segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Morte - uma questão universal!

por Liszt Rangel
É bem curioso observar que até hoje, quando se ouve falar sobre morte, pensa-se muito pouco no morrer. A morte é o fenômeno biológico, pertencente à natureza e obedece ao fim da existência, pois tudo o que nasce, vive e morre. Já o morrer encerra todo um significado de relação com a morte, não só para o morto, mas também para aqueles que irão pranteá-lo ou não, recordá-lo ou não, reverenciá-lo ou não e que pode ter no morrer do outro, a oportunidade de se acostumar com o próprio término da existência.

A sociedade pós-contemporânea inventou e reinventou a sua relação com a morte, e de preferência uma em que os mecanismos de fuga desta realidade temerária sejam constantemente acionados, quer através das máquinas que mantém a vida artificial, quer no desaparecimento do corpo daqueles que morrem em hospitais com o objetivo de não chocar quem está muito doente, quer pelos encontros sociais com bebidas, salgadinhos e docinhos em que foram tornados os funerais, ou ainda pela maquiagem e adornos com flores que disfarçam a aparência do falecido, e sem esquecer, é claro, da colocação do tapete verde em volta do esquife, para evitar que os presentes não se deem conta que o morto entrará em contato direto com a terra e não pensem no detestável material orgânico que ajudará na decomposição do cadáver. Tudo para evitar o temido, o encontro com a morte!

Não obstante o temor dispensado com a ameaça de sua extinção física, o Homem sempre esteve envolto nos mistérios da morte. Algumas vezes, adorada e cultuada; outras, recitada em verso e prosa, ou até musicada por gênios como Beethoven, Mozart e Bach. Enfim, a morte sempre cercou os passos dos mortais e até lhes serviu de inspiração. Em muitas oportunidades, foi reverenciada como a grande mensageira da verdade e libertadora dos tormentos terrestres, sendo desejada por escravos, idosos, doentes e moribundos. Porém, ela nunca lhes obedeceu a vontade e por isso torna-se inesperada e surpreendente, deixando na vida o doente e levando o saudável, esquecendo o fraco e carregando o forte, abandonando o velho e silenciando o bebê de colo. E mesmo quando não desejada, ela pouco se importa com a vontade do Homem, pois mesmo que ele não queira, vai morrer.

Examinando o fenômeno da morte e do morrer, simbolizado nas práticas mortuárias, verifica-se a tentativa do Homem em manter relações das mais diversas no campo do desconhecido, mesmo que às custas de sacrifícios de seu semelhante e de animais ou na composição do mobiliário funerário com seus respectivos significados, não apenas para o morto e sua função social, mas para aquele que realiza os rituais fúnebres não ser perturbado, segundo ensinavam suas crenças antigas, pelas sombras dos mortos que voltavam para reclamar os cuidados, as preces e até da bebida e da comida que lhes foram negadas (COULANGES, 2011). Sendo assim, a morte assume o caráter de desequilíbrio das relações, causando medo e perturbação. Por outro lado, ela reintegra o grupo que ficou.

A outra face dessa relação com a morte é apresentada, também, como indício de coragem e honra. Seja nos campos de batalha ou na conquista do coração de jovens da nobreza e até como questão de defesa da própria imagem, ela foi enfrentada de peito aberto nos duelos. Não raro, buscar a morte desta forma foi visto como um sinal de autoafirmação da identidade, destemor e desapego. Todavia, o que se convencionou chamar de o “ponto de honra” foi muitas vezes o resultado do orgulho ferido, como no caso do suicídio.

O poeta Álvares de Azevedo morreria em nome de um amor não correspondido por uma donzela inalcançável em sua mocidade sonhadora e tímida. Sêneca teve o suicídio imposto por Nero, que, aliás, também optou em por termo à existência quando se viu diante de seu fracasso. E ele não foi o único a fugir da dor da humilhação. O orgulho ferido de Marco Antônio e Cleópatra após a batalha de Ácio motivou-os ao abandono da vida. 

Alguns historiadores dizem que Pilatos após ter sido chamado de volta à Roma, sentindo-se diminuído perante às acusações de corrupção, de incitação à revoltas por ter ofendido a crença dos judeus e por atitudes cruéis através da prática de crucificação sem que antes o acusado recebesse um julgamento, pode ter tomado o caminho de por fim à própria existência (FILO, 1961; JOSEFO, 2008). Cometer suicídio seria pois um atestado de confissão de culpa e assim, a sua família não ficaria deserdada. Matar-se para tal cultura, seria uma boa solução para preservar não apenas os bens materiais em terras e riquezas, mas também a honra. “De acordo com a versão negativa ele foi executado por Tibério ou Nero, ou cometeu suicídio, e seu corpo, acompanhado de demônios, foi transportado para Viena, na Gália. Como o rio Ródano devolveu seu cadáver, ele finalmente foi transportado para a Suíça e enterrado num poço em uma montanha, junto ao lago Lucerna, conhecida como Monte Pilatos ou Pilatusberg” (VERMES, 2005).

Entretanto, para a grande maioria dos mortais, seja ela feita de poetas e iletrados, reis e plebeus, senhores e vassalos, a morte representa antes de qualquer coisa, a despedida do mundo material, visível e sensorial. Em substituição ao vazio deixado pelos que se foram e como consequência da necessidade de prepararem o adeus final, a morte dos afetos e desafetos ao mesmo tempo, passou a sinalizar em muitos grupos a preocupação com o porvir, e em decorrência disto surgiu a crença no cumprimento das promessas de recompensas e sofrimentos no além, ou simplesmente, a possibilidade de maiores cuidados com as honrarias e práticas funerárias prestadas entre vivos à personalidade social do falecido. Como assevera Kübler-Ross (1996) "o problema da morte é uma questão humana universal. Porém, a resposta a ele difere entre as culturas". 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga: estudos sobre o culto, o direito e as instituições da Grécia e da Roma. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
FILO, Alexandria de. Legatio ad Gaium. Tradução e Edição E. Smalwood. Leiden, 1961.
JOSEFO, Flávio. Antiguidade Judaica. In: História dos Hebreus. Tradução Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, 14 ed.
KUBLER-ROSS, Elisabeth. Morte: estágio final da evolução. Rio de Janeiro, Record,1996.
VERMES, Geza. Quem é Quem na Época de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2005.



domingo, 13 de julho de 2014

A Pirâmide de Maslow

por Liszt Rangel
Os que viveram a década de 80 devem lembrar, certamente, da famosa música dos Titãs, "Comida".
A letra diz assim: "Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que? A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte..."¹ Pois bem, o hit agitou a "galera", mas mandou um recado em forma de pergunta: de que realmente você tem necessidade?

Ano passado, uma instituição não-governamental nos Estados Unidos publicou uma pesquisa interessante, após entrevistar as pessoas em diferentes estados. Os dados revelaram que de cada dez coisas que os cidadãos possuem, na verdade só necessitam de quatro. 

Observando, por exemplo, o desenvolvimento da espécie humana desde o Homem de Neanderthal, vemos que a ingestão excessiva de gordura tinha uma finalidade, preservar a espécie, ajudar na sobrevivência durante os períodos de inverno, onde a caça ficava mais rara e de alguma forma os alimentos não eram produzidos pela natureza, e assim eles tinham que se preparar para a necessidade. E hoje, já temos necessidade de ingerirmos tanta comida assim, para nos mantermos vivos quando o inverno chegar? Pelo contrário, a comida em excesso, e levando em conta a sua qualidade, tornou-se um dos maiores ladrões da saúde.

Abraham Maslow observou os indivíduos e suas necessidades. Ele as chamou de Necessidades Básicas e as dividiu em grupos escalonados, em forma de pirâmide. A de comer, a de dormir, a de fazer sexo, a de beber água e outras, ele as denominou de necessidades Fisiológicas. "É inteiramente verdadeiro que o Homem vive apenas de pão-quando não há pão. Mas o que acontece com os desejos do Homem quando há muito pão e sua barriga está cronicamente cheia?"² (1970). Maslow percebeu que para se galgar outros níveis que ele chamou de necessidades "superiores", é preciso ter as primeiras satisfeitas.

Para Maslow, fica muito difícil falarmos em ética, honestidade e justiça para quem não tem suas necessidades fisiológicas satisfeitas e pedir a esta sociedade que não vá para as ruas reclamar, nem fazer protesto. Muito menos, esperar que tenhamos segurança social quando os próprios "bandidos" estão mais bem equipados e organizados do que aqueles que deveriam manter a segurança nas ruas. Ainda para o estudioso, o nível de reclamações e até a forma como uma civilização reivindica suas necessidades, reflete os valores da mesma.

Então, se no passado, tivemos as arenas, o circo e o pão, hoje temos as mesmas arenas que logo se tornarão "elefantes brancos"; temos os leões, porém agora patrocinados pela Nike e que choram diante do Hino Nacional, mas bem que poderiam chorar por terem tanto nos bolsos, enquanto a pátria de chuteiras chora em seus hospitais públicos; e o povo a se divertir... e a jovem jornalista a chorar... e haja ópio, já que não tem mais pão!    

Por outro lado, Maslow reflete acerca do momento em que a sociedade está demasiadamente, absurdamente farta, ou como ele chama "enfadonha", por ter vivido apenas da satisfação das necessidades tidas como "inferiores". Países como a Dinamarca, a Noruega, a Suíça e o Japão registram altos índices de suicídio. E isto refletiria a chegada ao topo da pirâmide? O lugar em que os indivíduos se encontram satisfeitos, seria motivador para alguém perder a vontade de viver? Não, não é isso!!! Para Maslow, a tendência é que o Homem vá crescendo em seus anseios, aprimorando suas necessidades, mudando essencialmente seus valores e assim, ele continua se satisfazendo, ou como diria Maslow, se auto-atualizando. 

