domingo, 5 de abril de 2015

Reflexões sobre a Paixão em Nova Jerusalém

por Liszt Rangel
Desde que a Rede Globo assumiu o espetáculo encenado em Fazenda Nova, os astros da plim plim sempre atraem multidões que deliram para ver Fábio Assunção, Marcelo Antoni, Humberto Martins, e este ano um tal de Igor sei lá das quantas, enfim... a mulherada e a rapaziada não sossegam e com essa histeria, as falas dos atores ficam entrecortadas por causa da tietagem.


É bem verdade que se trata do maior espetáculo ao ar livre do mundo e do ponto de vista teatral vale a pena conferir. Entretanto, sob a ótica da exegese bíblica, da crítica textual, da História e da Arqueologia, o espetáculo é um desastre. E para mim, foi uma tortura assisti-lo em suas 3 horas de duração, e em pé. Tinha momento que dava vontade de gritar: "corta". Pois é... estava tudo errado. Desde as roupas de alguns atores, como o cenário, por exemplo do Templo de Salomão. Os fatos envolvendo Jesus, foram colocados de forma que aproveitam um cenário para espremer todos os seus ensinos de uma só vez. E não faltaram, é claro, as novidades.


Logo de início, surgem dois espíritos, um representando Moisés e outro ao que parece era Abraão. Estas figuras citam os primeiros versículos do evangelho atribuído a João acerca do "verbo que se fez carne." Ou seja, logo se percebe que a base da narrativa será católica, "um Deus tornado Homem". E assim ocorreu. Em todos os momentos aparecem palavras tipicamente católicas, o que terminaram por transformar Jesus, um bom judeu, em um bom católico, pagador de promessas. 


Outras vezes, o texto usado é o de Marcos que se mistura com algo de Lucas, e mais uma vez se estabelece uma verdadeira salada exegética. A ordem das discussões em torno da morte de Jesus não obedece aos roteiros dos evangelhos, nem tão pouco, nela aparece Jesus expulsando os vendilhões do Templo. A mulher pega em adultério mais uma vez é confundida com Maria Madalena, o que resgata a visão católica de colocá-la como meretriz e afastá-la do lugar de destaque que tinha ao lado de Jesus.


Um outro ponto curioso é a tentação que Jesus sofre de figuras satânicas. Em meu livro, Arqueologia dos Evangelhos, explico o porquê dos homens judeus buscarem o deserto, o que seria motivo de inspiração e meditação para muitos. Havia também uma crença que nele existiam almas que vagavam perdidas. Não se pode esquecer que todo herói nasce do contato com o deserto, era assim com os gregos. Porém, o que mais nos interessa na cena, é ver os demônios tentando Jesus com as mesmas tentações que Buda sofreu. Coincidência? Você acredita em coincidência?


Antes de falar da morte de Jesus, vamos a de Judas. Nos evangelhos ele se enforca, mas em Atos dos apóstolos, com o dinheiro que ganha com a morte de seu mestre, compra um terreno, até que certo dia um instrumento cortante, rasga seus intestinos e ele morre. Até hoje em Israel há um pedaço de terra, chamado de "campo de sangue", supostamente comprado com o dinheiro da venda de Jesus. E agora vamos acreditar em qual morte? A do suicídio? Ou a do acidente no campo? Este é um caso para o CSI- FAZENDA NOVA. E o pior é que as pessoas se envolvem em tanto ódio ainda por Judas, que quando este sai do sinédrio após entregar Jesus, um homem que estava ao meu lado na plateia, disse, "vou pegá-lo ali na esquina pra ele ver o que é bom pra tosse." Pronto! Bastou o pobre se suicidar, que a multidão foi ao delírio. Foi a cena mais aplaudida! Já a das bem-aventuranças o público saiu em silêncio, e ainda me roubaram uma garrafa de água mineral. Justo depois de Jesus ter ensinado que "ajuntássemos tesouros nos céus".


Não pode ficar de fora da nossa análise, a cena canibalística que ocorre na Santa Ceia. Digo isto porque nenhum judeu ergue o vinho para o alto e divide o pão e pede para os outros comerem e beberem como se aquilo fosse seu corpo e seu sangue. Mais uma celebração católica, a Eucaristia!
Vale lembrar que esta é uma celebração das hordas primitivas, segundo Freud, onde comer a carne e beber o sangue do líder da tribo, passava a crença de que todos iriam gozar de seu poder. Depois, quando viam que nada ocorria, eles, se colocavam aos prantos e choravam em culpa, aguardando que ele ressuscitasse. Igualzinho aos cristãos. Para o desfecho, típico de novela das oito, os atores repetem a cena de Da Vinci, congelando a imagem da Santa Ceia e todos ficam na posição da famosa tela. Mas é claro que não chamaram Madalena para fazer parte dela. Não iria pegar bem, ver Pedro com uma faca ameaçando cortar o pescoço da esposa de Jesus.


Quanto a questão do julgamento, realmente é por demais contraditório. Caifás nem espera as festividades passarem e a cena que envolve o ator Humberto Martins, no papel de Pilatos, reflete o que há em Mateus 27, 24-25, onde os judeus pedem o sangue de Jesus, deixando claro a responsabilidade deles sobre sua morte. E sabe qual a consequência desse arranjo proposital? Judeus e cristãos se odeiam até hoje. Vale a pena aplaudir a forte cena dos cavalos romanos entrando em cena. Isto foi belo!
Do ponto de vista histórico, no ano 36, Pilatos foi mandado de volta a Roma por ordem de Tibério, pois não conseguia mais conter os motins que se espalharam pela região.¹ O senhor Paulo de Tarso, grande perseguidor e assassino de cristãos e o maior deturpador da mensagem de Jesus, também fez de tudo para tirar dos romanos a culpa da morte do Nazareno.


No tocante à morte de Cristo, mais um erro. Os copistas plagiaram as passagens de Sl 22,19 e de Is 53,10. Esta passagem é clássica. Envolve a cena do bom ladrão, sorteio das vestes de Jesus e a promessa do Nazareno ao ladrão, de que ele iria a partir daquela hora "roubar" no céu. Típica cena católica para quem aprontou muito no mundo e com o perdão da Igreja na hora da extrema unção, paga pela salvação e fica tudo garantido no Paraíso. Outro detalhe da cena é a terrível frase colocada na boca de um Jesus revoltado, quando ele pergunta a Deus porque ele o teria abandonado. A inovação agora é por parte da La Pietà esculpida por Michelangelo e que a repetem na descida do corpo da cruz. Vai ver ele estava lá e tirou uma foto para mais tarde na idade média reproduzir.

Bem, estas foram minhas impressões iniciais acerca do maior espetáculo ao ar livre do mundo. Quando fui pela primeira vez eu era um garoto e Jesus ainda não tinha ressuscitado. Como uma bela peça teatral, por isso mesmo deveriam ter uma maior preocupação com os fatos e sua ordem, bem como com a estrutura histórica da Palestina do século I.  Falaram mais de um Cristo católico do que de um Jesus Histórico, um homem apaixonante e sedutor que apesar de todas as adulterações em sua imagem e mensagem, ele nos marcou ao ponto de tornar-se o maior enigma para aqueles que sinceramente o buscam.

