cristo morto e ressuscitado para os crentes".²  

Paulo de Tarso, batizado como Saul, era da cidade de Tarso, na Cilícia, situada ao sul da atual Turquia. Já nasceu cidadão romano e participou por volta do ano 30 d.C do assassinato do primeiro mártir do Cristianismo, Estêvão. Tanto os exegetas quanto os críticos textuais e historiadores sabem que Paulo não escreveu todas as cartas que levam seu nome. Alguns pesquisadores as resumem em um total de sete, outros ainda aceitam oito cartas como sendo de sua autoria. Até agora, então, temos: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, Fênelon, 1 e a 2 Tessalonicenses, sendo que esta última é questionável. Já 1 e 2 Timóteo, Tito, Efésios, Colossenses e a mais dissidente de todas, a carta aos Hebreus, foram produzidas possivelmente por seus discípulos ou por cristãos que tentaram pegar a fama e a aceitação de suas cartas que já eram consideradas Escrituras. O plágio já existia desde o século I.

Foi Paulo quem deu o passo de rompimento com o Judaísmo ao defender a separação entre a aceitação da Lei judaica e a fé em Cristo. Para ele, ter fé em Cristo independia se o indivíduo era judeu ou pagão. "Em algumas de suas cartas, Paulo distingue a lei e o evangelho, insistindo que uma pessoa é justificada pela fé em Cristo (o evangelho), não pelo cumprimento das obras prescritas pela lei judaica".³

Na opinião do escritor Hermínio de Miranda, Paulo sacrificou muito Jesus ao Cristo. Ou seja, em seus escritos não há qualquer referência ao Jesus-Homem, muito menos uma aproximação com a essência de sua mensagem.

Simplesmente, o que Paulo fez, foi trocar Moisés por Cristo e esta substituição ocorreu em nome de toda estrutura farisaica que o acompanhava, incluindo as ideias da ressurreição e da volta de Cristo - a Parusia. Também é presente em seu discurso a importância do sofrimento. Estas concepções não são de todo, de origem judaica, mas se tornaram a base do Cristianismo. Ainda para Paulo, Adão foi o homem que introduziu o pecado no mundo e Jesus Cristo é o segundo Adão que teve como objetivo levar os pecados do mundo. Os judeus não acreditavam que a missão do Messias era  a de sofrer pelo povo.

Existem vários fatos controversos e questionáveis na vida de Paulo. O principal deles é o episódio da voz que ele escuta e da luz que o cega. O outro fato é o do apedrejamento que ele diz ter sofrido em Listra, na atual Turquia. Após ser expulso da cidade, ele se levanta como se nada tivesse lhe ocorrido e vai pregar em outro lugar e ainda conta o feito como se nenhuma pedra tivesse lhe aberto feridas ou quebrado os ossos. Vale lembrar que apedrejamento na tradição judaica é para matar! Não há seriedade nestes relatos em Atos. Se eles existiram, não foi da forma como estão narrados, até porque foram colhidos mais de trinta anos depois de supostamente terem ocorrido.

Em ambos, o que se percebe é a deflagrada campanha auto-promocional em torno de sua "missão" e a necessidade de ser aceito no grupo liderado por Pedro e Tiago, irmão de Jesus. No episódio de Damasco, ninguém com exceção de seus servos presenciou o fenômeno da voz. Já o caso do apedrejamento, ele ainda se coloca na condição de que o verdadeiro apóstolo de Cristo tem que sofrer. Ele fez muito bem o trabalho de marketing em torno de sua imagem.

Eis aqui um trecho de sua exaltação ao sofrimento por amor a Cristo:

São (seus adversários cristãos, os contra-apóstolos) ministros de Cristo?
Como insensato, digo: muito mais eu. Muito mais, pelas fadigas;
muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. 
Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes 
os cinquenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado.
Três vezes naufraguei. Passei um dia em uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. 
Sofri perigos nos rios, perigos de ladrões, perigos por parte de meus irmãos de estirpe,
perigos dos gentios... perigos dos falsos irmãos!   (2 Cor 11:23-26) 

O que é melhor, então? Você ter vivido ao lado de Jesus, ou Jesus após a morte ir lhe chamar para ser seu apóstolo? Não foi assim que ocorreu com Paulo?
O que dá mais importância e eleva o Ego?
E o prêmio após o sofrimento é a vida eterna...

Mesmo com tamanho marketing pessoal, os adeptos de Jesus não o aceitaram e o desacreditaram. Paulo, então, tornou-se ainda mais polêmico, discutindo e se afastando não apenas dos cabeças do grupo do Nazareno, mas também arranjou problemas com judeus nas Sinagogas, com os gregos e com os romanos. Nem mesmo Barnabé, fiel amigo, aguentou sua companhia por muito tempo.