Após as necessidades fisiológicas, o Homem busca a de Segurança que lhe trará a estabilidade. Os altos índices de depressão, estresse pós-traumático, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada têm também como causa a instabilidade social e as relações interpessoais, afinal de contas nos marcamos e na maioria das vezes estas marcas trazem traumas profundos, como se verifica no convívio em família. Para tanto, resolvemos trocar nossa liberdade pela segurança em automóveis blindados, com alarmes, vidros elétricos, travas automáticas, sem esquecer dos muros com cerca elétrica das residências e a vida isolada dos grandes condomínios. Já não se sai mais para ir às compras, as solicitamos em casa. O sociólogo, Zigmunt Bauman, em seus tratados esclarece que trocamos a liberdade pela segurança, mas agora sufocados por tanta segurança, ou seja, "enfadados", já não somos mais felizes, justamente por termos nos afastado de algo indissociável, a nossa natureza. 

Sobre a natureza humana, Alfred Adler, psicólogo, também se aprofundou nestes estudos, quando se referiu à perda de nossa liberdade ao nos afastarmos de nossa natureza. Em sua perspectiva, o mais curioso de tudo é que, quanto mais vivemos com o outro, mais somos independentes e livres. Todavia, frequentemente pensamos o contrário. E ainda há quem pense que há liberdade e felicidade apenas para si. Sobre isto, Cazuza, o grande poeta da música brasileira, escreveu que "As possibilidades de felicidade são egoístas meu amor!!! Viver a liberdade, amar de verdade, só se for a dois!"

Em seguida, Maslow observou que o Homem parte para satisfazer a necessidade do Amor, buscando família e amizade. Ele não se refere ao amor idealizado, pois este por ser inacessível, não satisfaz, frustra. O amor como algo que mobilize a saída de si em direção à alguém, e desdobrando-se até mesmo a uma causa. Neste sentido, Leonardo Da Vinci, Einstein, Jesus e Sócrates foram grandes amantes. Amantes da arte, da ciência, da filosofia, do Homem e da Humanidade...

Avançando em sua caminhada, a sociedade chegará a usufruir de necessidades que estão nos pontos mais altos da pirâmide, a da Auto-Estima e a da Auto-Atualização. Respeitando-se, já não se corrompe e a consciência acusa sua conduta através da aprovação. Compreende que o que faz ao outro, tem diretas consequências sobre seu bem ou mal estar. O respeito por si mesmo, eleva sua auto-estima, pois reflete a lucidez de suas escolhas. O poder agora está com ele (indivíduo) e não pelo que dizem sobre o que ou quem ele é.

No tocante à auto-atualização, o Homem examina sua capacidade e se realiza, ao invés de se colocar como um eterno pecador, como apregoa o Cristianismo. A sua inspiração não se encontra num mito de sofrimento a ser copiado, nem ele irá se realizar na postura de hipocondríaco, chamando atenção para sua dor, como se fosse um mártir da autoflagelação. Só a auto-realização, momento em que o indivíduo se conhece, pode oferecer-lhe a satisfação ainda que distante da tão sonhada e ilusória plenitude. Esta auto-realização muitas vezes custa-lhe o preço de uma viagem dolorosa inicialmente, mas realiza-o quando em contato com sua natureza profunda.   

O indivíduo auto-realizado é o oposto daquele que evoca e vive o complexo de Jonas. Jonas foi aquele da Bíblia, que preferiu fugir ao compromisso de ser um profeta com suas responsabilidades e capacidades. 

Quantos Jonas, portanto, existem que não desejam assumir seus compromissos perante si mesmos, para com o próximo nem com a sociedade? E assim, evitam o contato com seu potencial, com suas capacidades, sabotam a si mesmos e desta forma, fogem das responsabilidades de uma transformação não apenas interior, mas também não contribuem para uma renovação social.

BIBLIOGRAFIA

² Maslow, Abraham Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.

     

domingo, 29 de junho de 2014

Abraham Maslow e o Homem Imperfeito!

Abraham Maslow
por Liszt Rangel
Considerado o "Pai da Psicologia Humanista", Maslow (1908-1970), não aceitava este título, pois se autodenominava um homem antidoutrinário e reconhecia que seus estudos visavam sempre encontrar novas saídas para a saúde ou para a doença do Homem, e principalmente, procurava se afastar dos rótulos e do lado sempre "patológico" percebido pela Psicanálise.

Mesmo tendo sido influenciado pela Psicanálise em sua vida e em seu pensamento, Maslow foi mais além e chegou a ser um sério crítico das explicações psicanalíticas, "Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher agora a outra metade sadia¹" (1968).

Maslow ainda estudou com Alfred Adler, Erich Fromm e Karen Horney e se aprofundou no Behaviorismo e na Gestalt, porém foi com a Antropologia Social que ele mais se identificou. Ele estava mais interessado em demonstrar que era possível uma psicologia voltada para o SER, considerando especialmente sua potencialidade ao invés de seus fracassos, já que para ele até mesmo os ditos "Santos" tinham seus conflitos e imperfeições. "Não existem seres humanos perfeitos! Pode-se encontrar pessoas que são boas, realmente muito boas, na verdade excelentes. Existem, na realidade, criadores, videntes, sábios, santos, agitadores e instigadores. Este fato, com certeza, pode nos dar esperança em relação ao futuro da espécie, mesmo que considerando que pessoas deste tipo são raras e não aparecem às dúzias. E, ainda assim, estas mesmas pessoas às vezes podem ser aborrecidas, irritantes, petulantes, egoístas, bravas ou deprimidas. Para evitar a desilusão com a natureza humana, devemos antes de mais nada abandonar nossas ilusões a este respeito²" (1970).

No que tange as nossas idealizações em torno de figuras "exemplares", resulta nas reflexões de Maslow como uma necessidade de termos nossos ícones, quando especialmente nos negamos a amadurecer e a vermos o outro como uma extensão de nossa própria espécie, ou seja, falível tanto quanto qualquer outra pessoa. Por outro lado, há os indivíduos que gostam de manter e alimentar esta ilusão acerca de sua imagem, colocando-se como missionários, enviados, tomando posturas místicas e românticas, embalando o discurso em voz melodiosa, enquanto criam um secto de discípulos fascinados pelo que aparentam, e profundamente ignorantes quanto ao que realmente são.

A congruência entre o que se fala e o que se faz não é para qualquer um. Como bem escreveu Maslow, são pessoas raras, mas mesmo assim ainda encontraremos nestes, condutas, traços e perfis de imperfeição, o que demonstra que se de nossa parte nos envolvemos com alguma ilusão, esta foi criada na maioria das vezes pela nossa infantilidade psicológica. Como exemplo maior disso, vemos a figura de Jesus de Nazaré ainda tão romantizada pelos cristãos. Quem admite que Jesus revolucionou o Templo de Jerusalém expulsando os vendilhões? Quem é capaz de ler e entender que ele mostra indignação e irritação com os corruptos de seu tempo, chamando-os de hipócritas e cegos? Ou que ele teria se negado a morrer? Quem aceita como normal que ele teria se casado com Maria Madalena ou com outra mulher e mais, que a teria beijado na boca ou tido filhos com ela?

Quem acreditaria que Madre Teresa de Calcutá sofria de depressão e que pensou por várias vezes em abandonar o ministério e só não fez por causa de suas irmãs de fé e dos doentes? Quem creria que ela disse: "Se eu alguma vez vier a ser Santa - serei certamente uma Santa da "escuridão", estarei continuamente ausente do Céu - para acender a luz daqueles que se encontram na escuridão da Terra".

E aqui, no Brasil, quem vê o Chico Xavier como um homem comum, que também teve seus anseios frustrados por não ter tido privacidade, ou por não ter podido ter uma família ou por não ter concluído os estudos? Não, não! É melhor chamá-lo de "O SANTO DOS NOSSOS DIAS". E quando ele afirmava que, quando um de seus gatos morria, ele se sentia tão desolado do mundo, uma melancolia o tomava ao ponto dele se entregar ao desânimo. Se isto é verdade, o que o torna uma ilusão? Quem aceita isto como normal, vindo de um homem tão bom? Quem aceita que ele também se irritava, que perdia a paciência e que alguma vez sentiu mágoa de certos companheiros de jornada?

Quem aceita como verdade, quando as provas e evidências históricas demonstram que certos espíritos vistos como famosos com seus livros que viraram dogmas, se equivocaram em suas narrativas históricas? Quem aceita passar por esta desilusão? E quem tem maturidade para viver com o que é diferente, ou passar a aceitar o que outrora era verdade, mas agora ter que se deparar que não é nossa verdade que prevalece? Quem consegue dormir, sabendo que a verdade foge à nossa compreensão limitada por nossos preconceitos e pela nossa própria ignorância perfeita em nossa imperfeição?

Maslow ainda deu maior contribuição quando nos ofereceu esclarecimentos acerca de nosso comportamento e de nossas necessidades como indivíduos e como sociedade, porém este assunto ficará para o próximo artigo, afinal já temos muito o que refletir sobre nossa admirável e feliz imperfeição. E seja bem vindo ao clube do Homem Imperfeito!

Mas, o que é mesmo ser imperfeito? Bem, acho que só sabe quem se vê como tal...

BIBLIOGRAFIA

¹ MASLOW, Abraham. Introdução à Psicologia do Ser. Eldorado: Rio de Janeiro, 1968.
² _________. Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.                             
   






quinta-feira, 29 de maio de 2014

Complexo de Inferioridade: motivando ou destruindo vidas!

por Liszt Rangel
Alfred Adler foi discípulo de Freud e um dos membros fundadores da Sociedade Psicanalítica de Viena. Fazia parte daquele seleto grupo que se reunia com Freud para estudar a psiquè e o comportamento humano. Apesar de não existir uma psicoterapia fundamentada em Adler, muitos são os seus leitores. Foi ele quem deu uma vertente bem interesse ao conceito de Complexo de Inferioridade.