FOTOS: LISZT RANGEL

BIBLIOGRAFIA
1- RANGEL, Liszt. Arqueologia dos Evangelhos - uma releitura histórica do pensamento de Jesus. Recife: Editora Bom Livro, 2009.  

terça-feira, 3 de março de 2015

Outro apocalipse? Agora espírita?


por Liszt Rangel
Há milênios, o Homem se preocupa com sua origem e destinação. Antes mesmo de levantar-se em profundas reflexões através da dialética, da filosofia socrática, platônica e aristotélica, o ser humano mesmo movimentado pelo instinto de sobrevivência, de alguma forma tentou controlar a força implacável da natureza que sempre ameaçou a sua sobrevivência. Afinal de contas viver é preciso!


Entretanto, todas as vezes em que o Homem se encontra diante de uma desordem social, econômica, política, religiosa e moral surge o fenômeno do pânico. Desestabilizado em seu eixo, recorre às medidas mais urgentes, quer usando o Estado para atuar mediante a sua declaração de falência e inapetência para lidar com certos problemas sociais e familiares, quer recorrendo às próprias mãos para se constituir senhor e assim tornar-se justiceiro, quer especulando por meios místicos, aproveitando a fé simplória do povo, como veículo de divulgação de assombros e catástrofes que deverão se abater sobre esta pequena bola solta no espaço, a Terra.


Na causalidade deste desejo mórbido, pode-se identificar o próprio vazio existencial. A angústia por um amanhã incerto, as ameaças de guerras de extermínio por vírus e bactérias, a descrença no poder público e judiciário, a desigualdade social que impera galopante em vários países do mundo e a estranha sensação de que mesmo tendo conquistado a liberdade, o Homem a trocou pela segurança, através das posses, dos carros blindados, dos luxuosos condomínios fechados, das festas com lista de convidados seletos, das inúmeras câmeras que o resguardam da violência das ruas. E apesar de tudo ainda é infeliz... e teme a sua principal adversária, a morte.


Em psicanálise, costuma-se dizer que quanto mais se teme algo, mais próximo o indivíduo fica do que lhe causa temor. E não é assim que vemos nos relacionamentos amorosos algumas vezes? Ou nos comportamentos infantis e dos adolescentes? Escolhemos também como acompanhantes, velhas reedições de relacionamentos infelizes e que muitas vezes foram vividos por nossos pais. Quem busca a morte, encontra; quem busca dor, acha. Mas, isto também vale da mesma forma e intensidade para quem busca o reverso. Sim, porque sempre há o reverso da moeda. É como corredores de cem metros, há sempre aqueles que estão nas extremidades. Portanto, quem busca vida, vive e não apenas existe. Quem busca amar, termina por se descobrir amante mesmo quando não amado e assim por diante...


Isto nos leva consequentemente a uma outra questão, a das escolhas. Jean-Paul Sartre já disse uma vez, "Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo." Isto é inevitável! E agora surge a  pergunta, por que escolher sempre a tragédia como solucionadora de nossas angústias, dores e incertezas? 


Justamente na hora em que deveríamos tentar olhar para a miséria moral e sem limites em que nossos jovens se encontram, quando estamos destruindo o planeta diariamente ou envolvidos em corrupção, inundando as ruas de petróleo, por que o que propomos como saída, são sempre atitudes extremistas? O que pode resultar na nossa declaração de inapetência por não sabermos lidar com nosso fracasso. Então, fala-se em guerra, em catástrofes naturais, mudança do eixo da Terra, em fim de mundo e agora surge um novo surto psicótico, ou como poderíamos chamar de uma nova neurose coletiva, a tal da DATA LIMITE! 


Já não bastaram as profecias astecas, as maias, as celtas, as tibetanas, as de Nostradamus e as dos X-MEN, agora temos a profecia do respeitável e inesquecível Chico Xavier? Seja por negligência humana, seja por ordem de um Deus cristão vingativo que ainda é típico de uma concepção católica, ou por invasão de extraterrestres que administrarão o planeta em uma espécie de governo de transição, após a raça humana ter recebido um "impeachment", o que está sendo divulgado em larga escala só comprova a nossa estreita ligação com religiões apocalípticas. 


O Homem já vem em busca de ocupação em outros lugares fora da Terra desde o início da guerra fria. Isto não é novidade. A medicina já vem divulgando que a partir de 2020 teremos dado grandes saltos na descoberta da cura para inúmeros males, incluindo o melhoramento na qualidade de vida e a longevidade humana. Países como a França, já anunciaram oficialmente que estão com registros de extraterrestres, e isto já foi assunto até na pauta da ONU.


Vale ressaltar, algumas coisas importantes. Quando se fala em revelação sobre isto ou aquilo, é preciso ter documentos, e na entrevista, Pinga Fogo, na qual se baseiam os defensores ardorosos de tal hecatombe, não se pode dizer que ali, existe material suficiente, oferecido pelo honrado Chico Xavier, prevendo a desgraça da Humanidade. Pelo contrário, ele nos fala de uma possibilidade de uma nova era de fraternidade, de renovação dos paradigmas afetivos e intelectuais. Ou será que como verdadeiro e sincero espírita, ele não sabia que Deus é infinitamente bom? E não podemos esquecer que se nós, seres imperfeitos e ignorantes, conseguimos ter misericórdia e compaixão para com quem sofre, imagine Deus? 


Fazendo uma análise apurada do documentário, percebe-se a tentativa na introdução e no desfecho que a direção do material produzido teve, em realçar a figura do Chico para dar respaldo ao conteúdo que virá a seguir. Incluindo a fala do respeitável e incansável Divaldo Franco, que do mesmo jeito que o Chico suas obras testemunham quem eles são. O Chico não precisa disto, pois sua trajetória de transformação se operou sem testemunhas oculares, na madrugada em solidão, e sua DATA LIMITE nunca existiu porque sempre ensinou que a qualquer hora o Homem podia fazer uma história diferente. Ele fez questão de ao invés de semear terror, espalhar esperança e consolo aos aflitos.


Apresentada a defesa desnecessária da integridade de Chico, começam os "depoimentos na madrugada" em que "Chico disse isto", "Chico disse aquilo". Porém, é preciso ter-se em mente que o Chico não se encontra fisicamente entre nós para se defender ou afirmar o que dizem, ou que o que ele teria dito. Mais uma vez vemos repetir-se o que fizeram com Sócrates, Platão, Francisco de Assis, Madre Teresa, Jesus de Nazaré e agora com um dos vultos mais marcantes que sempre vem sendo colocado sob um véu de santidade e de mistérios, desde a sua morte. Será que não podemos ter a nossa própria luz, mesmo que seja a de um vaga-lume? 


E assim, começa a segunda parte que é uma consequência da primeira, a de que o Brasil é o país escolhido para salvar o mundo...


Já fomos o da copa e foi um fracasso, imagine agora para salvar o mundo? Não conseguimos nem nos salvar dos corruptos que temos e de nossa própria vaidade e orgulho,buscando sempre os holofotes das plateias, os aplausos dos sofridos que deveriam ser para uma Causa e não para o nosso Ego...


Surge, então, uma nova neurose coletiva, a que o Brasil é o escolhido para receber imigrantes de todas as partes do mundo. Esta ideia apocalíptica sempre esteve acompanhada deste narcisismo ufanista. Foi assim com os gregos, com os maias, com os egípcios, com os romanos e todas estas civilizações faliram por causa do orgulho e da arrogância. Estaríamos então, em verdade caminhando para este labirinto, cujo nome em Espiritismo, chama-se "Fascinação?" E ainda mais, tentando atrair um maior número de desesperados, para que ela se torne coletiva? Já não bastaram as teorias alucinatórias e persecutórias dos chips implantados? A das legiões de dragões, das reencarnações de celebridades do passado? E o espetáculo das cirurgias cortantes? E agora, os shows mediúnicos das psicografias que são cobradas em grandes teatros? Já não bastam os leilões de obras ditas como mediúnicas de artistas famosos? 