E até hoje Paulo tem seus seguidores. Eles são chamados de cristãos e são bem ortodoxos. Estão no Catolicismo, defendendo a ressurreição de Cristo e a conversão através do corpo de Cristo que segundo Paulo é a Igreja. Ou seja, fora da Igreja não há salvação! Ela deverá guiar os passos da Humanidade ao Paraíso e condenar os não convertidos ao Inferno. Como já andou fazendo ao longo da História...

Os protestantes também são profundos admiradores de Paulo, e consequentemente não são menos radicais, principalmente os neopentecostais. O conceito de salvação proposto por Lutero, já não tem mais a marca exclusivista da Igreja, na visão dos reformistas. A condição salvífica agora ocorre pela "graça" que o pecador recebe. Mudou de lugar, mas a exclusividade continuou. Antes era na Igreja, mas após a Reforma é através da fé em Cristo. Ou seja, assim como Paulo foi escolhido por Cristo, os reformistas também se acham escolhidos para a salvação da Humanidade. Para eles, só há uma salvação, e está em Cristo. Não adianta bater nas portas de outra religião, pois é Jesus quem o elege, tal qual na estrada de Damasco.

Sem uma análise desapaixonada acerca do Cristianismo nascente, não se conseguirá a compreensão de um passado que ainda interfere em nosso presente, muito menos chegar-se-á ao entendimento de como os cristãos se afastaram do Nazareno e passaram a seguir um Cristo místico paulino.

Eis o homem - Paulo de Tarso - o verdadeiro fundador do Cristianismo. Apesar de ter uma péssima oratória, conseguiu se fazer ouvir pelas massas pagãs porque era culto; apesar de fariseu, rompeu com o Judaísmo, fundou uma nova religião e ainda tocou fogo nas relações entre judeus e cristãos; apesar de se arvorar como fiel defensor de um Cristo que só ele entendia, foi o maior responsável pelo desaparecimento da mensagem de Jesus. Ele fundou inúmeras Igrejas pelo Mediterrâneo, as organizou internamente, impôs o véu sobre as mulheres, quis ganhar dinheiro com a religião e ordenou que suas cartas fossem lidas para todos, sem exceção, pois o seu objetivo era multiplicar prosélitos.

E foi assim que o mundo Ocidental conheceu o Cristo de Paulo, mas ainda ignora o Jesus de Nazaré.

BIBLIOGRAFIA
¹ - EHRMAN, Bart. Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi? Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.
² - VERMES, Geza. Quem é quem na época de Jesus. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.
³ - EHRMAN, Bart. O que Jesus disse? o que Jesus não disse? Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 

domingo, 30 de março de 2014

Por dentro do Cristianismo - O Cristo dos cristãos!

por Liszt Rangel
A necessidade de se ter sempre um guia, um líder para seguir, é facilmente encontrada em todas as épocas da Humanidade. Com os judeus isto foi ainda mais forte, considerando o caos social que Roma levara àquele povo. Entretanto, é bom lembrar que os judeus no século I a.C., quando da chegada do general Pompeu em 64, já viviam em tamanha divisão, corrupção e alienação das massas através do sacerdócio que impunha práticas exteriores e dificultavam o acesso ao esclarecimento da Filosofia da Torá.

Assim, levando-se em conta o contexto histórico, em algumas ocasiões fabrica-se o líder, mas em outras ele é aclamado e com grandes possibilidades de ser transformado em mito. Ele nasce! E o mito pode ser o que o Homem precisar e necessitar fazer dele. Assim, ele é segundo o entendimento do seu criador e assim ele foi transmitido de geração em geração. “O mito é o que nunca foi, ainda que seja sempre.”(CAMPBELL, 1991 apud HARPUR, 2004, p.31).

Jesus Cristo é um exemplo disso.

Interessante observar que o Homem prefere o mito ao seu semelhante. Não há como descartar em tal escolha o processo de evitação a fim de que se adie o quanto puder o amadurecimento de suas reflexões, perspectivas e percepções de si e de tudo o que o cerca ou do que lhe escapa a razão ainda primeva. Não se pode negar, é óbvio, que a criação e aceitação do próprio mito já se trata de uma etapa para tal amadurecimento, pois o mito encerra verdades que a própria história ignora.