Se para Freud, o complexo nasce da relação edípica, da falta de investimento narcísico e outras intricadas relações entre irmãos e pai e mãe, para Adler o Complexo de Inferioridade surge diante da infância, quando a criança sente-se pequena em relação ao mundo "gigantesco" que a cerca. Neste momento, ela percebe suas limitações, enquanto toma conhecimento de si, vê-se muitas vezes dependente e incapaz de suas realizações. Para o estudioso será através da relação de interesse social que o individuo se revela, "o interesse social é a verdadeira e inevitável compensação de todas as fraquezas naturais dos seres humanos."

Freud não aceitou as explicações que Adler deu ao Complexo de Inferioridade, no que diz respeito a sua influência cultural. Adler, por sua vez é reconhecido como um culturalista. Também Adler não deu um olhar totalmente pejorativo ao sentimento de inferioridade, colocando-o muitas vezes como motivador para a superação. Mediante a cultura, tudo o que a permeia como, valores, crenças, conceitos, significados, enfim, tudo o que nela se localiza, esta pode fomentar o Complexo de Inferioridade no indivíduo. Por exemplo, uma criança nasce com alguma deficiência física e se na escola em que ela for incluída, caso o ambiente não a acolha saudavelmente, ela poderá, então, passar a desenvolver o sentimento de inferioridade. Por outro lado, se a criança for estimulada, respeitada e reconhecida, ajudada em suas limitações, teremos grandes possibilidades dela atingir em primeira instância, o que Adler chamou de Compensação para depois conseguir a Superação.

O nosso próprio corpo que faz parte da natureza deste planeta obedece a esta lei de reprogramação, de compensação. A Neuropsiquiatria reconhece que pacientes que sofreram traumas e tiveram perda do material cerebral, onde algumas áreas foram afetadas, o próprio cérebro se encarrega de compensar aquela perda ativando outra área para justamente compensar e ajudar a pessoa a superar o problema. Assim funciona com os neurônios, células nervosas que não se renovam, mas que pela sua plasticidade podem ocupar o lugar de outros que já não mais existem.

Se com o corpo é assim, por que não será também com o psiquismo? Adler propõe uma compensação na superação do Complexo de Inferioridade, e é nesta hora que o complexo já não mais adoece o indivíduo. Ele ainda chama atenção para a sociedade onde estamos vinculados e trazendo para nossa realidade, a competição capitalista, o estímulo ao ter, à posse, à busca pelo domínio e a demarcação de território, à semelhança dos animais, geram ainda mais o adoecimento do Homem. Sem deixar de falar, é claro, pela busca de um "lugar ao sol" que nos leva muitas vezes a agir como animais, derrubando o outro. Como exemplo disso, o Brasil assistiu recentemente a paralisação da polícia em Pernambuco, e a barbárie revelou sua faceta oculta sob o véu do que chamamos de civilização.

É muito comum, vermos alguém dito civilizado, uma pessoa instruída, que se sente inferior e na hora em que se acha ameaçado, age na surdina, sem qualquer ética nem escrúpulos a fim de destruir aquilo que ele não pode mais ter. O Complexo de Inferioridade estimula a inveja também. Já afirmou o jornalista Zuenir Ventura, que "A inveja não é querer o que o outro tem, isto é cobiça! Inveja é não querer que o outro tenha!" Ou seja, o outro não tem direito a ter o que eu não tenho ou não posso mais ter. A psicóloga Melaine Klein, usa o termo "espoliar". O invejoso, para ela, deseja espoliar o prazer do outro. 

O invejoso é um doente! Ele sofre porque o outro está feliz. É assim, então, que também agem os perversos que são classificados como psicopatas. Dissimular, se aproveitar das fraquezas do outro, inventar falsas provas para por o outro em situação inferior revelam um comportamento sórdido, tipicamente pervertido que tem como base um sentimento de inferioridade. Já disse um filósofo que "quando não se consegue derrubar alguém com ideias, investe-se em sua moral!" Quando os ratos não conseguem atingir a superioridade dos grandes homens, eles apenas roem-lhes os calcanhares.

Quantos ex maridos existem que para não perderem o objeto de seu desejo para outro da mesma espécie, atuam de forma vil, dominado pelo sentimento da inferioridade? Ou seja, eles pensam, "já que ele (o outro) é melhor do que eu, irei destruir a sua imagem, mesmo que minha ex esposa não fique comigo, mas nem ela nem ele serão felizes juntos."

São muitos os ex maridos e ex esposas que ao se sentirem perdendo a zona de conforto e a região do falso domínio em que se encontravam, passam a praticar um dos crimes mais graves contra os próprios filhos. O crime da Alienação Parental. Este tem como objetivo destruir a imagem do outro, mãe ou pai, com apontamentos na maioria das vezes disfarçados de preocupação, mas que escondem a manipulação sobre os sentimentos e pensamentos infantis. 

O Complexo de inferioridade necessariamente não está relacionado às condições de pobreza. Há pessoas simples, que trabalham e moram em locais da periferia de nosso país, mas que se sentem reconhecidas e respeitas em sua comunidade. Aos sábados lavam a roupa que usarão durante a semana e aos domingos vão ao pagode, e ainda arranjam tempo para auto-realização e auto-atualização ajudando o próximo. Do outro lado da cidade, muitas vezes, vemos uma família de médicos, onde já existe uma pressão para que os filhos, sobrinhos, netos sigam a caminhada neurótica da família tradicional, e ali se destaca alguém que mesmo que ocupe esta função de médico, na intimidade sente-se um fraco, não tem atitude na vida, cria vínculos de pendência com o outro, é dominado pela presença da covardia e é vítima fatal do Complexo de Inferioridade. Então, sentimento de inferioridade não tem relação com status, nem com poder, muito menos com dinheiro. É uma doença da alma! 

Quantas pessoas existem que têm de tudo, mas que ainda assim não dormem arquitetando o mal do outro? E a não aceitação deste sentimento trará ainda maiores distúrbios ao psiquismo de seu portador, como uma baixa na autoestima, falta de autoconfiança, tendência a intimidar e a chantagear aqueles que não lhe obedecem a vontade, enfim, trata-se de comportamentos doentios que aproximam o indivíduo da psicopatia.   

Um outro fator interessante analisado por Adler, é que este lugar de adoecimento no Complexo de Inferioridade irá manter-se desta forma enquanto o indivíduo não buscar a compensação para as suas perdas. Pois sem compensação, não há superação. Entretanto, há que se observar que existem pessoas que conseguiram compensar a falta, superaram e ao invés de compartilharem sua experiência na transcendência com o outro, elas são dominadas pela arrogância, pela ambição e até por comportamentos perversos, trazendo sofrimento a quem elas acham ser inferior.

Então, para Adler, há saída para o Complexo de Inferioridade? Sim, apenas uma, a Cooperação! Quando pacientes que sofreram de alguma doença grave, compensaram o momento da dor através de uma linda e verdadeira história de amor, eles tendem com a superação ajudar aqueles que atravessam também suas dores, e assim, aquele sentimento de inferioridade e de perda é substituído, segundo Adler, até por um filho, pois para ele a união dos amantes é naturalmente agraciada com o prêmio da maternidade e da paternidade. Adler, também, focou ao lado do amor, mais duas fortes atividades humanas: o trabalho e a amizade. Nestas circunstâncias, onde existia inferioridade, agora há uma autoestima elevada. Até mesmo os neurônios cooperam na liberação de endorfinas, dopaminas, adrenalinas, noradrenalinas e o psiquismo vai se harmonizando. 

A solução proposta por Adler para o Complexo de Inferioridade, é a cooperação. E cooperação, principalmente em culturas tão apegadas aos bens materiais como a nossa, onde se mata por um relógio, ou tira-se a vida de uma mulher porque não sabe perdê-la para outro homem. Enquanto esta superação não ocorrer, haja vítimas deste Complexo, pois por onde ele passa deixa um rastro de dor, amargura e decepção!  

BIBLIOGRAFIA:
KLEIN, Melaine. Inveja e Gratidão. Imago: Rio de Janeiro, 1957.
HALL, Calvin., LINDZEY, Gardner., CAMPBELL, John. Teorias da Personalidade. Artmed: São Paulo, 1998 

domingo, 4 de maio de 2014

Por dentro do Cristianismo - O problema dos evangelhos!

por Liszt Rangel
O problema do Novo Testamento é o mesmo que se encontra no Antigo Testamento: a originalidade destes documentos está perdida. Se os primeiros livros do Antigo Testamento foram escritos em média 700 anos após o ocorrido daqueles fatos, isto já nos leva a questionar a credibilidade de tais narrativas, e em especial quem foram seus autores, mas também a quem desejavam atingir. O maior erro do Cristianismo foi ter tornado a Bíblia um livro histórico e ao mesmo tempo um artigo de fé inquestionável, um livro sagrado.