Sempre queremos mais. Estamos achando pouco o que já escolhemos como meio de expiações e provas por nosso comportamento hediondo no pretérito e agora queremos comprometer os caminhos daqueles que buscam esclarecimento e consolo no Espiritismo? Além de nos comprometermos pessoalmente com nossos equívocos, falhas morais, desajustes na personalidade, agora iremos solapar as bases de uma Ciência e de uma Filosofia cujo alcance moral ainda não conseguiu nos atingir? 


Em pesquisa, apresentem-se as provas materiais! E assim, só a partir daí as colocaremos sob a razão ensinada e não esquecida por Rivail, utilizando como método o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos. Através de médiuns que não se comuniquem entre si, e que os ditados venham por diversos espíritos, só assim, avançaremos moral e intelectualmente. Os próprios espíritos ensinaram ao Rivail que nas Leis Naturais, a do Progresso sempre impera, mesmo diante da Lei da Destruição. Se a morte nos espera, qual motivo então, para o Codificador ter escrito com convicção em O Céu e o Inferno,"Por que o Espírita Não Teme a Morte."


Então, adeptos desta fé raciocinada, não façamos soar a hora do horror nos ouvidos que se acostumaram a escutar os gritos da misérias sombrias. Se apresentamo-nos como sinceros espíritas, quais lucros teremos com as notícias que apenas exaltam o nosso orgulho de nos sentirmos escolhidos de Deus e melhores de que nossos companheiros de viagem? Que as multidões de aflitos possam ouvir de vossos lábios e de vossas obras esclarecimentos libertadores e consoladores, posto que estas massas já não necessitam mais de falsas promessas de um paraíso inatingível, muito menos das ameaças da psicologia do medo.


Os tempos anunciados por Rivail foram bem delineados, "é a despedida de uma geração e a chegada de outra", conforme se observa em A Gênese. E deixou claro que nestes novos tempos, o que se agitariam, seriam as entranhas da Humanidade, e não mais as devastações naturais. Se o Homem anda tomando atitudes que o levarão à morte e à dor, ao caos social e moral, não é porque estava previsto, mas é por suas escolhas atuais.


Então, escolher, é o grande enigma a ser revelado!!!


Avancemos então, sem a perda de tempo com ameaças de terror, nem elegendo-nos como mártires de um Cristianismo que o tempo se encarregou de apagar. A essência da mensagem de Jesus de Nazaré é de estímulo em uma fé que se renova nas atitudes edificantes e não sob o estalar do chicote do pavor!       

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Tudo é Transformação!

Arena Romana em Nimes, Sul da França
por Liszt Rangel
Na verdade, tudo é transformação. Se a matéria transforma-se, em decomposição e se a essência que a habita é matéria, apesar de sutil e de outra natureza, esta também se submete à transformação.


O nosso corpo já foi bem diferente e limitado em suas funções.
Hoje, já nos preparamos geneticamente para trazer ao mundo novas formas biológicas, mais resistentes a algumas enfermidades, mais perfeitas na estrutura, e sem deformações. Antecipamo-nos inclusive até à doença.


O Homem também atravessa esta metamorfose. Já foi mais instintivo, selvagem e precisou sair da caverna para garantir a sobrevivência. Foi morar ao lado dos grandes rios e lagos. Assentando-se, domesticou animais, plantou, demarcou territórios, ergueu as grandes civilizações, como as da Caldeia, da Babilônia, do Egito, da China, ou vestiu a armadura romana para conquistar o velho mundo. 


Já não mais limitado às forças instintivas, foi capaz de criar, manter, produzir, subjugar, criticar e o sentido de responsabilidade aproximou-se, descortinando uma nova maneira de se ver e também ver o mundo. Além do sistema límbico das emoções, conquistou o neocortex. Ele finalmente pensa! Que máximo! E o pior é, quando pensa também que é o máximo... e assim, ele destrói, sem dar-se conta que está promovendo uma transformação por onde passa. Sem consciência, ele serve de instrumento à dor alheia, ao caos e à colheita obrigatória que terá de realizar, enquanto pensa que é Senhor de si para semear. Pura ilusão!


Ele percebe que quanto maior é a responsabilidade, goza de mais liberdade. Mas desconhece que quanto maior a liberdade, mais contas a prestar à Natureza, ao próximo do uso desta liberdade. Entre o passado que lhe mostra as origens de sua evolução e o futuro tecnológico que se tornou seu presente virtual, fluido, ele moldou a sua vida e isolou-se da relação com o outro. Ele caminha, tropeçando mais do que avançando, mas ainda assim é capaz de vender à celebridades do cinema terrenos até no espaço sideral.


No entanto, ainda lhe falta muito em matéria de conhecimento, ou deveria dizer, falta-lhe a "essência" do conhecimento, de forma a aplicar em favor daquele que está ao seu lado, e que também se encontra em transformação. Seu Ego estruturado nas matrizes impulsivas de sua infância espiritual, permite que lhe escape a compreensão de si e de tudo o que o cerca. Ele machuca, ele adultera, ele mal trata! Embora não seja mais um primata, comporta-se às vezes como tal, ignorando que tais escolhas o levam, inevitavelmente no futuro próximo, à falta de escolhas. 


Carece-lhe ainda neste processo, descobrir um sentido, um porque, mas ele quer muitos porquês. Todavia, até agora aqueles que descobriram os porquês não foram felizes. Se viram como reis e rainhas egípcias, nobres da corte de Imperadores romanos, fidalgos medievais e acreditam de forma narcísica que sofrem porque abusaram de suas escolhas em existências passadas, enquanto gozavam de prestígio, riqueza e poder. Porém, ignoram que para o presente que os perturba não há fantasia que os console, haja vista tratar-se de uma transformação multicausal e não unicausal. 


Somos transcendentes, viajores do tempo, semeadores também do agora no sentido existencial. Então por que buscar respostas ilusórias no passado supostamente cármico, se não temos a ciência de nosso presente? Se nos falta na vida atual até mesmo a lembrança de sermos gratos e bons a quem só nos deu amor? 


E assim, agora decepcionado o Homem terá que descobrir sozinho, não mais os porquês da dor, da solidão e da morte, mas "como" irá lidar com essas transformações que sempre foram desprezadas e evitadas por ele. Neste labirinto o minotauro ainda está vivo e é bom ter cuidado!


Geralmente, nesta hora de dor existencial, ele foge para as ilusões, e os "anti-isto" e os "anti-aquilo" são os mais procurados, porque anestesiam a consciência.


Como Dorothy, o Homem busca a estrada de tijolos amarelos que o levará a lugar nenhum. Como Alice, ainda sonha de forma infantil com a rainha de copas a persegui-la, enquanto não percebe que é manipulada pelo coelho. Apenas no fim, ela descobre que somente na loucura do chapeleiro é que desperta para a vida real, quem sabe para o amor real. Mas ele só existe em seus sonhos. Ela não é madura para vivê-lo. Ela recusa transformar-se. Na verdade, Alice é o protótipo da menina-mulher que foge para o mundo da loucura a fim de não tomar suas decisões que a trarão para a realidade.    


