segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carl Rogers e o Self

Carl Rogers criou  a terapia
centrada no cliente
por Liszt Rangel
Ao contrário do que se costuma pensar, a palavra self tão usada no momento por celebridades e ilustres anônimos não tem qualquer relação com o ato de tirar a própria foto. A expressão inglesa pode significar, "Eu", "si mesmo", "personalidade", "natureza" e até "caráter". Sendo assim, tirar um self significa fotografar a própria imagem, porém a fotografia assim mesmo, não captará seu self.


Para Carl Rogers que propôs uma psicoterapia numa perspectiva centrada no cliente, "o self não é uma entidade estável, imutável" (Fadiman, p. 226). Ou seja, para ele o self é um processo constante e não pode ser comparado a uma fotografia que apenas congela o momento. Rogers queria que o indivíduo entrasse em contato com sua identidade, iniciando assim seu autoconhecimento e de forma contínua.


Por outro lado, o autoconhecimento não deve ser confundido com a tal da Reforma Íntima. Reforma se faz em casa e apto, até na garagem, ou quando chega no fim de ano, resolve-se passar uma mão de tinta barata no muro e depois que chega o inverno, chove e a tinta cai, mostrando as texturas dos anos anteriores. Isto, na verdade, poderia ser comparado com as máscaras das representações sociais que o indivíduo usa. O desconforto se agrava na vida psíquica do indivíduo por ele não conseguir conciliar seu self com seu ideal. E neste mundo virtual de photoshop, o que não falta em revista masculina e em facebook, é a busca pelo self ideal. Quanto maior afastamento da própria realidade, gera incongruência entre o self real e o self ideal, e consequentemente, mais o indivíduo neurotiza, tornando-se infantil, dificultando o seu amadurecimento psicológico.


Para Rogers, o autoconhecimento só é viável quando se entra em contato com o self, sem subterfúgios ou dissimulações. entretanto, o problema reside neste fator. O Homem não consegue ser autêntico, ou como Rogers definiria, "congruente". Para ele, pessoas congruentes são mais felizes, pois aliam o autoconceito, o que sabem de si mesmas e se aceitam como são, com o discurso e o comportamento (experiência). Veja por exemplo, as crianças, como são congruentes com o que pensam e falam (FADIMAN). Também não se deve confundir, "aceitar-se" com 'zona de conforto', 'comodismo' ou em expressar a natureza primitiva, sem a mínima "regra de civilização", como bem definiu Freud. Atualmente, este comportamento é chamado de Síndrome de Gabriela, "eu nasci assim, eu vivi assim, e sou mesmo assim, vou sempre assim, Gabrieeeela..."


Já os incongruentes, negam, frequentemente, o que sentem. Isto se aplica tanto aos homens quanto às mulheres. Ciúme, por exemplo, é um sentimento que geralmente é trocado por quem o sente por outro estado emocional e recebe o nome de "cuidado" ou "zelo", porém o comportamento desconfiado, e que mal trata o ser amado não quer dizer cuidado, quer?


Muitas vezes, na infância, os incongruentes foram crianças reprimidas por seus pais ou educadores. Podem tornar-se indivíduos indecisos e com baixa na autoestima, não se achando capazes para suas conquistas. Quanto maior incongruência, portanto, aumenta-se a soma de conflitos psicológicos, em especial a ambivalência, como as do tipo, "eu odeio este emprego, mas preciso dele!",  ou ainda, "minha família me sufoca, mas preciso dela, porém meu desejo mesmo é o de chutar o pau da barraca..." Situações como estas, tendem a levar o indivíduo a neurotizar, aumentando a sua ansiedade, tornando-a patológica. Não se deve porém, considerar toda pessoa incongruente como sendo leviana ou consciente no que faz ou sente, pois ela pode simplesmente agir assim por falta de referencial. Eis o porquê da proposta da terapia ser centrada na Pessoa.