Não há registros seguros na Bíblia, e isto inclui também os evangelhos. Os evangelhos que hoje dispomos são cópias de cópias que se multiplicaram ao longo dos séculos. Eles carregam a marca de escribas gregos intelectuais que pouco conheciam os costumes judaicos. Raros são os momentos em que aparecem citações em aramaico nos textos gregos, como é o caso de "Abba" que deve ser entendido como "Papaizinho" (Mc 14,36) e "Talitha cum", que significa "Menina, levanta-te" (Mc 5,41). "Isto quer dizer que nenhum dos evangelhos canônicos pode remontar a Jesus. Como a maioria dos membros da Igreja era falante de grego, habitantes não-judeus do Império Romano, era necessário que os ensinamentos de Jesus fossem feitos em grego."¹

Ao que se sabe até o momento, em crítica textual e exegese, é que as cartas de Paulo devem ter sido os primeiros textos usados pelas comunidades cristãs não-judaicas. Isto também não implica dizer que as cartas são originais e confiáveis. *

Aliás, não se pode levar a sério quem disser, atualmente, que possui alguma tradução original dos evangelhos. Não há nenhuma possibilidade de termos acesso às fontes originais quer em aramaico, hebraico muito menos em grego antigo. E esta é a opinião dos maiores especialistas no assunto. Ao menos em alguns pontos eles concordam. "Entretanto, os nossos quatro evangelhos sobreviveram em grego; eles não são traduções de um original semítico." ¹

Os evangelhos não foram escritos por quem os assinou, aliás nenhum daqueles que escreveu o evangelho conheceu de fato Jesus. É bom frisar que os evangelhos não foram escritos por uma pessoa apenas, mas por 4, 6, 8, 12 e até por 20 mãos para chegar a formatação que hoje conhecemos. Sendo assim, Marcos não foi escrito totalmente por Marcos; nem tampouco Mateus escreveu Mateus. Este que assina Mateus não é aquele Levi, coletor de impostos, que por sinal não há explicações racionais para Jesus ter mudado o nome dele para Mateus. E o evangelho atribuído a Lucas, então, nem se fala, pois o que mais tem neste texto são arrumações posteriores para que tudo fique bem organizado e à disposição de uma religião nascente. Já o de João, como se afirma nos próprios Atos que ele e Pedro eram analfabetos, não foi escrito por ele. Além do mais, a escrita e o pensamento ali predominante pertencem a um estilo grego e não a um homem nascido na Judeia.  

Os primeiros escritos são chamados pelos pesquisadores de Q, ou ainda de os Ditos do Senhor. A letra Q vem da palavra alemã "Quelle", que significa "fonte". Já tive a oportunidade de escrever sobre este material em outra oportunidade nos meus livros. A fonte Q seria um documento que possuía as palavras e fatos mais originais de Jesus. Nela encontraríamos a sabedoria e a regra de conduta que norteou os passos daqueles que o ouviram. Este grupo que conheceu Jesus e seus ensinos são conhecidos pelos especialistas como o Povo de Q. 

Este grupo de galileus analfabetos e pescadores se associou a pessoas nas cidades de Corazim, Betsaida, Migdal, Cafarnaum e assim dividiam-se entre os que seguiam Jesus, os que patrocinavam suas andanças e os que apenas o acolhiam em seus lares. Nem todos, ou melhor, a maioria não estava disposta a sair pelo mundo para falar de amor ao próximo. Na verdade, eles eram judeus e praticantes do Judaísmo. Não queriam uma nova religião. O Nazareno, para eles, era apenas um mestre de profunda sabedoria, e eles deveriam admirá-lo, especialmente pela coragem de tentar ajudar os mais fracos enquanto o mundo era dominado pela violência dos mais fortes, os romanos.

Muitos estudiosos acreditam que a fonte Q perdeu-se no tempo. Já uma minoria ainda tem a esperança de achar tal documento e quem sabe resgatar a essência de sua mensagem. Há ainda um grupo de pesquisadores que aceitam que tal fonte encontra-se espalhada nos próprios evangelhos e identificá-la seria um trabalho árduo, mas alguns acreditam ser possível.

Os que acreditam na tese da fonte Q, defendem que ela foi usada pelos amigos de Jesus por volta dos anos 30 e 40 d.C. e deve ter sido escrita por uma pessoa instruída, talvez o Levi ou outro coletor de impostos, já que Jesus adorava viver na companhia deles e também retirava-os do trabalho que explorava os mais pobres. É possível que Marcos tenha lido alguma coisa nela, quando começou a escrever suas primeiras anotações por volta de 65 e 70 d.C. Porém, escrever algo sobre o que alguém fez e falou depois de quase 40 anos após a sua morte, é muito difícil, ainda mais quando se está ouvindo o que sai da memória do povo. Entre os anos 85 e 90 d.C. apareceram os evangelhos atribuídos a Mateus e a Lucas e pelos fins de 90 d.C., surge o evangelho atribuído a João. Tanto este evangelho quanto as cartas do senhor Paulo de Tarso serão muito usadas na formação da Igreja, e até hoje constituem seu maior pilar.

O evangelho de Marcos, portanto, foi o primeiro a surgir. Quando se pensa em evangelho sendo escrito no primeiro século, é bom imaginar um papiro, sem títulos, sem capítulos, muito menos versículos, um texto corrido. Trata-se apenas de anotações soltas colhidas nas ruas, nas aldeias, conversando com transeuntes que diziam assim: "eu ouvi dizer que Jesus curou um homem cego lá para as bandas de Jericó!". E um outro ao lado, vai completar, "sim, eu conheço uma mulher que a mãe dela conheceu um nazareno que era do mesmo lugar desse tal Jesus".

Além do mais, há uma outra dificuldade, é encontrar testemunhas de tal mensagem, principalmente depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C. feita pelas forças do general Tito. Um outro ponto importante na busca pelas testemunhas oculares, é que na época de Jesus as pessoas tinham suas preocupações diárias, e nem todas ouviram falar dele. Ele não teve a fama que os próprios evangelhos tanto carregam quando se referem a uma multidão que o seguia. Jesus não teve tantos adeptos de sua mensagem como muitos pensam. É claro que suas pregações e feitos devem ter atraído a muitos, entretanto a maioria não estava preocupada com questões espirituais, mas interessada em uma vida sem problemas, pacífica e andar com Jesus era atrair os olhares do sacerdócio corrupto e do representante de Roma. Assim como ele, multiplicavam-se outros curandeiros e profetas naquele tempo. E muitos morreram por incitarem as massas contra Roma. 

O que se percebe, portanto, é que os evangelhos nasceram para um objetivo, a Cristianização do Mundo. Jesus é o Salvador! E nele devemos ter a promessa de um retorno para que apenas os justos, os escolhidos tenham a vida eterna! O resto? Ah... o resto vai é para o Inferno mesmo!!! Esta é a filosofia do Cristianismo, salvar o mundo do mal e ter "Nosso Senhor Jesus Cristo" à frente como a encarnação do próprio Deus, ou seja, Deus também é cristão!

E quem não for cristão, não pode ser filho de Deus. Então, é filho de quem? Só pode ser do diabo!

Quando se fala, portanto, em ideologia cristã e releitura da mensagem de Jesus, seja esta psicológica ou moral, deve-se ter muito cuidado, sinal de alerta está aceso, principalmente para que não se cometa o mesmo erro dos cristãos copistas, o de manipular para encaixar nesta ou naquela doutrina ou religião. É muito perigoso dizer que Jesus disse isso ou aquilo, ou que este pensamento é verdadeiramente de Jesus. Os cristãos normalmente, não possuem esta prudência, até porque não se exige ter uma fé aliada ao conhecimento. Ainda há os que conhecem as adulterações, mas que optam por uma fé cega. E assim, multiplicam o rebanho em torno de interpretações desta ou daquela escola religiosa.

O problema dos evangelhos então, é de todo um problema? Em absoluto! De forma alguma, pois ali estão belas máximas morais, verdadeiras pérolas; algumas delas, provavelmente, saídas dos lábios do Homem de Nazaré. O problema, portanto, constitui em tornar os evangelhos um documento inquestionável e seguro. Agindo assim, quem sabe não seremos "cegos que guiam cegos"? E ainda hoje talvez ele pegunte: "o que acontece quando um cego guia outro?"

"Ambos caem no abismo", eis a resposta. 

Mas nós já caímos. Estamos apenas tentando nos salvar, subindo uns sobre os outros, os mais fortes sobre os mais fracos... Eis um outro problema dos evangelhos - a Salvação!

* Consultar artigo anterior, "Por dentro do Cristianismo - Quem fundou?"

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
¹ VERMES, Geza. O Autêntico Evangelho de Jesus. Record: Rio de Janeiro, 2006. 

domingo, 13 de abril de 2014

Por dentro do Cristianismo - Quem fundou?

por Liszt Rangel
Logo de início, quando se ouve as palavras Cristão e Cristianismo, deduz-se que elas possuem origem na palavra Cristo. A expressão é de origem grega, CHRISTUS e quer dizer, "o Ungido".

Até hoje os cristãos creem que foi Jesus quem fundou o Cristianismo, entretanto não há qualquer fundamentação histórica, muito menos evidências para esta crença ser aceita como um fato. Ela nasce do pressuposto que Jesus seria o Messias, mas não foram poucas as vezes que, segundo as narrativas, ele mesmo não expressava interesse pelo título messiânico, ou quando fugiu das cidades (Marcos, 1:45) ou quando repreendeu as pessoas para que não falassem sobre isto (Marcos, 3:12).  

O problema de Jesus ser visto como o fundador de uma nova religião, não foi culpa dos cristãos. Alguns de seus amigos o viram como um homem sábio, mas a maioria estava à procura do Messias esperado. Entre estes, contam-se também os cristãos da segunda e da terceira geração em diante, responsáveis por projetarem no Nazareno, a carência social e moral de um libertador na Palestina do século I d.C. "A expectativa de muitos judeus na época de Jesus era a de que o Messias seria um poderoso rei-guerreiro".¹ Entretanto, há uma larga distância entre Jesus e o suposto Messias, ou melhor, entre Jesus e o Cristo, personagem criado pelos líderes cristãos, ao longo da edificação da nova religião.