Assim é o Homem Moderno. Quem sabe, sobre nesta hora de contato com a realidade, a maior descoberta, a do sentido da vida, a de entender a finalidade de tudo o que experienciou, mesmo que lhe doa. E se não ocorreu isto ainda, não será questionando, mas vivendo e revivendo, criando, e inventando, se permitindo cair, mas obrigando-se a levantar-se, até que a transformação ocorra, ou melhor que ela esteja em curso.


Mas, de qualquer forma é bom ter sempre em mente, ela jamais será completa. O dia de amanhã nunca chegará. Ele é sempre hoje! E o que estamos fazendo para transformar o hoje?


Ao que tudo indica, se o caminho é o da transformação, e se apenas esta poderosa companheira de viagem nunca abandonou o Homem ao longo desses 150 mil anos de sua existência, talvez o fim seja este, transformar-se. Quem sabe está aí a resposta ao seu porquê, porém este porquê jamais o levará de volta à origem, pois é impossível banhar-se por duas vezes nas mesmas águas de um rio. 


Se a finalidade for a transformação, então não terá fim, não terá acabado, não terá prazo, mas haverá sempre uma finalidade, mesmo que esta seja sem fim. E não há fim... o que há é transformação.


A dor veio e se foi. 
Algumas vezes ficou que parecia não querer ir embora.
Alegria fugidia foi tão rápida, que nem deu tempo para perguntar quando ela voltaria.
A ingratidão corroeu a alma e quebrou as lembranças mais delicadas. Entretanto, a atitude de amor construiu-se inquebrável.
Porém, em se tratando da cólera, quando esta cessou, deixou a exaustão. A expressão está no olhar que agora saboreia a decepção e a amargura.
E a mágoa? Tão resistente e teimosa, marcou o frágil corpo, que jamais voltará a ser o mesmo, afinal tudo é transformação.


Quando se experimenta a juventude, tem-se a ilusão que ela será eterna, mas acaba indo-se precipitadamente, especialmente quando já se sabe da hora marcada para seu fim. Mas ainda sim, houve transformação.


Já a saudade doeu, doeu... parecia que não tinha fim, entretanto desapareceu com a presença do amor que acreditou por um tempo que era melhor também ir embora, afastar-se para bem longe, para um lugar em que houvesse apenas ausência. Porém, o que é ausência, senão falta de atitude e lugar preenchido pelo vazio.


Todos bem sabem que é no egoísmo aonde reina a ausência!!! E o amor... só sabe quem o sente, porque se transforma. 


Quem se iludiu e sofre acusando pela sua dor o que chama de amor, correu atrás de fumaças que saem dos bueiros e logo se dispersam pelo mundo... E no fim... o amante terminou algemado a uma idealização.


Pobre louco que delira! Não se pode pedir-lhe paciência. 


Paciência? Não existe a que dure para sempre, pois "sempre" é um lugar desconhecido e o tempo lá é dominado pela transformação, ou seja, tudo muda! O relógio, os dias, os anos são inúteis para sua permanência. A transformação não os respeita, pelo contrário, usa-os. E os egoístas sabem perfeitamente o que é usar, mas há uma diferença, ele não se deixa mudar, quer aprisionar. Quem precisa de muito tempo é a nossa verdade acovardada, já a maldade em muito pouco deixa seu rastro. 


Igual ao amor, a bondade fecunda, transborda e também, transforma: o fraco, renasce forte, o inibido, surge como audacioso, o mesquinho refloresce em gargalhadas de solidariedade. 


Por outro lado, no bairro sombrio da alma humana, lágrimas secam e os mesmos sorrisos não voltam mais, assim como as oportunidades na vida. A janela está vazia, e quem estava ali, cansou e se foi, correu abrindo a porta em busca do sorriso que partiu. Em verdade, acabam por surgir outras lágrimas, outros sorrisos e haverá sempre um egoísta debruçado na janela. Já as oportunidades perdidas ou vividas, nunca mais trarão os mesmos momentos. Se foram... O que finalmente sobrou?  


Transformação! Enfim, ela foi a única que nunca nos abandonou, nem se permitiu desaparecer. Opera-se na maioria das vezes em silêncio e na solidão, mesmo quando a ignoramos ou não a desejamos. Ela não escolhe cor, raça, crença, se é saudável ou doente, muito menos riqueza ou pobreza. Para ela, "eternidade" não é uma estância no além, é algo a fazer. Não importa quanto tempo leve, ela não chega, porque é, ou melhor, já chegou! E assim esperar por ela é inútil!


Obedecendo, portanto, a grandiosidade de seu Criador que é imutável, e por isso nunca se transforma, pois se isto ocorresse tudo seria um caos permanente e não uma transformação harmoniosa. Quem não tem harmonia é o Homem, porque luta contra as forças da sua essência e da Natureza. 


Esta foi quem sabe a maior ironia herdada pela criatura humana no momento de sua criação. Nascidos da imutabilidade, somos mutáveis.


Se pudéssemos ainda aceitar um Deus em sua dimensão antropomórfica, aquele velhinho de barbas brancas, acho que Ele teria dito de forma jocosa no instante da nossa criação: "Já que eu não posso, vai tu, criatura, se transformar! Seja o ato constante que guarda a transformação pulsante."

E assim fomos, e assim somos, seremos, e não deixaremos de ser!

Mas ainda tem gente que não quer ser...



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cristo, uma mercadoria importada!

por Liszt Rangel
A religião cristã vem cumprindo, "magnificamente", a função de cada vez mais comercializar um judeu, filho de um pedreiro, que viveu no século I d.C. Sob a designação de Cristo, Yehoshú'a ben Yussef, foi tornado um produto. O Homem encantador que viveu ao lado de simples e analfabetos pescadores, foi substituído aos poucos por um mito. A produção do Cristo mítico da fé é em larga escala e os preços são elevados, afinal de contas ser escolhido pelo "Salvador" para ter uma cadeira cativa no Paraíso não é para qualquer um. Porém, tem gente disposta a pagar. 


O assunto, logo torna-se um campeão de vendas nas mãos dos que procuram soluções rápidas e mil maneiras de reinventar a realidade sofrida, e desta forma, ocupa as estantes das livrarias através de temas como, "Jesus - o maior Psicólogo", "Jesus um exemplo de líder para sua empresa", "Jesus e o Marketing", "Jesus, o maior médico de todos os tempos" e assim por diante...  Cada vez mais o desconhecido de Nazaré desaparece para ceder espaço ao Cristo, representante e fundador de uma religião salvacionista. Nascido na manjedoura, em Belém, morto entre bandidos e ressuscitado, o Cristo operador de milagres, agora os produz através de seus missionários, exclusivos portadores da palavra da salvação e que vendem curas à vista, no boleto ou no cartão em até 12 vezes sem juros. 


Disputando uma fatia deste rentável mercado, estão os cantores da renovação carismática. Mesmo à contragosto da CNBB, que finge que não está nem aí, mas em verdade se felicita pela volta do rebanho aos braços da Igreja, os padres cantores tentam resgatar as almas desviadas nos últimos dez anos para as mais de 1.500 (mil e quinhentas) denominações protestantes. De uns anos para cá, os adoráveis padres, que por sinal deixaram aquela imagem misteriosa dos monges medievais, agora se apresentam sempre bem vestidos com ares de Clark Gable, num misto de Fábio Júnior e Tacísio Meira, trazendo sempre um sorriso que combina com o olhar, arrastando multidões para a Fé Católica e ainda arrancam inúmeros suspiros das fervorosas irmãs em Cristo.