Neste contexto, também a religião cristã teve uma negativa contribuição a dar quando ensinou ao Homem "pecador" a ser "bonzinho" na Casa de Deus, voltar a pecar durante a semana e retornar arrependido no domingo para confessar. Criaram uma sociedade de ansiosos e de hipócritas, o que gerou um emaranhado de conflitos entre ser e aparentar, mas enquanto isto, escolhemos a melhor fantasia para brincar o carnaval durante todo o ano. Isto implica também dizer que, quanto mais máscaras usamos, mais nos tornamos alienados. "Isto é o que, em nossa opinião, constitui o estado de alienação de si. O indivíduo faltou com a sinceridade consigo mesmo (Rogers apud Fadiman, p. 231).


Quando então obrigamos alguém, ou este se sente pressionado a expressar o que não sente ou o pior, o oposto do que sente, além de se tratar de uma auto-anulação que custará caro ao seu psiquismo, neste momento surge o processo de alienação. Assim, o indivíduo criará uma falsa auto-imagem. Neste ritmo, ocorrerá o quê? Aumento da ansiedade, crises de pânico, atitudes incongruentes e além de neuróticos, podem gerar até comportamentos psicóticos. E não é assim que se comportam os psicóticos? Ou seja, quando então, ao usarem demais seus mecanismos de defesa, se fragilizam e terminam por buscar um reequilíbrio através de experiências nada saudáveis, especialmente as que foram objeto de frustração. É por isso então, que este ciclo torna-se repetitivo, viciante.


Então, para Rogers, o caminho é entrar em contato consigo, experienciar-se, abandonar a rigidez, de forma que em suas escolhas não haja incongruência entre valores e bem estar psíquico, a fim de que seu contato com o self seja algo prazeroso, uma experiência com o seu eu, sem tirar fotografias é claro.

Assim, diminuirão os conflitos, a ansiedade generalizada, os infelizes episódios de pânico, de insatisfação e frustração consigo.


BIBLIOGRAFIA
FADIMAN, James., FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. Editora Harbra: São paulo, 1986



domingo, 26 de outubro de 2014

Corrupção - você faz parte disso?

por Liszt Rangel
Se bem que o subtítulo deste artigo poderia ter sido, Corrupção - Crime ou tradição? Pois é... se for levado em conta que este assunto já era preocupante entre os gregos e os romanos, teremos mais motivos ainda nos dias de hoje para trazê-lo à tona. 

Para os romanos, jamais um administrador de uma província poderia passar muito tempo no mesmo cargo, caso contrário faria acordos sórdidos com a elite local e se envolveria em desvios de dinheiro, como foi o caso de Pilatos na Judeia e de Marco Antonio à frente das províncias no Mediterrâneo. Outra figura emblemática e ao mesmo tempo populista em seu tempo, foi Herodes, o Grande. Quando os judeus passaram por uma grande fome, o rei cliente de Roma que governava a Judeia, mandou dizer ao povo que se solidarizava com seu sofrimento e que também ficaria sem comer em seu palácio. Mas desde antes, já havia posto em leilão o cargo de sumo-sacerdote às famílias mais ricas de Jerusalém. Eis o porquê da família de Anás e Caifás ter demorado tanto no poder e gozado de tantos privilégios. 

Como se pode ver em um breve passeio histórico, a corrupção é verme que corrói, semelhante às traças que devoram o tecido novo. O problema, entretanto, se alastra desde que a corrupção passa a ser percebida como um fenômeno natural, assumindo as características de normal, banal e a tratamos com indiferença. E assim, este ato criminoso, além de ter sido banalizado e tornado parte da cultura, passa a integrar na conceituação da moderna sociologia, a nova "moral total flex". 

Quem já não ouviu tais frases "quando ninguém está vendo", ou "como está muito difícil e não tem outro jeito", ou "mas é claro, se fosse outra a situação, não haveria necessidade para tanto", ou ainda "eu não sei de nada", ou outra também absurda, "eu assinei sem ler"... A corrupção está em todos os setores da sociedade, e não é apenas um privilégio de países de terceiro mundo como o Brasil. 