As adequações feitas em Jesus para que este fosse visto como o Cristo também foi fator determinante no rompimento com o Judaísmo e com a consequente perseguição que os Filhos de Abraão - os judeus - sofreram por parte dos cristãos, os "únicos" Filhos de Deus". E um desses responsáveis pela adulteração tanto na mensagem de Jesus, quanto na compreensão da finalidade de sua presença entre os homens, foi um doutor da Lei, fariseu, perseguidor e assassino de cristãos, chamado Paulo de Tarso. "Paulo não estava preocupado com a atuação e os ensinos do Jesus vivo, mas com o feito do Cristo morto e ressuscitado para os crentes".²  

Paulo de Tarso, batizado como Saul, era da cidade de Tarso, na Cilícia, situada ao sul da atual Turquia. Já nasceu cidadão romano e participou por volta do ano 30 d.C do assassinato do primeiro mártir do Cristianismo, Estêvão. Tanto os exegetas quanto os críticos textuais e historiadores sabem que Paulo não escreveu todas as cartas que levam seu nome. Alguns pesquisadores as resumem em um total de sete, outros ainda aceitam oito cartas como sendo de sua autoria. Até agora, então, temos: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, Fênelon, 1 e a 2 Tessalonicenses, sendo que esta última é questionável. Já 1 e 2 Timóteo, Tito, Efésios, Colossenses e a mais dissidente de todas, a carta aos Hebreus, foram produzidas possivelmente por seus discípulos ou por cristãos que tentaram pegar a fama e a aceitação de suas cartas que já eram consideradas Escrituras. O plágio já existia desde o século I.

Foi Paulo quem deu o passo de rompimento com o Judaísmo ao defender a separação entre a aceitação da Lei judaica e a fé em Cristo. Para ele, ter fé em Cristo independia se o indivíduo era judeu ou pagão. "Em algumas de suas cartas, Paulo distingue a lei e o evangelho, insistindo que uma pessoa é justificada pela fé em Cristo (o evangelho), não pelo cumprimento das obras prescritas pela lei judaica".³

Na opinião do escritor Hermínio de Miranda, Paulo sacrificou muito Jesus ao Cristo. Ou seja, em seus escritos não há qualquer referência ao Jesus-Homem, muito menos uma aproximação com a essência de sua mensagem.

Simplesmente, o que Paulo fez, foi trocar Moisés por Cristo e esta substituição ocorreu em nome de toda estrutura farisaica que o acompanhava, incluindo as ideias da ressurreição e da volta de Cristo - a Parusia. Também é presente em seu discurso a importância do sofrimento. Estas concepções não são de todo, de origem judaica, mas se tornaram a base do Cristianismo. Ainda para Paulo, Adão foi o homem que introduziu o pecado no mundo e Jesus Cristo é o segundo Adão que teve como objetivo levar os pecados do mundo. Os judeus não acreditavam que a missão do Messias era  a de sofrer pelo povo.

Existem vários fatos controversos e questionáveis na vida de Paulo. O principal deles é o episódio da voz que ele escuta e da luz que o cega. O outro fato é o do apedrejamento que ele diz ter sofrido em Listra, na atual Turquia. Após ser expulso da cidade, ele se levanta como se nada tivesse lhe ocorrido e vai pregar em outro lugar e ainda conta o feito como se nenhuma pedra tivesse lhe aberto feridas ou quebrado os ossos. Vale lembrar que apedrejamento na tradição judaica é para matar! Não há seriedade nestes relatos em Atos. Se eles existiram, não foi da forma como estão narrados, até porque foram colhidos mais de trinta anos depois de supostamente terem ocorrido.

Em ambos, o que se percebe é a deflagrada campanha auto-promocional em torno de sua "missão" e a necessidade de ser aceito no grupo liderado por Pedro e Tiago, irmão de Jesus. No episódio de Damasco, ninguém com exceção de seus servos presenciou o fenômeno da voz. Já o caso do apedrejamento, ele ainda se coloca na condição de que o verdadeiro apóstolo de Cristo tem que sofrer. Ele fez muito bem o trabalho de marketing em torno de sua imagem.

Eis aqui um trecho de sua exaltação ao sofrimento por amor a Cristo:

São (seus adversários cristãos, os contra-apóstolos) ministros de Cristo?
Como insensato, digo: muito mais eu. Muito mais, pelas fadigas;
muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. 
Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes 
os cinquenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado.
Três vezes naufraguei. Passei um dia em uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. 
Sofri perigos nos rios, perigos de ladrões, perigos por parte de meus irmãos de estirpe,
perigos dos gentios... perigos dos falsos irmãos!   (2 Cor 11:23-26) 

O que é melhor, então? Você ter vivido ao lado de Jesus, ou Jesus após a morte ir lhe chamar para ser seu apóstolo? Não foi assim que ocorreu com Paulo?
O que dá mais importância e eleva o Ego?
E o prêmio após o sofrimento é a vida eterna...

Mesmo com tamanho marketing pessoal, os adeptos de Jesus não o aceitaram e o desacreditaram. Paulo, então, tornou-se ainda mais polêmico, discutindo e se afastando não apenas dos cabeças do grupo do Nazareno, mas também arranjou problemas com judeus nas Sinagogas, com os gregos e com os romanos. Nem mesmo Barnabé, fiel amigo, aguentou sua companhia por muito tempo.

E até hoje Paulo tem seus seguidores. Eles são chamados de cristãos e são bem ortodoxos. Estão no Catolicismo, defendendo a ressurreição de Cristo e a conversão através do corpo de Cristo que segundo Paulo é a Igreja. Ou seja, fora da Igreja não há salvação! Ela deverá guiar os passos da Humanidade ao Paraíso e condenar os não convertidos ao Inferno. Como já andou fazendo ao longo da História...

Os protestantes também são profundos admiradores de Paulo, e consequentemente não são menos radicais, principalmente os neopentecostais. O conceito de salvação proposto por Lutero, já não tem mais a marca exclusivista da Igreja, na visão dos reformistas. A condição salvífica agora ocorre pela "graça" que o pecador recebe. Mudou de lugar, mas a exclusividade continuou. Antes era na Igreja, mas após a Reforma é através da fé em Cristo. Ou seja, assim como Paulo foi escolhido por Cristo, os reformistas também se acham escolhidos para a salvação da Humanidade. Para eles, só há uma salvação, e está em Cristo. Não adianta bater nas portas de outra religião, pois é Jesus quem o elege, tal qual na estrada de Damasco.

Sem uma análise desapaixonada acerca do Cristianismo nascente, não se conseguirá a compreensão de um passado que ainda interfere em nosso presente, muito menos chegar-se-á ao entendimento de como os cristãos se afastaram do Nazareno e passaram a seguir um Cristo místico paulino.

Eis o homem - Paulo de Tarso - o verdadeiro fundador do Cristianismo. Apesar de ter uma péssima oratória, conseguiu se fazer ouvir pelas massas pagãs porque era culto; apesar de fariseu, rompeu com o Judaísmo, fundou uma nova religião e ainda tocou fogo nas relações entre judeus e cristãos; apesar de se arvorar como fiel defensor de um Cristo que só ele entendia, foi o maior responsável pelo desaparecimento da mensagem de Jesus. Ele fundou inúmeras Igrejas pelo Mediterrâneo, as organizou internamente, impôs o véu sobre as mulheres, quis ganhar dinheiro com a religião e ordenou que suas cartas fossem lidas para todos, sem exceção, pois o seu objetivo era multiplicar prosélitos.

E foi assim que o mundo Ocidental conheceu o Cristo de Paulo, mas ainda ignora o Jesus de Nazaré.

BIBLIOGRAFIA
¹ - EHRMAN, Bart. Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi? Rio de Janeiro: Ediouro, 2010.
² - VERMES, Geza. Quem é quem na época de Jesus. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.
³ - EHRMAN, Bart. O que Jesus disse? o que Jesus não disse? Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 

domingo, 30 de março de 2014

Por dentro do Cristianismo - O Cristo dos cristãos!

por Liszt Rangel
A necessidade de se ter sempre um guia, um líder para seguir, é facilmente encontrada em todas as épocas da Humanidade. Com os judeus isto foi ainda mais forte, considerando o caos social que Roma levara àquele povo. Entretanto, é bom lembrar que os judeus no século I a.C., quando da chegada do general Pompeu em 64, já viviam em tamanha divisão, corrupção e alienação das massas através do sacerdócio que impunha práticas exteriores e dificultavam o acesso ao esclarecimento da Filosofia da Torá.

Assim, levando-se em conta o contexto histórico, em algumas ocasiões fabrica-se o líder, mas em outras ele é aclamado e com grandes possibilidades de ser transformado em mito. Ele nasce! E o mito pode ser o que o Homem precisar e necessitar fazer dele. Assim, ele é segundo o entendimento do seu criador e assim ele foi transmitido de geração em geração. “O mito é o que nunca foi, ainda que seja sempre.”(CAMPBELL, 1991 apud HARPUR, 2004, p.31).

Jesus Cristo é um exemplo disso.

Interessante observar que o Homem prefere o mito ao seu semelhante. Não há como descartar em tal escolha o processo de evitação a fim de que se adie o quanto puder o amadurecimento de suas reflexões, perspectivas e percepções de si e de tudo o que o cerca ou do que lhe escapa a razão ainda primeva. Não se pode negar, é óbvio, que a criação e aceitação do próprio mito já se trata de uma etapa para tal amadurecimento, pois o mito encerra verdades que a própria história ignora.

A problematização que leva a uma compreensão mais exata do papel do mito, passa também pela incapacidade de igualar-se, ou de no mínimo tê-lo bem perto, e assim indispensável é para tal, diminuir o confronto do que é real, trazendo à tona a força do imaginário. Desta forma, o mito torna-se inacessível, distante, frio e até gélido, enquanto forte, porém próximo quebra-se, esvai-se em seu conteúdo. E não se pode deixar de dizer que enquanto forte é imparcial a todo tipo de acontecimento e ao mesmo tempo, dele devemos esperar a intervenção a nosso favor, bem como suas gratificações e perdões. Foi assim com Zeus e os deuses do Olimpo, com os judeus mediante o domínio de povos estrangeiros, com o homem medievo diante da peste negra e no mundo pós-contemporâneo com a venda da fé e os benefícios de um paraíso que se compra.