Do outro lado, estão os novos convertidos para Cristo. Os cantores de música Gospel ocupam as maiores paradas de sucesso e o público alvo, é claro, não podia deixar de ser os sem esperança, os sofridos, essa gente do povo... gente simples que trabalha duro e que antes apostava no jogo do bicho, fazendo a sua fezinha, mas que agora aposta numa vida tranquila, sonhando com a casa própria no céu, pondo a sua felicidade nas mãos de outra "gente", gente esperta que não trabalha, ou melhor, trabalha para Deus, que vive da religião e que tem "féde mais".


No âmbito deste comércio, a concorrência é acirrada e o interessante é que quanto maior a crise econômica, moral e espiritual, mais Cristo vende! No mercado da música gospel, onde "Jesus é dez!", ou "É o cara!" tem forró, axé music, sertanejo, romântica, pagode, samba, funk, rap, rock metal, enfim todos os ritmos exaltando "Só Jesus é o Senhor!".


O Cristo da fé, atualmente, se envolve até em jogos de futebol, recebendo orações de agradecimento após as partidas no próprio campo de batalha, à semelhança dos gladiadores romanos que agradeciam a Marte. Eles rendem graças a Cristo por tê-los ajudado, como seus atletas  a vencerem seus inimigos e também, é claro por ter deixado a torcida adversária chorando ou furiosa quebrando o patrimônio público e agredindo transeuntes na saída dos estádios.


É bem verdade que a música sempre teve seu efeito terapêutico, mas a religiosa que hoje se apresenta tem uma certa diferença dos sensíveis cantos gregorianos, dos vibrantes e disciplinados corais das Igrejas Batistas e Presbiterianas, ou indo mais ao passado, da arrebatadora sacralidade renascentista e da alegre e envolvente sonoridade pagã. Já vão longe os dias de almas inspiradas como Handel que compôs O Messias ou de Bach em Jesus Alegria dos Homens.


E o mais irritante desta musicalidade que comercializa Cristo está chegando... pois o natal vem por aí. Prepare-se para ouvir, tocando nas lojas Renner e na Riachuelo, Imagine de John Lennon, e aquela outra que quando toca, estimula depressão e suicídio, o clássico Então é Natal, de Simone, sempre em primeiro lugar nas Lojas Bompreço do grupo Walmartt. Para quem estiver sozinho, sem a companhia daqueles familiares falsos vale a pena se sentir mais egoísta, ouvindo Oswaldo Montenegro com a melancólica A Lista, sempre bem acompanhada de um vinho Quinta do Morgado para terminar a enfadonha noite de Natal.


Entretanto, para quem curte Cristo na manjedoura ao lado dos animaizinhos, é bom se preparar para gastar muito, pois tem guirlanda, árvore, estrela, presépio, presentes, coca-cola, salpicão, peru ou chester para a perigosa e em "cima do muro" classe média, composta de uma infinidade de comilões e comilanças noite à fora, ou melhor noite à dentro, dentro de sua casa é claro.


Essa gente não sabe que lhe deu muito trabalho arrumar tudo aquilo, pois acreditam que é um sonho de Natal, um presente de Cristo, quem sabe. Você passou o dia inteiro arrumando o apartamento para receber aquela turma da barra pesada, sempre cheirando a perfumes amadeirados. É um pessoal que não respeita seu esforço e nessa 'plebe rude' tem sempre um cunhado que vai fazer um comentário desagradável sobre tua filha de quinze anos e o playboy marombado com quem ela está de "rolinho", como dizem os jovens.


Não podemos esquecer do sem graça "Amigo secreto", que por sinal não é nada secreto, e sim indiscreto, porque todo mundo sabe quem tirou quem, mas todos fingem que não sabem, e que nem viram o ridículo sorteio dos papeis com os nomes previamente escolhidos. E é indiscreto sim... porque tem sempre alguém dizendo o que aquela prima azeda ou aquela tia velha precisam ganhar ou então, dá logo para ver a simpatia e a amizade reinando na família quando tira-se o nome do chato ou daquele que dizem ter tudo, e você pede para trocar o papel, alegando que tirou você mesmo. Que mentira!!!


Depois disso tudo, você vai prometer que este natal foi o último em sua casa, mas não se iluda não, porque ano que vem tem mais. Sabe por que? Porque tem mais Cristo no comércio, e toda sua família escravocrata estará em sua senzala.


Como se não bastasse tanto Cristo mercantilizado com código de barra, tem também o pirateado. Todos sabem que ninguém supera em chatice e irritação, o Jingle bells executado ao som de um odiento cavaquinho e que com certeza, você poderá ouvir nas Lojas Americanas, ou então, passando em frente de sua casa ou do seu trabalho naquele carrinho de ambulante que vende CD pirata. Para irritar mais ainda, o vendedor usa um ridículo gorrinho do Papai Noel!


Ai que saudade daqueles vira-latas que corriam atrás dos carros-de-boi, das bicicletas, dos caminhões do lixo, dos carteiros e das motos. As carrocinhas que tocam Jingle Bells mereciam conhecê-los!!!


Enfim... Cristo tornou-se ou não um recorde de vendas? É um sucesso inquestionável. Fizeram dele uma mercadoria importada, segundo os desejos e os interesses dos cristãos.


Discografia Sugerida na Crônica para seu Natal
http://www.vagalume.com.br/john-lennon/imagine-traduzida.html
http://www.vagalume.com.br/simone/entao-e-natal.html
http://www.vagalume.com.br/oswaldo-montenegro/a-lista.html
http://www.vagalume.com.br/george-frederic-handel/the-messiah-hallelujah.html
http://www.vagalume.com.br/bach/discografia/bach-em-instrumentos-antigos.html

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carl Rogers e o Self

Carl Rogers criou  a terapia
centrada no cliente
por Liszt Rangel
Ao contrário do que se costuma pensar, a palavra self tão usada no momento por celebridades e ilustres anônimos não tem qualquer relação com o ato de tirar a própria foto. A expressão inglesa pode significar, "Eu", "si mesmo", "personalidade", "natureza" e até "caráter". Sendo assim, tirar um self significa fotografar a própria imagem, porém a fotografia assim mesmo, não captará seu self.


Para Carl Rogers que propôs uma psicoterapia numa perspectiva centrada no cliente, "o self não é uma entidade estável, imutável" (Fadiman, p. 226). Ou seja, para ele o self é um processo constante e não pode ser comparado a uma fotografia que apenas congela o momento. Rogers queria que o indivíduo entrasse em contato com sua identidade, iniciando assim seu autoconhecimento e de forma contínua.


Por outro lado, o autoconhecimento não deve ser confundido com a tal da Reforma Íntima. Reforma se faz em casa e apto, até na garagem, ou quando chega no fim de ano, resolve-se passar uma mão de tinta barata no muro e depois que chega o inverno, chove e a tinta cai, mostrando as texturas dos anos anteriores. Isto, na verdade, poderia ser comparado com as máscaras das representações sociais que o indivíduo usa. O desconforto se agrava na vida psíquica do indivíduo por ele não conseguir conciliar seu self com seu ideal. E neste mundo virtual de photoshop, o que não falta em revista masculina e em facebook, é a busca pelo self ideal. Quanto maior afastamento da própria realidade, gera incongruência entre o self real e o self ideal, e consequentemente, mais o indivíduo neurotiza, tornando-se infantil, dificultando o seu amadurecimento psicológico.