Rússia, Itália, Japão, China, Haiti, Somália, Sudão, Venezuela, enfim, a corrupção tem história e a brasileira também. Mas será que aumentou a corrupção ou será que foi a percepção da população que aumentou? 

Os antigos republicanos do século XIX já se queixavam da corrupção no império. Não escaparam da corrupção figuras como Getúlio Vargas e alguns militares da ditadura também foram acusados de corrupção, sem esquecer do "Minha gente não me deixem só!", Fernando Collor que se elegeu como o caçador dos marajás e que não conseguiu terminar o mandato. E não se pode deixar de citar os mais recentes, alguns destes já se foram para o além, e outros que ainda estão entre nós graças à caridade da equipe do Sírio Libanês que insiste em curá-los e devolvê-los a nossa sociedade. 

Estes corruptos carregam os méritos de terem como parceiros uma sociedade que de tão corrupta que é, chega a perdoá-los, com o lema, "rouba, mas faz!". Que frase linda... chega até a me comover... Seria poética, se não fosse trágica! Porque me comovo apenas com as vítimas dessa corrupção, mas os "companheiro" não têm ideia disso, porque o único vermelho que veem é a da bandeira deles e não o do sangue que sai do seio de uma mãe que de tão desnutrida, não pode amamentar seu filho.

As leis que sempre são criadas em países como nosso, já arranjaram nova definição que antecede ao corrupto, é o transgressor. Muitos são transgressores, e não são corruptos. Então, eles são apenas transgressores! "Corruptos", mas transgressores... Sim, porque há também quem transgride, mas que não corrompe. Nossa que confusão!!! Mas deu para entender... afinal quem não entende é quem diz que não sabia de nada... E as leis terminam por criar mais transgressores que se tornam com o costume, corruptos.

Lembro do fusca 68 que meu pai dirigia, quando eu era garoto. Ele era tão velhinho que parecia o carro dos Flintstones. Não tinha o salão para pormos os pés. E por aquele grande alçapão que havia no carro, entrava uma ventilação natural tão gostosa... Na época, exigiam tanta coisa para se ter um carro, e me lembro bem de um tal de kit para primeiros socorros. A população foi obrigada a comprar. Deveríamos tê-lo no porta-luvas do veículo. Meu pai pagava todas as taxas, tudo estava em dia para poder rodar e tentava obedecer a todas as regras. Todavia, o guarda que nos parou naquele dia de sábado não queria nem fazer cumprir a lei, nem apenas transgredir. Após vistoriar o veículo de um ao outro canto, perguntando se tinha até buzina, disse ao meu pai: "vou multá-lo por poluição visual nas estradas, pois seu carro está cheio de ferrugem!"

Poluição visual??? O que é isso, meu Deus? Que loucura!!! Eu era um garoto, mas sabia que não podia ter uma lei dessas. Meu pai sorriu e lhe disse que podia aplicar a multa! E o guarda de trânsito, ainda insistiu, "posso aliviar se o senhor quiser... basta colaborar com o Natal dos meus filhos que eu libero!" Meu pai era alto, magro e tinha cabelos pretos, não caberia em uma roupa de Papai Noel!

Esta foi minha primeira experiência com a corrupção e logo cedo descobri que leis e mais leis não fazem o sistema funcionar. Sabe por que? Porque o sistema está podre! Talvez precisemos de uma lei que seja criada para que se cumpra todas as leis existentes. Ou se faz uma reforma política neste país, acabando com a reeleição destes profissionais da politicagem ou vamos todos para o quinto dos infernos! 