O mito Cristo é o reflexo desta busca pelo próprio imaginário, pelo ideal de um libertador não só dos judeus, mas de todo o mundo ocidental. Ele deve levar consigo os pecados inventados e reinventados pelo cristão e que por sinal neles ainda se compraz à medida que sabe não poder fugir ao seu aprendizado determinista, o de errar enquanto aprende e o das escolhas infelizes enquanto muitas vezes apenas sabe destas, mas delas não tem consciência.

Porém, como necessita repetir a experiência e sabe que terá outras oportunidades, não se torna exigente para consigo, enquanto faz-se assim, rígido e intolerante para com o próximo. Enquanto isso, como é bom ter alguém que morra por ele, cristão... Alguém que sofra por todos e ainda os ame, não os julgue, os perdoe e os espere no céu com uma cadeira confortável onde também poderá desfrutar de um escalda pés.

Enquanto isso não ocorre, o cristão na relação com o mito, mantem-se à retaguarda. Pô-lo bem distante, se possível, e preso a uma cruz é sinal de segurança que ele não tentará apressar-lhe os passos, muito menos incitá-lo a pensar coisas do tipo, "E se ele não nasceu em Belém? E se ele casou? E se ele não ressuscitou? E se ele não foi o Messias? E por que o sigo e não o compreendo? E por que falo em amor e fraternidade e desrespeito os que não pensam como eu?".

Manter o mito longe e crucificado também ajuda a subtrair-lhe ainda mais as forças a fim de que ele não resista ao já programado fim trágico, o de morrer pela Humanidade. Porém, a imagem que seria de transição foi eternizada, ou seja, o Cristo mítico ainda sangra na cruz e nem tão cedo haverá um cristão disposto a retirá-lo dali, porque aquele é o seu lugar, é aquilo que ele merece e os cristãos precisam dele ali para se sentirem seguros, ao tempo que que se sentem presos à culpa.

É assim que o imaginário mítico permite não admitir sua morte, pois ele continua preso à madeira da infâmia e da própria pusilanimidade cristã. Ou melhor, da insanidade cristã.

A catacumba está vazia não porque ele ressuscitou, mas porque seu corpo, passados dois mil anos, ainda não desceu ao jardim para ser velado por Maria Madalena e outras mulheres. Ele é olhado, fitado num misto de misericórdia e culpa, pois eis que ele não merecia esta morte, porém ela é necessária para que o cristão continue em gozo no mundo. E depois do gozo, vem a culpa, vem a dor, a morte... E depois disso vem o consolo, Ele ressuscitou!!!

O mito do Cristo venceu a morte na ressurreição, todavia ele faliu na missão de levar consigo os pecados do mundo. Sua saída da Terra foi mais triunfante do que sua chegada ao nascer de uma virgem e entre animais em uma manjedoura. Ele se superou! E os filhos órfãos de um Pai vivo, os cristãos, ao se sentirem abandonados e inseguros, celebram sua paixão, choram por seu triste fim, repetem seu abandono mas não são capazes de retirarem seus pregos nem de reavivarem a sua mensagem esquecida. Ao contrário, aguardam com exclusividade salvífica o seu retorno sobre as nuvens, e enquanto isso não ocorre, o alívio para a culpa é dar algumas esmolas aos pobres. Até porque enquanto estes existirem, haverá os ricos para pagarem ao Cristianismo pela salvação. "Aos filhos de Gandhi, morrendo de fome; aos filhos de Cristo, cada vez mais ricos." (Cazuza)

E foi assim que ele foi tornado Deus, e não apenas um Filho de Deus. E ele continua mito, posto que o Homem já não mais existe. E eis que não pode existir, caso contrário, o que será feito com o mito? E mais, o que fará o cristão sem Cristo?


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HARPUR, Tom. O Cristo dos Pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da Bíblia e da história de Jesus. São Paulo: Pensamento, 2008.

domingo, 9 de março de 2014

Por dentro do Espiritismo - Por que temer a Ciência?

por Liszt Rangel
Quem já teve a oportunidade de ler alguma obra de uma das maiores autoridades bíblicas do momento, o teólogo e crítico textual Bart Ehrman, deve ter tomado a dimensão do quanto suas análises críticas e históricas acerca da Bíblia, estão abalando o mundo religioso. Considerado como agnóstico por muitos e ateu por outros, Ehrman teve a coragem de romper com os padrões religiosos de formação protestante que obteve em sua vida e, a par das pesquisas mais recentes da Arqueologia e da História, o pesquisador, ao lado de outros especialistas no assunto, chegou à conclusão de que menos de dez por cento dos evangelhos, no que concerne a mensagem atribuída a Jesus, da sua história e dos seus feitos são realmente originais. Ao mesmo tempo, a pesquisa está informando que mais de noventa por cento dos evangelhos são o resultado de adulterações acidentais e intencionais, deslocamentos, enxertos e manipulações de passagens.

No entanto, não é de hoje que historiadores independentes demonstram que a Bíblia não pode ser considerada um livro confiável, um documento seguro, mas trata-se de uma obra literária eivada de lendas, simbologias, ensinamentos universais e que apresenta, mesmo que distorcidos, alguns fatos que marcaram a trajetória do povo hebreu. 

Do outro lado deste conflito, em busca de provar a autenticidade da “Palavra de Deus”, estão historiadores e arqueólogos, que se denominam profissionais da Arqueologia bíblica, e suas pesquisas são financiadas por religiões cristãs. Não se pode deixar de fora deste grupo, os que recebem o apoio incondicional de instituições que visam o fortalecimento de seus interesses políticos, como é o caso das pesquisas da arqueóloga Eilat Mazar.

Em 2005, Eilat veio a público dizer que havia descoberto as ruínas do palácio do rei Davi. Ela defende que o palácio pertenceu a Davi e que sua construção remonta ao século X a.C. Estive no local, situado ao norte da cidade velha de Jerusalém, ao lado de um historiador e de um arqueólogo, e o que pude observar é que há controvérsias quanto ao achado. Na opinião destes estudiosos, há um erro de tempo de mais ou menos cem anos nos cálculos de Eilat Mazar, pois as ruínas seriam do século IX a.C., pertencentes à dinastia Omride, ou seja, 40 anos depois de Davi e Salomão. Merece salientar que as pesquisas de Eilat são financiadas pela Fundação Cidade de Davi e o Centro Shalem, e ambas lutam para devolver os territórios ocupados por palestinos aos israelenses. Este achado interessaria muito para a demarcação de territórios.

Ao que parece, tanto a História quanto a Arqueologia estão sendo usadas como escudos para a defesa desta religião ou de outra, quando não, para a satisfação dos interesses políticos. Com as pesquisas que possuem interesses religiosos, a realidade é a mesma. Isto quer dizer que, se para um historiador já é muito difícil saber lidar com a lacuna de informações pela falta de fontes históricas, sejam elas materiais ou documentos, para um pesquisador ou teólogo vinculado a alguma religião, este vazio ainda é mais perturbador e é aí que as suspeitas aumentam quando é preciso examinar a veracidade de tais comprovações científicas. O vazio pode ter sido preenchido sem fundamentação.

Voltando aos apontamentos de Bart Ehrman e de outros estudiosos, eles afirmam que diante da análise acerca da vida de Jesus e de seus ensinos, o cristão será confrontado em sua fé. Este será levado a pensar sobre a sua fé, ou então, a desistir de raciocinar, se afastando de qualquer lampejo que a ciência e as descobertas históricas possam trazer, na tentativa de ampliar seus conhecimentos. O que esta postura de afastamento, pode, provavelmente, levá-lo ao fanatismo, à fé cega.

Allan Kardec na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, reconhece as adulterações feitas na história de Jesus, o que o faz se posicionar, esclarecendo o porquê de ter escolhido as máximas morais. “Podem dividir-se as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo, os milagres, as profecias, as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja e o ensinamento moral. Se as quatro primeiras partes foram objeto de controvérsias, a última manteve-se inatacável”, esclarece o Codificador.

Os mais bem conceituados pesquisadores não veem a menor possibilidade de se ter acesso aos originais dos evangelhos, nem os documentos escritos em aramaico, nem em hebraico, tampouco os de origem grega. Como bem esclarece o teólogo Ehrman, “na verdade, não temos as cópias originais de nenhum dos livros bíblicos, apenas versões feitas séculos depois, todas elas alteradas”. (1)  
            
Se a ciência vem demonstrando através da crítica histórica, dos testes de radio-carbono 14, das descobertas arqueológicas que a Bíblia não pode ser considerada uma fonte segura e confiável, por que os espíritas ainda têm tamanha resistência em aderir a tais descobertas? Guardando, é claro, a devida prudência, por que neste sentido não se age com a tal da fé raciocinada, tão bem proclamada do alto dos telhados espíritas? O ainda desconhecido, Allan Kardec, sobre isto não mediu esforços dentro do tempo que lhe sobrava para demonstrar as contradições da Bíblia, como sugere no capítulo III de O Evangelho Segundo o Espiritismo, fazendo a comparação entre três traduções bíblicas referentes ao “nascimento do Homem” e assim observa suas adulterações.
            
Em Obras Póstumas, no capítulo referente ao Estudo sobre a natureza do Cristo, o Codificador tanto questiona a falta de documentos fora do contexto dos evangelhos em relação à vida de Jesus, como também demonstra sua inteira rejeição pelas cartas produzidas pelo senhor Paulo de Tarso, “Todos os escritos posteriores, sem disso excetuar os de São Paulo, não são, e não podem ser, senão comentários ou apreciações, reflexo de opiniões pessoais, frequentemente contraditórias, que não poderiam, em nenhum caso, ter a autoridade daqueles que receberam as instruções diretamente do Mestre.”
            