A problematização que leva a uma compreensão mais exata do papel do mito, passa também pela incapacidade de igualar-se, ou de no mínimo tê-lo bem perto, e assim indispensável é para tal, diminuir o confronto do que é real, trazendo à tona a força do imaginário. Desta forma, o mito torna-se inacessível, distante, frio e até gélido, enquanto forte, porém próximo quebra-se, esvai-se em seu conteúdo. E não se pode deixar de dizer que enquanto forte é imparcial a todo tipo de acontecimento e ao mesmo tempo, dele devemos esperar a intervenção a nosso favor, bem como suas gratificações e perdões. Foi assim com Zeus e os deuses do Olimpo, com os judeus mediante o domínio de povos estrangeiros, com o homem medievo diante da peste negra e no mundo pós-contemporâneo com a venda da fé e os benefícios de um paraíso que se compra.

O mito Cristo é o reflexo desta busca pelo próprio imaginário, pelo ideal de um libertador não só dos judeus, mas de todo o mundo ocidental. Ele deve levar consigo os pecados inventados e reinventados pelo cristão e que por sinal neles ainda se compraz à medida que sabe não poder fugir ao seu aprendizado determinista, o de errar enquanto aprende e o das escolhas infelizes enquanto muitas vezes apenas sabe destas, mas delas não tem consciência.

Porém, como necessita repetir a experiência e sabe que terá outras oportunidades, não se torna exigente para consigo, enquanto faz-se assim, rígido e intolerante para com o próximo. Enquanto isso, como é bom ter alguém que morra por ele, cristão... Alguém que sofra por todos e ainda os ame, não os julgue, os perdoe e os espere no céu com uma cadeira confortável onde também poderá desfrutar de um escalda pés.

Enquanto isso não ocorre, o cristão na relação com o mito, mantem-se à retaguarda. Pô-lo bem distante, se possível, e preso a uma cruz é sinal de segurança que ele não tentará apressar-lhe os passos, muito menos incitá-lo a pensar coisas do tipo, "E se ele não nasceu em Belém? E se ele casou? E se ele não ressuscitou? E se ele não foi o Messias? E por que o sigo e não o compreendo? E por que falo em amor e fraternidade e desrespeito os que não pensam como eu?".

Manter o mito longe e crucificado também ajuda a subtrair-lhe ainda mais as forças a fim de que ele não resista ao já programado fim trágico, o de morrer pela Humanidade. Porém, a imagem que seria de transição foi eternizada, ou seja, o Cristo mítico ainda sangra na cruz e nem tão cedo haverá um cristão disposto a retirá-lo dali, porque aquele é o seu lugar, é aquilo que ele merece e os cristãos precisam dele ali para se sentirem seguros, ao tempo que que se sentem presos à culpa.

É assim que o imaginário mítico permite não admitir sua morte, pois ele continua preso à madeira da infâmia e da própria pusilanimidade cristã. Ou melhor, da insanidade cristã.

A catacumba está vazia não porque ele ressuscitou, mas porque seu corpo, passados dois mil anos, ainda não desceu ao jardim para ser velado por Maria Madalena e outras mulheres. Ele é olhado, fitado num misto de misericórdia e culpa, pois eis que ele não merecia esta morte, porém ela é necessária para que o cristão continue em gozo no mundo. E depois do gozo, vem a culpa, vem a dor, a morte... E depois disso vem o consolo, Ele ressuscitou!!!

O mito do Cristo venceu a morte na ressurreição, todavia ele faliu na missão de levar consigo os pecados do mundo. Sua saída da Terra foi mais triunfante do que sua chegada ao nascer de uma virgem e entre animais em uma manjedoura. Ele se superou! E os filhos órfãos de um Pai vivo, os cristãos, ao se sentirem abandonados e inseguros, celebram sua paixão, choram por seu triste fim, repetem seu abandono mas não são capazes de retirarem seus pregos nem de reavivarem a sua mensagem esquecida. Ao contrário, aguardam com exclusividade salvífica o seu retorno sobre as nuvens, e enquanto isso não ocorre, o alívio para a culpa é dar algumas esmolas aos pobres. Até porque enquanto estes existirem, haverá os ricos para pagarem ao Cristianismo pela salvação. "Aos filhos de Gandhi, morrendo de fome; aos filhos de Cristo, cada vez mais ricos." (Cazuza)

E foi assim que ele foi tornado Deus, e não apenas um Filho de Deus. E ele continua mito, posto que o Homem já não mais existe. E eis que não pode existir, caso contrário, o que será feito com o mito? E mais, o que fará o cristão sem Cristo?


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HARPUR, Tom. O Cristo dos Pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da Bíblia e da história de Jesus. São Paulo: Pensamento, 2008.