Se bem que eu não acredito em inferno, tão pouco os envolvidos nos escândalos do mensalão já que estão todos sendo liberados para cumprir pena em casa, graças à bondade dos deuses! E em breve todos eles estarão rindo da nossa cara amarela de comedores de rapadura... enquanto se deliciam num enorme faisão, enquanto você vai ver na noite de natal, aquelas mulheres parideiras que se apropriam até dos filhos das vizinhas para preencherem as ruas da sua cidade à espera dos que distribuem sopa e brinquedos usados... você dirige para jantar na casa da sua sogra, vai ouvir o jingle bells, pensando que o mundo está melhorando porque você pode este ano assistir a um jogo da copa, pode comprar um carro novo, popular, com zero de entrada e o saldo em 60 parcelas de R$ 989,25. E o vendedor lhe fez ainda acreditar que a taxa de juros é zero... 

Esta sociedade de consumo que dá esmolas e que seus governantes dão "bolsas", não é capaz de se privar de seu Iphone nem de sua bolsa Prada, ou de sua camisa Lacoste para vestir quem está com frio. As perspectivas não são nada agradáveis. Não sei nem o que comemoramos na noite de domingo de 26 de outubro. Eu não tenho nada a comemorar faz um tempinho... 

No mesmo tempo em que você lê minhas queixas, o dólar só aumenta, a indústria tem mais uma queda, há fuga de capital estrangeiro, dispara o risco Brasil, a Petrobrás tem suas ações desvalorizadas e a famigerada inflação volta galopando, tão veloz quanto o cavaleiro sem cabeça em sua lenda! Mas isto chamado Brasil, não é uma lenda, não é um pesadelo, é a minha, é a sua realidade. Bem como a realidade daquela economista de 57 anos, altamente qualificada que está desempregada, e que ainda teve que ouvir de Coração Valente, o cover do "Mel Gibson", em plena cadeia nacional que "ela precisa estudar no Senai, quem sabe no Pronatec se quiser arranjar um emprego". Só faltou Mel dizer que ela também vai ser colega de turma de Guido Mantega quando ele for demitido. 

Muito petróleo ainda vai jorrar neste governo e tomar as ruas da Pátria do Cruzeiro (por favor, sem menção alguma à utopia chamada Brasil Coração do Mundo...) Deixemos o fanatismo para os alienados! O produto que consumimos já está com a validade vencida, são os paradigmas e as crenças que estão velhas e carcomidas, e estas já não servem mais nas prateleiras deste país. Como dizia o Cazuza, "meus herois morreram de overdose!" E quem são os herois, salvadores de nosso Brasil, de nossa gente?

Um Robin-Hood às avessas? Uma militante que combateu a ditadura com assaltos? São esses nossos ídolos? Nossas fontes de inspiração? São os mesmos de ontem e que beijam os pés de outros ditadores? Interessante isto... Como qualquer brasileiro, sou contrário a qualquer violação dos direitos humanos ou a qualquer outra violação. Sou contra até o abuso de submeterem os Hamsters a serem obrigados a ficar girando naquela rodinha idiota que seus criadores retardados os colocam só para verem estourar o coraçãozinho desses pobres coitados... 

Voltando, então, à ditadura e deixando o pobre do hamster para lá...Odiamos a ditadura, não queremos nem ouvir falar nela, mas Robin e a Coração Valente (que Mel Gibson não saiba disso) só tem amigos ditadores. Não é incrível? Sem falar das mesmas medidas populistas do índio, Evo na Bolívia e do maluco do Chavez que passou o cargo de diretor do hospício ao Maduro.

Finalmente, quem são nossos líderes políticos? Quem nos restou? Oh que angústia pungente... é um drama shakespeareano: "to be or not to be, ficar calado ou falar, enfim, achei melhor escrever. Mas se não gostou, tem problema não, vai assistir Coração Valente, mas vou logo avisando... no final ele perde a cabeça!!!      

domingo, 19 de outubro de 2014

Sexo em Pompeia - do poder do falo ao lupanar

Pintura na parede, retrata os serviços das mulheres no Lupanar
por Liszt Rangel
Quem já visitou o sul da Itália, ou leu em algum livro ou assistiu documentários, deve ter conhecido ou ouvido falar de Nápoles, Capri, Herculano e a famosa Pompeia. Esta, mais uma vez, recentemente, inspirou um roteiro cinematográfico, "Pompeia". O filme não é nem uma obra prima, mas tem seus méritos por trazer à tona um importante acontecimento da história da Humanidade. Basicamente, ele narra um ardoroso romance entre um escravo celta e a filha de uma família aristocrata. O Vesúvio e a tragédia ocorrida na região, também recebem atenção, enquanto a narrativa central, num misto de amor e vingança se desenrola. 