Para Rogers, o autoconhecimento só é viável quando se entra em contato com o self, sem subterfúgios ou dissimulações. entretanto, o problema reside neste fator. O Homem não consegue ser autêntico, ou como Rogers definiria, "congruente". Para ele, pessoas congruentes são mais felizes, pois aliam o autoconceito, o que sabem de si mesmas e se aceitam como são, com o discurso e o comportamento (experiência). Veja por exemplo, as crianças, como são congruentes com o que pensam e falam (FADIMAN). Também não se deve confundir, "aceitar-se" com 'zona de conforto', 'comodismo' ou em expressar a natureza primitiva, sem a mínima "regra de civilização", como bem definiu Freud. Atualmente, este comportamento é chamado de Síndrome de Gabriela, "eu nasci assim, eu vivi assim, e sou mesmo assim, vou sempre assim, Gabrieeeela..."


Já os incongruentes, negam, frequentemente, o que sentem. Isto se aplica tanto aos homens quanto às mulheres. Ciúme, por exemplo, é um sentimento que geralmente é trocado por quem o sente por outro estado emocional e recebe o nome de "cuidado" ou "zelo", porém o comportamento desconfiado, e que mal trata o ser amado não quer dizer cuidado, quer?


Muitas vezes, na infância, os incongruentes foram crianças reprimidas por seus pais ou educadores. Podem tornar-se indivíduos indecisos e com baixa na autoestima, não se achando capazes para suas conquistas. Quanto maior incongruência, portanto, aumenta-se a soma de conflitos psicológicos, em especial a ambivalência, como as do tipo, "eu odeio este emprego, mas preciso dele!",  ou ainda, "minha família me sufoca, mas preciso dela, porém meu desejo mesmo é o de chutar o pau da barraca..." Situações como estas, tendem a levar o indivíduo a neurotizar, aumentando a sua ansiedade, tornando-a patológica. Não se deve porém, considerar toda pessoa incongruente como sendo leviana ou consciente no que faz ou sente, pois ela pode simplesmente agir assim por falta de referencial. Eis o porquê da proposta da terapia ser centrada na Pessoa.


Neste contexto, também a religião cristã teve uma negativa contribuição a dar quando ensinou ao Homem "pecador" a ser "bonzinho" na Casa de Deus, voltar a pecar durante a semana e retornar arrependido no domingo para confessar. Criaram uma sociedade de ansiosos e de hipócritas, o que gerou um emaranhado de conflitos entre ser e aparentar, mas enquanto isto, escolhemos a melhor fantasia para brincar o carnaval durante todo o ano. Isto implica também dizer que, quanto mais máscaras usamos, mais nos tornamos alienados. "Isto é o que, em nossa opinião, constitui o estado de alienação de si. O indivíduo faltou com a sinceridade consigo mesmo (Rogers apud Fadiman, p. 231).


Quando então obrigamos alguém, ou este se sente pressionado a expressar o que não sente ou o pior, o oposto do que sente, além de se tratar de uma auto-anulação que custará caro ao seu psiquismo, neste momento surge o processo de alienação. Assim, o indivíduo criará uma falsa auto-imagem. Neste ritmo, ocorrerá o quê? Aumento da ansiedade, crises de pânico, atitudes incongruentes e além de neuróticos, podem gerar até comportamentos psicóticos. E não é assim que se comportam os psicóticos? Ou seja, quando então, ao usarem demais seus mecanismos de defesa, se fragilizam e terminam por buscar um reequilíbrio através de experiências nada saudáveis, especialmente as que foram objeto de frustração. É por isso então, que este ciclo torna-se repetitivo, viciante.


Então, para Rogers, o caminho é entrar em contato consigo, experienciar-se, abandonar a rigidez, de forma que em suas escolhas não haja incongruência entre valores e bem estar psíquico, a fim de que seu contato com o self seja algo prazeroso, uma experiência com o seu eu, sem tirar fotografias é claro.

Assim, diminuirão os conflitos, a ansiedade generalizada, os infelizes episódios de pânico, de insatisfação e frustração consigo.


BIBLIOGRAFIA
FADIMAN, James., FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. Editora Harbra: São paulo, 1986



domingo, 26 de outubro de 2014

Corrupção - você faz parte disso?

por Liszt Rangel
Se bem que o subtítulo deste artigo poderia ter sido, Corrupção - Crime ou tradição? Pois é... se for levado em conta que este assunto já era preocupante entre os gregos e os romanos, teremos mais motivos ainda nos dias de hoje para trazê-lo à tona. 

Para os romanos, jamais um administrador de uma província poderia passar muito tempo no mesmo cargo, caso contrário faria acordos sórdidos com a elite local e se envolveria em desvios de dinheiro, como foi o caso de Pilatos na Judeia e de Marco Antonio à frente das províncias no Mediterrâneo. Outra figura emblemática e ao mesmo tempo populista em seu tempo, foi Herodes, o Grande. Quando os judeus passaram por uma grande fome, o rei cliente de Roma que governava a Judeia, mandou dizer ao povo que se solidarizava com seu sofrimento e que também ficaria sem comer em seu palácio. Mas desde antes, já havia posto em leilão o cargo de sumo-sacerdote às famílias mais ricas de Jerusalém. Eis o porquê da família de Anás e Caifás ter demorado tanto no poder e gozado de tantos privilégios. 

Como se pode ver em um breve passeio histórico, a corrupção é verme que corrói, semelhante às traças que devoram o tecido novo. O problema, entretanto, se alastra desde que a corrupção passa a ser percebida como um fenômeno natural, assumindo as características de normal, banal e a tratamos com indiferença. E assim, este ato criminoso, além de ter sido banalizado e tornado parte da cultura, passa a integrar na conceituação da moderna sociologia, a nova "moral total flex". 

Quem já não ouviu tais frases "quando ninguém está vendo", ou "como está muito difícil e não tem outro jeito", ou "mas é claro, se fosse outra a situação, não haveria necessidade para tanto", ou ainda "eu não sei de nada", ou outra também absurda, "eu assinei sem ler"... A corrupção está em todos os setores da sociedade, e não é apenas um privilégio de países de terceiro mundo como o Brasil. 

Rússia, Itália, Japão, China, Haiti, Somália, Sudão, Venezuela, enfim, a corrupção tem história e a brasileira também. Mas será que aumentou a corrupção ou será que foi a percepção da população que aumentou? 

Os antigos republicanos do século XIX já se queixavam da corrupção no império. Não escaparam da corrupção figuras como Getúlio Vargas e alguns militares da ditadura também foram acusados de corrupção, sem esquecer do "Minha gente não me deixem só!", Fernando Collor que se elegeu como o caçador dos marajás e que não conseguiu terminar o mandato. E não se pode deixar de citar os mais recentes, alguns destes já se foram para o além, e outros que ainda estão entre nós graças à caridade da equipe do Sírio Libanês que insiste em curá-los e devolvê-los a nossa sociedade. 

Estes corruptos carregam os méritos de terem como parceiros uma sociedade que de tão corrupta que é, chega a perdoá-los, com o lema, "rouba, mas faz!". Que frase linda... chega até a me comover... Seria poética, se não fosse trágica! Porque me comovo apenas com as vítimas dessa corrupção, mas os "companheiro" não têm ideia disso, porque o único vermelho que veem é a da bandeira deles e não o do sangue que sai do seio de uma mãe que de tão desnutrida, não pode amamentar seu filho.