Foi com esta mesma autoridade que Allan Kardec recusou os ensinos dos espíritos que se mostravam apenas como sendo o reflexo de suas opiniões e de seus achismos. Sendo assim, qual o problema para os adeptos espíritas, de analisar, meditar, pesar e em seguida se posicionarem em relação às descobertas científicas? Mesmo quando estas demonstrem que este ou aquele pesquisador espírita, este ou aquele espírito se equivocou em sua opinião, o que há a temer?
            
É claro que ao fazer isto, este ou aquele espírita ou dito “espírito” não estaria sendo execrado do convívio, mas sim a Ciência e a Filosofia Espírita definitivamente teria seu lugar, talvez o mesmo lugar que o Codificador a colocou e que os espíritas posteriormente a retiraram. A quem finalmente pertence a Doutrina Espírita, aos espíritas ou aos espíritos? E divulga-se e se estuda o pensamento dos espíritos ou o dos espíritas?
            
Quando Kardec enalteceu a importância da Ciência e suas descobertas, deixou de forma clara qual deveria ser o posicionamento dos verdadeiros adeptos do Espiritismo, “O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da matéria. Admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, não se detém onde esta última para, prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade”. (2)
            
Profundamente lúcido e humilde, o Codificador ainda faz pesar a responsabilidade das escolhas dos adeptos espíritas, quando diz: “O Espiritismo, caminhando com o progresso, não será jamais ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, ele se modificará sobre este ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará.” (3)
      
Quando, portanto, as pesquisas históricas demonstram que os 27 livros do Novo Testamento foram escritos por quase 20 autores, que os evangelhos são cópias de cópias de cópias através dos séculos, que a quantidade de adulterações é imensa, que atualmente apenas sete cartas de Paulo são consideradas como de sua autoria, que nenhum dos evangelistas que assina os evangelhos, foi testemunha ocular de Jesus, e que o Antigo Testamento não escapou das manipulações, por que ainda haveremos de insistir na aceitação destes textos como verdades absolutas ou como se eles fossem originais? Qual a finalidade, qual a autenticidade e a segurança de se manter um estudo bíblico sob a ótica espírita, dentro das instituições espíritas, se não são levadas em conta as descobertas científicas, quer da Arqueologia quer da História?
          
Rejeitando estas verdades, não se estaria a reeditar erros de outros religiosos? Ou como dizem eles mesmos, os espíritas, "repetir erros de suas próprias experiências em existências passadas?"
        
As análises textuais feitas nos evangelhos mostram que estes foram escritos por escribas gregos, cultos e intelectuais. Nenhum dos adeptos de Jesus tinha esse perfil. Eram pescadores sem qualquer instrução, “gente do povo”, como diz Ernest Renan em sua obra, Vida de Jesus. Aliás, o mundo dos cristãos em sua maioria era de analfabetos.
             
Além disso, o próprio Lucas, em Atos dos Apóstolos, 4:13, diz claramente que Pedro e João eram analfabetos. Se João, o evangelista, não sabia escrever nem ler e Pedro também não, quem, portanto escreveu o Evangelho, as três Epístolas e o Apocalipse de João? Quem escreveu a primeira e a segunda epístola de Pedro?
             
E o mais incrível é que as pesquisas realizadas pelos métodos analítico-comparativos apontam que nenhum dos galileus que conheceu o Homem de Nazaré poderia ter realmente escrito os evangelhos. Há apenas a possibilidade de que um escrito tenha existido, mas que se perdeu dentro das narrativas dos evangelhos escritos posteriormente. Os evangelhos que temos hoje, são livros que apareceram muito tempo depois. Ehrman mais uma vez diria que houve uma imensa necessidade dos primeiros cristãos usarem os nomes dos apóstolos famosos para terem credibilidade nas narrativas. “Quem escreveu Mateus, não o chamou de Evangelho segundo Mateus. As pessoas que deram esse título a ele estão dizendo a você quem, na opinião delas, o escreveu”, esclarece o autor. (1)
          
Se a sua fé é raciocinada, o adepto espírita terá o que a temer? Quando as descobertas científicas lhe soprarem novos ventos, indicando que alguns ditados dos espíritos estão equivocados, haverá motivos para ele não seguir confiante em busca da Verdade? Pelo contrário, é chegado o momento de certificar-se que o verdadeiro espírita não é um Homem de crenças simplórias, mas sim de convicção e que sua fé é aumentada à medida que são lançadas sobre ela novas luzes assinaladas pelo progresso que lhe propiciará a conquista de um estado tão sonhado, o intelecto-moral.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 EHRMAN, Bart. Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?
2 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Primeira Parte, Curta resposta aos detratores do Espiritismo.
3 KARDEC, Allan. A Gênese – Capítulo I, item 55.









segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Por dentro do Espiritismo - A contradição dos espíritos!

por Liszt Rangel
Allan Kardec definiu o Espiritismo como uma Ciência que estuda os espíritos. Para ele, os espíritos são os verdadeiros reveladores da mensagem espírita. Ele apenas observa seus fenômenos e os estuda, bem como analisa suas mensagens e faz compreender como se operam as relações destes espíritos com o mundo material. O Codificador aprendeu diretamente com os espíritos como esta Doutrina seria sedimentada e quais seus objetivos morais na Terra.

Os espíritos foram observados através de suas comunicações, quando se manifestaram em centenas de lugares na França e em outros países da Europa. "Na nossa posição, recebendo as comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados sobre os diversos pontos do globo...¹".

Desta forma, Allan Kardec estabeleceu um método de pesquisa sobre as comunicações dos espíritos e o chamou de "Controle Universal do Ensinamento dos Espíritos". Através deste método, ele reconheceu a necessidade de se obter a concordância dos ensinos dos espíritos por médiuns que não se conheciam e assim, a partir deste processo, qualquer informação que lhe fosse revelada como verdade, para ser aceita como tal, precisaria se repetir em várias localidades, por muitos médiuns e espíritos diversos.

Se um espírito lhe revelasse algo, ele analisaria a mensagem com o uso da razão e aguardaria com prudência, para que este ensino se repetisse. "O primeiro controle é, sem contradita, o da razão, ao qual é preciso submeter, sem exceção, tudo o que vem dos Espíritos; toda teoria em contradição manifesta com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos que se possui, com qualquer nome respeitável que esteja¹". Allan Kardec após 15 anos de estudo e codificando o ensino dos espíritos percebeu que eles não sabiam de tudo. "Sabe-se que os Espíritos, em consequência da diferença que existe em suas capacidades, estão longe de, individualmente, estarem na posse de toda a verdade¹".

Quando, portanto, ele define que a concordância no ensino dos espíritos seria uma garantia para não ser ludibriado por eles, é porque sabia que suas informações poderiam ser contraditórias e refletir apenas a opinião pessoal destes espíritos ou muitas vezes as falácias ensinadas por eles para enganarem os que lhes dão inquestionável credibilidade. "Disso resulta que, para tudo o que está fora do ensinamento exclusivamente moral, as revelações que cada um pode obter têm um caráter individual, sem autenticidade; que elas devem ser consideradas como opiniões pessoais de tal ou tal Espírito, e que haveria imprudência em aceitá-las e promulgá-las levianamente como verdades absolutas¹".

Tais espíritos estão a revelar mudanças catastróficas na face do planeta, repetindo posturas apocalípticas de outras religiões e que acompanham a Humanidade desde a Antiguidade. Estas mensagens ao invés de consolar e esclarecer, espalham o terror e o medo entre indivíduos que anseiam por uma rápida libertação de seus sofrimentos atrozes. Também falam de sistemas avançados de tecnologia que facilmente se tornam vulgarizados nas mãos de "espíritos" que implantam chips, cuja finalidade seria a de controlar o comportamento alheio, sem qualquer referência e respeito ao principal instrumento da liberdade humana, o livre-arbítrio e assim, reforçam posturas neuróticas e delírios persecutórios.

Semeiam inverdades que geram descrença e provocam deboche de homens esclarecidos, considerados no século XIX pelo codificador, como Positivos, ou seja, pessoas que pensam e não apenas creem. Estas ditas revelações foram consideradas por Kardec como utopias. "...deixemos que o dia seguinte realize a utopia da véspera, porém não atravanquemos a Doutrina de princípios que possam ser considerados quiméricos e fazer que a repilam homens positivos²".

Revelações sensacionalistas como as que dizem que o famoso médium Chico Xavier reencarnou também como Platão, Hatchepsut, a rainha faraó egípcia, Francisco de Assis e até foi o próprio Allan Kardec, refletem opiniões pessoais de um espírito ou de um pequeno grupo de indivíduos e com isso, demonstram que além do método deixado pelo Codificador não ser utilizado, é também ignorado. Estas mensagens seriam classificadas pelo pedagogo Kardec como de natureza suspeita.
   
A Doutrina Espírita, segundo Kardec, ainda reflete a incompreensão dos que lhes seguem os princípios, mesmo tendo passado mais de 150 anos de sua codificação e o mais curioso no tocante a isto é que apesar do Espiritismo não ter sido considerado uma religião pelo Codificador, em sua marcha ele repete o mesmo erro que o Cristianismo, desviando-se de sua origem ainda no segundo século de sua propagação. "O Espiritismo, que apenas acaba de nascer, é ainda muito diversamente apreciado, muito pouco compreendido em sua essência por um grande número de adeptos...³".

BIBLIOGRAFIA:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo: IDE, 1978.
2 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1944.
3 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. São Paulo: IDE, 1987.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Por dentro do Espiritismo - É uma religião?

Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo

por Liszt Rangel
O termo Espiritismo apareceu pela primeira vez em meados do século XIX. O professor e pedagogo Hipollyte Léon Denizard Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, foi quem formulou tal expressão.