A vida quotidiana da cidade é apresentada aqui e ali através de suas ruas movimentadas, e também não ficou de fora mesmo com rápidas cenas, a bela arquitetura de suas casas, o formato das ruas com o comércio dos pequenos restaurantes e das padarias. As famosas batalhas dos gladiadores também recebeu enfoque, afinal de contas qual província romana que privaria o povo desses espetáculos? Mesmo sem apresentar os famosos lupanares, o filme mostrou um pouco a adoração em torno do gladiador como objeto sexual. Vistos como homens viris, serviam como atrativos sexuais para mulheres ricas de Pompeia que os escolhiam como objetos expostos para uma noite de prazer.

A vida sexual de Pompeia e que não é apresentada no filme, não difere muito das demais localidades do império romano, mas talvez o enaltecimento que se tenha dado por parte dos turistas de uma Pompeia devassa, se dê pelos achados arqueológicos na cidade, até porque sexo é sexo e é praticado por todos os povos. Para tanto, basta lançar um olhar sobre outros lugares famosos pelo atrativo sexual, e logo ver-se-á que Pompeia fica bem atrás de algumas cidades na Índia, no Japão e na Tailândia que realizam festivais em comemoração ao pênis, possuem templos onde ele é adorado e cultuado não apenas como símbolo de poder, mas também como exaltação à vida sexual, sem deixar de citar, é claro, o famoso Kama Sutra

Puritanismos* à parte, talvez a perspectiva ocidental também esteja impregnada pela conceituação cristã que sempre associa o sexo ao pecado e à perda do Paraíso e da felicidade eterna. Se bem que nesta relação pecado versus salvação não se sabe quem foi mais pecador, a família dos Bórgias que inundou a Igreja Católica de corrupção, perversões sexuais e luxúria nos séculos XV e XVI ou se Messalina, esposa do imperador Cláudio (41-54 d.C), por ter feito sexo durante um dia e uma noite com 25 homens, quando então se dispôs a derrotar em uma orgia sexual a maior prostituta de Roma. E a derrotou! (PLÍNIO, História Natural, 10.172).

Dentro dos achados arqueológicos em Pompeia, o que mais atrai a curiosidade da gente alegre e festeira de diversos cantos do mundo, realmente, é o sexo. A atração por este tema é tão intensa e sedutora que fez você mesmo, caro leitor, que agora devora este artigo, criar talvez, uma imensa expectativa do que virá linha após linha. Mas não se iluda, pois este objeto de estudo diante de seus olhos, trará como finalidade maior, demonstrar a visão romana acerca do falo, mesmo observado na representação do pênis e sabendo que quando se trata de sexo, tudo é possível, até a área das perversões sexuais, estudada por Sigmund Freud. Todavia, o capítulo das perversões terá espaço em uma outra abordagem.   

Esta imagem também aparece nas casas
No início do século XIX, uma placa considerada obscena pelo governo italiano e juntamente com outros objetos fálicos, foi posta sob sigilo no "Gabinete de Objetos Obscenos" do Museu de Arqueologia de Nápoles. A referida placa é a que se encontra ao lado, foi encontrada sobre o forno de uma padaria e traz a inscrição em latim, "A felicidade mora aqui". Era usada para afastar os maus espíritos do estabelecimento comercial.

Parece uma piada, mas não é! E a ironia é maior ainda, quando há poucos anos, este acervo pertencente aos achados arqueológicos das escavações em Pompeia e na região, veio à público, justamente durante a última gestão (2008-2011), do primeiro ministro italiano, Silvio Berluscone, envolvido em corrupção e escândalos sexuais. Será que foi coincidência ou obra do acaso? 