As leis que sempre são criadas em países como nosso, já arranjaram nova definição que antecede ao corrupto, é o transgressor. Muitos são transgressores, e não são corruptos. Então, eles são apenas transgressores! "Corruptos", mas transgressores... Sim, porque há também quem transgride, mas que não corrompe. Nossa que confusão!!! Mas deu para entender... afinal quem não entende é quem diz que não sabia de nada... E as leis terminam por criar mais transgressores que se tornam com o costume, corruptos.

Lembro do fusca 68 que meu pai dirigia, quando eu era garoto. Ele era tão velhinho que parecia o carro dos Flintstones. Não tinha o salão para pormos os pés. E por aquele grande alçapão que havia no carro, entrava uma ventilação natural tão gostosa... Na época, exigiam tanta coisa para se ter um carro, e me lembro bem de um tal de kit para primeiros socorros. A população foi obrigada a comprar. Deveríamos tê-lo no porta-luvas do veículo. Meu pai pagava todas as taxas, tudo estava em dia para poder rodar e tentava obedecer a todas as regras. Todavia, o guarda que nos parou naquele dia de sábado não queria nem fazer cumprir a lei, nem apenas transgredir. Após vistoriar o veículo de um ao outro canto, perguntando se tinha até buzina, disse ao meu pai: "vou multá-lo por poluição visual nas estradas, pois seu carro está cheio de ferrugem!"

Poluição visual??? O que é isso, meu Deus? Que loucura!!! Eu era um garoto, mas sabia que não podia ter uma lei dessas. Meu pai sorriu e lhe disse que podia aplicar a multa! E o guarda de trânsito, ainda insistiu, "posso aliviar se o senhor quiser... basta colaborar com o Natal dos meus filhos que eu libero!" Meu pai era alto, magro e tinha cabelos pretos, não caberia em uma roupa de Papai Noel!

Esta foi minha primeira experiência com a corrupção e logo cedo descobri que leis e mais leis não fazem o sistema funcionar. Sabe por que? Porque o sistema está podre! Talvez precisemos de uma lei que seja criada para que se cumpra todas as leis existentes. Ou se faz uma reforma política neste país, acabando com a reeleição destes profissionais da politicagem ou vamos todos para o quinto dos infernos! 

Se bem que eu não acredito em inferno, tão pouco os envolvidos nos escândalos do mensalão já que estão todos sendo liberados para cumprir pena em casa, graças à bondade dos deuses! E em breve todos eles estarão rindo da nossa cara amarela de comedores de rapadura... enquanto se deliciam num enorme faisão, enquanto você vai ver na noite de natal, aquelas mulheres parideiras que se apropriam até dos filhos das vizinhas para preencherem as ruas da sua cidade à espera dos que distribuem sopa e brinquedos usados... você dirige para jantar na casa da sua sogra, vai ouvir o jingle bells, pensando que o mundo está melhorando porque você pode este ano assistir a um jogo da copa, pode comprar um carro novo, popular, com zero de entrada e o saldo em 60 parcelas de R$ 989,25. E o vendedor lhe fez ainda acreditar que a taxa de juros é zero... 

Esta sociedade de consumo que dá esmolas e que seus governantes dão "bolsas", não é capaz de se privar de seu Iphone nem de sua bolsa Prada, ou de sua camisa Lacoste para vestir quem está com frio. As perspectivas não são nada agradáveis. Não sei nem o que comemoramos na noite de domingo de 26 de outubro. Eu não tenho nada a comemorar faz um tempinho... 

No mesmo tempo em que você lê minhas queixas, o dólar só aumenta, a indústria tem mais uma queda, há fuga de capital estrangeiro, dispara o risco Brasil, a Petrobrás tem suas ações desvalorizadas e a famigerada inflação volta galopando, tão veloz quanto o cavaleiro sem cabeça em sua lenda! Mas isto chamado Brasil, não é uma lenda, não é um pesadelo, é a minha, é a sua realidade. Bem como a realidade daquela economista de 57 anos, altamente qualificada que está desempregada, e que ainda teve que ouvir de Coração Valente, o cover do "Mel Gibson", em plena cadeia nacional que "ela precisa estudar no Senai, quem sabe no Pronatec se quiser arranjar um emprego". Só faltou Mel dizer que ela também vai ser colega de turma de Guido Mantega quando ele for demitido. 

Muito petróleo ainda vai jorrar neste governo e tomar as ruas da Pátria do Cruzeiro (por favor, sem menção alguma à utopia chamada Brasil Coração do Mundo...) Deixemos o fanatismo para os alienados! O produto que consumimos já está com a validade vencida, são os paradigmas e as crenças que estão velhas e carcomidas, e estas já não servem mais nas prateleiras deste país. Como dizia o Cazuza, "meus herois morreram de overdose!" E quem são os herois, salvadores de nosso Brasil, de nossa gente?

Um Robin-Hood às avessas? Uma militante que combateu a ditadura com assaltos? São esses nossos ídolos? Nossas fontes de inspiração? São os mesmos de ontem e que beijam os pés de outros ditadores? Interessante isto... Como qualquer brasileiro, sou contrário a qualquer violação dos direitos humanos ou a qualquer outra violação. Sou contra até o abuso de submeterem os Hamsters a serem obrigados a ficar girando naquela rodinha idiota que seus criadores retardados os colocam só para verem estourar o coraçãozinho desses pobres coitados... 

Voltando, então, à ditadura e deixando o pobre do hamster para lá...Odiamos a ditadura, não queremos nem ouvir falar nela, mas Robin e a Coração Valente (que Mel Gibson não saiba disso) só tem amigos ditadores. Não é incrível? Sem falar das mesmas medidas populistas do índio, Evo na Bolívia e do maluco do Chavez que passou o cargo de diretor do hospício ao Maduro.

Finalmente, quem são nossos líderes políticos? Quem nos restou? Oh que angústia pungente... é um drama shakespeareano: "to be or not to be, ficar calado ou falar, enfim, achei melhor escrever. Mas se não gostou, tem problema não, vai assistir Coração Valente, mas vou logo avisando... no final ele perde a cabeça!!!      

domingo, 19 de outubro de 2014

Sexo em Pompeia - do poder do falo ao lupanar

Pintura na parede, retrata os serviços das mulheres no Lupanar
por Liszt Rangel
Quem já visitou o sul da Itália, ou leu em algum livro ou assistiu documentários, deve ter conhecido ou ouvido falar de Nápoles, Capri, Herculano e a famosa Pompeia. Esta, mais uma vez, recentemente, inspirou um roteiro cinematográfico, "Pompeia". O filme não é nem uma obra prima, mas tem seus méritos por trazer à tona um importante acontecimento da história da Humanidade. Basicamente, ele narra um ardoroso romance entre um escravo celta e a filha de uma família aristocrata. O Vesúvio e a tragédia ocorrida na região, também recebem atenção, enquanto a narrativa central, num misto de amor e vingança se desenrola. 

A vida quotidiana da cidade é apresentada aqui e ali através de suas ruas movimentadas, e também não ficou de fora mesmo com rápidas cenas, a bela arquitetura de suas casas, o formato das ruas com o comércio dos pequenos restaurantes e das padarias. As famosas batalhas dos gladiadores também recebeu enfoque, afinal de contas qual província romana que privaria o povo desses espetáculos? Mesmo sem apresentar os famosos lupanares, o filme mostrou um pouco a adoração em torno do gladiador como objeto sexual. Vistos como homens viris, serviam como atrativos sexuais para mulheres ricas de Pompeia que os escolhiam como objetos expostos para uma noite de prazer.