Ao iniciar suas pesquisas acerca de certos fenômenos, até então considerados pela sociedade como pertencentes à ordem do maravilhoso e do sobrenatural, Kardec reconheceu que necessitava de uma nova nomenclatura para designar tais fenômenos, haja vista já existir a palavra espiritualismo. "Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria¹", esclarece Kardec.

Para o francês Kardec, nem toda pessoa espiritualista aceita os princípios que a Doutrina Espírita defende, entre eles, a reencarnação e a comunicação com os mortos. As ideias espiritualistas têm por objetivo combater tanto os conceitos do niilismo quanto do materialismo, no que diz respeito à sobrevivência de algo que escapa dos domínios da matéria, mas ser espiritualista não implica necessariamente qualquer relação de busca pela comprovação da sobrevivência do espírito após a morte do corpo. Portanto, como estes vocábulos já eram de domínio público, Kardec propõe o termo "Espiritismo" a fim de que os que entrassem em contato com esta Doutrina compreendessem de imediato a diferença. Ele leva então à conclusão de que todo espírita é um espiritualista, mas nem todo espiritualista é espírita.

Partindo da premissa de que os fenômenos estudados eram produzidos pelos espíritos, ele apropriou-se do termo "espírito" e juntou a este o sufixo ismo, surgindo então, a palavra Espiritismo. O Espiritismo é definido por ele como uma Ciência que tem como princípio estudar os contatos que ocorrem entre o mundo dos espíritos e o mundo físico¹. O Codificador, como é chamado Allan Kardec pelos adeptos da Doutrina, em nenhum momento propôs que a nova ideia seria uma religião, mas sim uma "doutrina filosófica e moral". "Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé" ².

Assim, Allan Kardec vai examinando a relação cultural e até mesmo de linguística acerca do uso da palavra religião. No Espiritismo não há sacerdotes, nem hierarquia sacerdotal. Não existe culto, nem credo, nem rituais, dogmas, sacramentos, liturgias, sinais exteriores ou sequer as pessoas são estímuladas a fazer orações repetitivas, genuflexões ou recitarem mantras e fórmulas. As práticas espíritas não admitem ideias místicas, muito menos há espaço em suas atividades para o uso de imagens, fitinhas, crucifixos, oferendas, altares ou roupas paramentadas e cânticos.

O Espiritismo não pratica o comércio da fé, nem admite uma fé cega, mas ensina que a fé verdadeira é aquela que caminha ao lado da razão. Allan Kardec chegou mesmo a asseverar que "a doutrina espírita é deduzida pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as lições e aplicações" ³.

Também é curioso observar que o Espiritismo, quando chegou ao Brasil na década de 60 do século XIX, começou a percorrer um caminho distante e diferente do que foi difundido por Kardec e praticado na Europa. O sincretismo religioso nas terras brasileiras conferiu à Doutrina Espírita um status que ela não tem em sua origem e essência, o de religião. Entretanto, Kardec só admite o Espiritismo ser chamado de religião, se for no sentido filosófico, pois reconhece o seu caráter ético e suas consequências morais, especialmente, quando investe na fraternidade entre os homens. Segundo ele, apresentar o Espiritismo à sociedade como religião seria descaracterizá-lo em seus princípios. "Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se de um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis que simplesmente se diz: Doutrina filosófica e moral"².

BIBLIOGRAFIA:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1944.
2 KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1868. Rio de Janeiro: FEB, p.487-495.
3 KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 1944.        

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Por dentro do Islamismo - Fundamentos da religião

por Liszt Rangel
A fuga de Maomé, a Hégira, de Meca para Medina, foi vista posteriormente por muçulmanos como um paralelo entre a saída de Abraão de Ur na Mesopotâmia para Canaã na Judeia. A decisão do missionário foi relacionada ainda mais com o passado histórico dos judeus, mas isto ocorreu, principalmente, devido ao fato dele ser considerado descendente da linhagem de Ismael, o filho rejeitado de Abraão com Hagar.

Maomé viveu e conviveu com judeus e cristãos em Medina. Inicialmente, mandou que seus seguidores orassem em direção a Jerusalém e somente depois de se envolver em problemas com judeus e cristãos, ele propôs a prece voltada para Meca. Os judeus acusavam-no de ter manipulado os ensinos judaicos e os adequado como se fossem originais. Maomé e seus seguidores responderam esta acusação, dizendo que os textos do Corão, são de origem desconhecida do Homem, ou seja, eles teriam fonte em Alá, e que judeus e cristãos haviam se afastado dos ensinos. Entretanto, o Corão só foi escrito depois da morte de Maomé. Outros líderes tiveram suas histórias e ensinos registrados depois de sua morte. Isto também ocorreu em relação a Moisés, aos profetas e à Torá, e com Jesus e os evangelhos.

Maomé não desistiu de Meca. Passou a desarticular os ricos comerciantes da cidade, realizando assaltos às caravanas. Dez anos depois de sua saída de Meca, ele voltou trazendo a guerra. A jihad, a luta em favor da causa de Alá, é vista até hoje como guerra santa. Antes de morrer em 632 d.C., ele tinha conseguido unir a Arábia em torno de uma religião. Séculos depois, seus ensinos chegaram a outros continentes como a Europa, a África e a Ásia, tornando-se atualmente a segunda maior religião do mundo.

O Islamismo possui fundamentos que se desdobram não apenas na vida de seus religiosos, mas também na política e na justiça das nações muçulmanas. Os cinco pilares do Islamismo são o credo, a oração, a caridade, o jejum e a peregrinação a Meca.

O credo consiste em "Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta." Esta frase constitui o credo dos religiosos. Os muçulmanos oram cinco vezes ao dia, sendo convocados pelos alto-falantes, postos em cima  dos minaretes das mesquitas.

No Cairo, Egito, existem mais de mil mesquitas e os cristãos compõem apenas 10% da população local. Enquanto fazia pesquisas no Cairo, ouvia por diversas vezes gravações conclamando à oração: "Alá é Grande, não há outro Deus, senão Alá e Maomé, seu Profeta. Vinde para a oração, vinde para a salvação, Alá é Grande, não há outro Deus senão Alá." O Islamismo exige que o religioso se banhe antes de orar, para que assim ele se purifique das coisas que fez no mundo. Apenas os homens entram no salão para orar, as mulheres são levadas para outro lugar da Mesquita. Onde quer que esteja, o muçulmano leva consigo um pequeno tapete e se ajoelha em direção à Meca, para orar ao seu Alá, que segundo o Corão é Compassivo, é Caridoso e pode também ser tomado por ira, escolhendo os eleitos no dia do Juízo.

A questão do Juízo Final para Maomé tinha como finalidade maior incentivar o medo do sofrimento no além e da ira de Alá, e ao mesmo tempo manter as rédeas dos instintos, especialmente a negação do desejo que pode corromper a sociedade. O objetivo é forçar o nascimento de um senso moral entre os homens, mesmo que este senso seja baseado na "Psicologia do Medo". A questão da salvação exclusiva que é encontrada no Judaísmo e no Cristianismo, também tem espaço no Islamismo. Tanto a fé quanto a salvação no Islamismo, são o resultado da "Graça de Deus", e mesmo que perseguidas, apenas Alá pode conferi-las ao Homem. Esta proposta também foi encontrada no Cristianismo através do senhor Paulo de Tarso, quando postulou a salvação e fé como uma escolha de Deus pelo pecador, e não do pecador para com Deus.
  
No que diz respeito à caridade e ao jejum, o Islamismo impõe uma espécie de dízimo, em forma de imposto de 2,5% sobre a renda e a propriedade dos religiosos, mas são estimulados a dar sempre mais. Inicialmente, Maomé tinha a intenção de tirar este valor dos ricos para dá-lo aos pobres.  A caridade, portanto, é apresentada como uma obrigação moral para o projeto de um povo que é obediente à vontade de Alá. Atualmente, no Egito, por exemplo onde o Islamismo impera, há apenas duas classes sociais, o pobre que paga impostos para sustentar os ricos religiosos que assumiram o comando do país e ocupam os cargos públicos e governamentais.

Já o jejum declara que nenhum muçulmano pode alimentar-se de porco, nem tomar álcool. Ainda há poucos anos no Egito, era proibido também tomar café. É durante o Ramadan, o mês sagrado em que Maomé teria recebido a sua primeira revelação, que os muçulmanos se impõem a um jejum mais rigoroso, como comer, beber, fazer sexo e fumar, porém isto só dura até o pôr do sol. À noite, as festas sempre são muito fartas em tudo!

E por fim, a ida à Meca, para visitar o templo sagrado mais antigo, a Caaba, uma construção quadrada coberta com um pano escuro que teria sido construída por Abraão e seu filho Ismael. Os muçulmanos que entram na mesquita em Meca chegam a 600 mil, porém a cidade recebe neste período mais de um milhão e meio de peregrinos. E eles dão sete voltas em torno da Caaba, repetem orações e fazem sacrifícios de animais, tentando relembrar a obediência de Abraão quando Deus mandou que ele, para dar testemunho de sua obediência, matasse seu filho Ismael. Para os judeus, não foi Ismael quem foi oferecido para o sacrifício, mas o outro filho que tivera com Sara, Isaac.

Hoje em dia, do mesmo jeito que ocorreu com outras religiões, os muçulmanos não chegam a um consenso para tomarem suas decisões. Não consultam apenas o Corão, pois este não pode, segundo alguns religiosos, responder a tudo, por isso eles leem outros livros que falam da vida de Maomé e dos califas. E assim, com o passar do tempo estão cada vez mais divididos, do mesmo jeito que os cristãos e judeus.

BIBLIOGRAFIA:

BANON, Patrick. Para Conhecer Melhor as Religiões. São Paulo: Claro Enigma, 2010.

HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry; GAARDER, Jostein. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CHEBEL, Malek. Muhhamad, o Profeta. In: O Sagrado na História do Islamismo. São Paulo: Duetto, 2010.