Deixando de lado Berluscone, e voltando então para Freud, que sem dúvidas é mais chocante, porém mais instrutivo, no que diz respeito a questão do pênis e da vagina, ele revisou por várias vezes suas teorias acerca da sexualidade feminina e masculina, e apesar de considerar o assunto por demais complexo e que não poderia dar a palavra final, ele dirigiu sua análise para algo além das diferenças entre as formas anatômicas. Mostrou com isso a ligação entre poder e castração relacionados à menina e ao menino. Na linha deste pensamento, chegou a dizer que as mulheres invejam os homens por não terem o pênis, e também analisou a relação do ódio da filha para com a figura materna. "Observa-se com facilidade que as meninas compartilham plenamente a opinião que seus irmãos têm do pênis. Elas desenvolvem um vivo interesse por essa parte do corpo masculino, interesse que é logo seguido pela inveja" (Freud, 1976, [1908], p. 221).

O que se deve entender aqui em uma análise histórica e porque não, até em uma perspectiva da própria Psicanálise, é que o falo não deve ser confundido ou simplesmente reduzido ao órgão genital masculino, mas ele está sim, associado a toda uma relação simbólica. No caso de Pompeia, as fachadas das casas, o calçamento das ruas, a intimidade dos estabelecimentos comerciais como as padarias possuíam imagens de pênis, algumas vezes desenhado, outras em relevo na parede, no chão ou até em forma de sino dos ventos, com asas, para decorar e trazer oportunidade de enriquecimento. Uma outra referência ao falo vem com a imagem do deus Príapo que com seu enorme pênis ereto, sua imagem era colocada em meio às plantações ao lado de frases nada agradáveis, carregadas de ameaças do que o deus iria fazer com os meninos e as meninas que tentassem roubar as frutas.

Verifica-se assim, que o falo (pênis simbólico) carrega outros significados, ou seja, não se trata apenas de "poder" relacionado à virilidade masculina, mas de algo ligado à ambição, ao privilégio de receber a sorte, sem deixar de citar que para o pensamento da época, o falo teria o poder de afastar até os maus espíritos.

Porém, seria inocência negar que Pompeia respirava sexo. No dia da erupção do vulcão Vesúvio, 24 de agosto de 79, a cidade tinha entre 10 e 15 mil habitantes (FUNARI, 2003) e 25 prostíbulos, os conhecidos lupanares.
Um dos quartos do piso
inferior de um Lupanar
Lupanar é uma expressão que vem do latim e significa "covil de lobas". O mais interessante deles fica na ruela do Lupanar, localizado bem de esquina, num cruzamento entre duas ruas secundárias. Ele possuía dez alcovas que se distribuíam entre o piso térreo e o primeiro andar. Pelos grafites encontrados nos prostíbulos e que sobreviveram até hoje, vê-se pela escrita que a clientela era bem diversificada. A estrutura do local também ajuda a identificar a classe social dos frequentadores. Os andares de cima tinham camas melhores e mais espaçosas e eram para clientes ricos e as do piso inferior eram apertadas e mais expostas. A cama era feita de cimento e recebia um saco com preenchimento nada muito higiênico, e ali eram espalhadas algumas almofadas. As paredes retratavam cenas de sexo como se fossem propagandas do que as mulheres ali vendiam aos que procuravam prazer.

Portanto, Pompeia não é bem aquilo que a nossa imaginação elabora, tão pouco o que o cinema retrata. Pompeia foi uma província romana que não pode ser vista como uma Dubai dos tempos modernos, muito menos uma Sodoma bíblica e que foi construída apenas para que os pagãos curtissem suas férias. A província enfrentava sérias questões sociais e econômicas, e refletia uma realidade bem difícil, mas isto já faz parte de uma outra história...