A vida sexual de Pompeia e que não é apresentada no filme, não difere muito das demais localidades do império romano, mas talvez o enaltecimento que se tenha dado por parte dos turistas de uma Pompeia devassa, se dê pelos achados arqueológicos na cidade, até porque sexo é sexo e é praticado por todos os povos. Para tanto, basta lançar um olhar sobre outros lugares famosos pelo atrativo sexual, e logo ver-se-á que Pompeia fica bem atrás de algumas cidades na Índia, no Japão e na Tailândia que realizam festivais em comemoração ao pênis, possuem templos onde ele é adorado e cultuado não apenas como símbolo de poder, mas também como exaltação à vida sexual, sem deixar de citar, é claro, o famoso Kama Sutra

Puritanismos* à parte, talvez a perspectiva ocidental também esteja impregnada pela conceituação cristã que sempre associa o sexo ao pecado e à perda do Paraíso e da felicidade eterna. Se bem que nesta relação pecado versus salvação não se sabe quem foi mais pecador, a família dos Bórgias que inundou a Igreja Católica de corrupção, perversões sexuais e luxúria nos séculos XV e XVI ou se Messalina, esposa do imperador Cláudio (41-54 d.C), por ter feito sexo durante um dia e uma noite com 25 homens, quando então se dispôs a derrotar em uma orgia sexual a maior prostituta de Roma. E a derrotou! (PLÍNIO, História Natural, 10.172).

Dentro dos achados arqueológicos em Pompeia, o que mais atrai a curiosidade da gente alegre e festeira de diversos cantos do mundo, realmente, é o sexo. A atração por este tema é tão intensa e sedutora que fez você mesmo, caro leitor, que agora devora este artigo, criar talvez, uma imensa expectativa do que virá linha após linha. Mas não se iluda, pois este objeto de estudo diante de seus olhos, trará como finalidade maior, demonstrar a visão romana acerca do falo, mesmo observado na representação do pênis e sabendo que quando se trata de sexo, tudo é possível, até a área das perversões sexuais, estudada por Sigmund Freud. Todavia, o capítulo das perversões terá espaço em uma outra abordagem.   

Esta imagem também aparece nas casas
No início do século XIX, uma placa considerada obscena pelo governo italiano e juntamente com outros objetos fálicos, foi posta sob sigilo no "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu de Arqueologia de Nápoles. A referida placa é a que se encontra ao lado, foi encontrada sobre o forno de uma padaria e traz a inscrição em latim, "A felicidade mora aqui". Era usada para afastar os maus espíritos do estabelecimento comercial.

Parece uma piada, mas não é! E a ironia é maior ainda, quando há poucos anos, este acervo pertencente aos achados arqueológicos das escavações em Pompeia e na região, veio à público, justamente durante a última gestão (2008-2011), do primeiro ministro italiano, Silvio Berluscone, envolvido em corrupção e escândalos sexuais. Será que foi coincidência ou obra do acaso? 

Deixando de lado Berluscone, e voltando então para Freud, que sem dúvidas é mais chocante, porém mais instrutivo, no que diz respeito a questão do pênis e da vagina, ele revisou por várias vezes suas teorias acerca da sexualidade feminina e masculina, e apesar de considerar o assunto por demais complexo e que não poderia dar a palavra final, ele dirigiu sua análise para algo além das diferenças entre as formas anatômicas. Mostrou com isso a ligação entre poder e castração relacionados à menina e ao menino. Na linha deste pensamento, chegou a dizer que as mulheres invejam os homens por não terem o pênis, e também analisou a relação do ódio da filha para com a figura materna. "Observa-se com facilidade que as meninas compartilham plenamente a opinião que seus irmãos têm do pênis. Elas desenvolvem um vivo interesse por essa parte do corpo masculino, interesse que é logo seguido pela inveja" (Freud, 1976, [1908], p. 221).

O que se deve entender aqui em uma análise histórica e porque não, até em uma perspectiva da própria Psicanálise, é que o falo não deve ser confundido ou simplesmente reduzido ao órgão genital masculino, mas ele está sim, associado a toda uma relação simbólica. No caso de Pompeia, as fachadas das casas, o calçamento das ruas, a intimidade dos estabelecimentos comerciais como as padarias possuíam imagens de pênis, algumas vezes desenhado, outras em relevo na parede, no chão ou até em forma de sino dos ventos, com asas, para decorar e trazer oportunidade de enriquecimento. Uma outra referência ao falo vem com a imagem do deus Príapo que com seu enorme pênis ereto, sua imagem era colocada em meio às plantações ao lado de frases nada agradáveis, carregadas de ameaças do que o deus iria fazer com os meninos e as meninas que tentassem roubar as frutas.

Verifica-se assim, que o falo (pênis simbólico) carrega outros significados, ou seja, não se trata apenas de "poder" relacionado à virilidade masculina, mas de algo ligado à ambição, ao privilégio de receber a sorte, sem deixar de citar que para o pensamento da época, o falo teria o poder de afastar até os maus espíritos.

Porém, seria inocência negar que Pompeia respirava sexo. No dia da erupção do vulcão Vesúvio, 24 de agosto de 79, a cidade tinha entre 10 e 15 mil habitantes (FUNARI, 2003) e 25 prostíbulos, os conhecidos lupanares.
Um dos quartos do piso
inferior de um Lupanar
Lupanar é uma expressão que vem do latim e significa "covil de lobas". O mais interessante deles fica na ruela do Lupanar, localizado bem de esquina, num cruzamento entre duas ruas secundárias. Ele possuía dez alcovas que se distribuíam entre o piso térreo e o primeiro andar. Pelos grafites encontrados nos prostíbulos e que sobreviveram até hoje, vê-se pela escrita que a clientela era bem diversificada. A estrutura do local também ajuda a identificar a classe social dos frequentadores. Os andares de cima tinham camas melhores e mais espaçosas e eram para clientes ricos e as do piso inferior eram apertadas e mais expostas. A cama era feita de cimento e recebia um saco com preenchimento nada muito higiênico, e ali eram espalhadas algumas almofadas. As paredes retratavam cenas de sexo como se fossem propagandas do que as mulheres ali vendiam aos que procuravam prazer.

Portanto, Pompeia não é bem aquilo que a nossa imaginação elabora, tão pouco o que o cinema retrata. Pompeia foi uma província romana que não pode ser vista como uma Dubai dos tempos modernos, muito menos uma Sodoma bíblica e que foi construída apenas para que os pagãos curtissem suas férias. A província enfrentava sérias questões sociais e econômicas, e refletia uma realidade bem difícil, mas isto já faz parte de uma outra história...


* Puritanismo - Segundo o dicionário histórico de religiões, foi um movimento religioso que surgiu na Inglaterra no reinado de Elisabete I. Depois, ao longo do século XVII, com a formação da América, muitos puritanos desembarcaram nos EUA com o objetivo, segundo eles, de ajudar na formação moral daquele país. Os chamados "pais peregrinos" fundaram a colônia de Plymouth e com a presença deles o estado de Massachusetts tornou-se teocrático e puritano. Eles viviam sob o regime da intolerância, e os ditos "santos" da Igreja além de levarem uma vida isolada, respondiam até pelos direitos políticos. 

** FOTOS - LISZT RANGEL

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREUD, Sigmund (1976). Sobre as Teorias Sexuais das Crianças. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., vol 9, p. 211-230). Rio de Janeiro. Imago (trabalho original publicado em 1908). 

FUNARI, Pedro Paulo. A Vida Quotidiana na Roma Antiga. São Paulo: Annablume Editora, 2003.