* Puritanismo - Segundo o dicionário histórico de religiões, foi um movimento religioso que surgiu na Inglaterra no reinado de Elisabete I. Depois, ao longo do século XVII, com a formação da América, muitos puritanos desembarcaram nos EUA com o objetivo, segundo eles, de ajudar na formação moral daquele país. Os chamados "pais peregrinos" fundaram a colônia de Plymouth e com a presença deles o estado de Massachusetts tornou-se teocrático e puritano. Eles viviam sob o regime da intolerância, e os ditos "santos" da Igreja além de levarem uma vida isolada, respondiam até pelos direitos políticos. 

** FOTOS - LISZT RANGEL

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREUD, Sigmund (1976). Sobre as Teorias Sexuais das Crianças. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., vol 9, p. 211-230). Rio de Janeiro. Imago (trabalho original publicado em 1908). 

FUNARI, Pedro Paulo. A Vida Quotidiana na Roma Antiga. São Paulo: Annablume Editora, 2003.      

domingo, 12 de outubro de 2014

Morte - Um caso de vitória!

por Liszt Rangel
Apesar de fazer muito tempo... Eu nunca mais esqueci de dona Juliete, 68. Ela chegou e se apresentou após uma palestra. Pelos olhinhos inquietantes, estava querendo muito falar. Mas depois que começou a sua narrativa, o seu rosto pesou e foi visível a sua tristeza. Fora diagnosticada com câncer na tireoide, um tumor do tamanho de um pequeno limão. Os médicos não lhe deram mais do que entre 4 e 8 meses, após tratamento. Foi aí que ela me perguntou:
- Que faço?
Eu lhe respondi: - o melhor!
Ela me disse: - Não sei o que é o melhor?
Eu lhe esclareci: - Aquilo que nos faz bem, que nos deixa leves, livres...
- Mas não há mais tempo, - obtemperou ela.
Eu lhe respondi sorrindo, para provocá-la (sim, porque, muitas vezes, as pessoas precisam ser provocadas através de um choque), - A senhora ainda tem quatro meses, e eu posso ter apenas doze horas!
- Como assim? - indagou ela.
- Posso sair daqui e sofrer um acidente de carro ou infarto, esclareci.
- Meu Deus, que horror!, falou ela
- A diferença entre nós dois, dona Juliete, é que a senhora já comprou o bilhete do trem e daqui há quatro meses se o trem não atrasar, a senhora vai viajar. Quanto a mim... não sei quando vou, serei pego de surpresa e isto não é bom, porque chegamos na estação sem mala alguma.

Ela pôs-se a chorar. Quando parou, disse-me que tinha duas grandes mágoas da vida. 
"Eis o problema, - pensei comigo - guardamos comida podre na geladeira e depois perguntamos porque adoecemos. É claro comemos coisas estragas por muito tempo, o que há de se esperar?"

Então, perguntei:
- Quais mágoas?
A primeira, foi relacionada ao marido que a traía com a sua melhor amiga! Durou mais de 30 anos.
A segunda mágoa era da filha que a mal tratava em casa...

Eu fiquei calado, pensando o que diria àquela mulher que podia ser minha mãe. Sabe, não é fácil falar a quem está perdendo na vida, porém admito que o pior é não mostrar ao outro o quanto ele está perdendo, o desafio é maior, é tentar apresentar a ele uma nova perspectiva de vitória, aprender a se tornar melhor com a dor ao invés de arrastar toda a família para uma crise existencial e repetitiva de doenças. Para mim, é tudo ou nada! Não aceito pessoas indiferentes! Como diria o estranho Paulo de Tarso, "quente ou frio, nunca morno!" Então, não dá para ficar assistindo e ainda aplaudindo o espetáculo do horror!!! Ela estava doente e não importava agora a origem de sua dor, apesar de haver a possibilidade na mágoa, na simbologia do "nó preso na garganta" estar relacionada à doença. Segundo, a psicossomática esta energia retida, traumatiza o corpo, adoece e pode matar!

Então, tomei coragem e lhe perguntei: - a senhora acredita em algo em sua vida?
Ela me disse que sim, que acreditava em uma vida além da morte. As pessoas precisam ser respeitas em suas crenças e convicções, até porque muitas vezes foi nelas que elas se agarraram e até se alienaram. 

Aproveitando esta deixa, falei: 
- Bem, para a senhora, se a vida continua, o que nos interessa agora e no além não é porque a senhora sofre, mas como a senhora vai enfrentar a dor e a morte. Porque sejamos honestos dona Juliete, aqui ou acolá a senhora deve se preocupar com o COMO  e não com o porquê. Se eu e a senhora vamos morrer, então como ficaremos no mundo dos mortos é o que nos interessa. A senhora não acha? Ela balançou positivamente a cabeça...

Agora foi a vez dela me perguntar:
- E como devo então me livrar deste peso da mágoa?
- Primeiramente, respondi-lhe, dialogue com quem lhe magoou. Exponha a quem lhe fez mal, suas queixas para dar ao outro a oportunidade de seu arrependimento e de sua tranquilidade ao abrir-se para o perdão. Caso ele não lhe perdoe, o problema será dele, mas a senhora seguirá mais leve. É preciso se perdoar, dar-se uma chance de verdade para ser feliz e não aquela pela metade em que se fica sabotando.

Ela então, me deixou em uma encruzilhada ao me dizer:
- Mas meu marido já morreu!!!

Uiii, gelei! Mas logo puxei a sua convicção de volta e lhe disse:
- Então, se a senhora sabe que a morte não existe, está na hora das preces e orações que a senhora faz, e nelas começar a dialogar com ele, não ruminando o passado, mas tentando uma reconciliação, uma diálogo honesto, com seu coração transparente.

Este é um grande problema que temos. Maliciosos, não somos mais como as crianças, transparentes. Estamos acostumados a ser vistos com crítica e com isso, passamos a representar. Então, lhe dei um reforço na ação:
- Converse com seu Antonio, dona Juliete, pois será melhor que a senhora fale com ele agora do que após a morte. E ele se apresentar na estação para receber a senhora descendo do trem...???

Ela sorriu e me disse, Deus me livre...
Porém ela prometeu se esforçar... Iria dialogar com a filha problemática, falar-lhe das mágoas..., ou seja, ela iria libertar-se das amarras do ressentimento. E eu fiquei torcendo por ela. Porque torcer pela vitória do outro, é torcer pela nossa, pois ele em sua capacidade de superação pode nos ensinar e muito.

Porém dona Juliete, sumiu...

Cinco meses depois ela entrou no salão em que eu acabara de realizar uma palestra. Tomei um grande susto, pois já havia passado o prazo de validade de vida dela e eu a estava vendo. Apavorei-me, achando que ela tinha vindo me cobrar algo do além...

Ela me abraçou e me disse bem feliz, o tumor sumiu! Os exames mostram isso.
Eu chorei ao seu lado. Nos abraçamos demoradamente... E antes que ela se fosse, me disse que havia ficado livre das mágoas, e que agora eram apenas cicatrizes da vida. Então, eu lhe disse:
- Certa feita eu conheci um médico que escreveu um livro maravilhoso e gostaria de lhe dar de presente. 
Eu lhe ofereci o livro do Dr. Marco Aurélio, intitulado, "Quem ama não adoece".
Mas na saída lhe disse:
O Dr. Marco Aurélio, adoeceu e morreu, viu dona Juliete!!!

Ambos sorrimos. Acho que sorrimos do inevitável. A morte! As vezes é bom dar uma gargalhada para ela... Mostrar-lhe que ela não nos assusta.
Quase dois anos depois, recebi a notícia da morte de dona Juliete. Foi dormindo, uma parada cardíaca. Ela se foi e nunca mais a esqueci. Para mim, ela venceu não apenas a doença, mas a morte, pois tornou mais bela e digna a sua vida e tornou tranquilo o seu morrer!

Dona Juliete antes de curar o corpo, curou a alma...  

domingo, 14 de setembro de 2014

Você vai morrer!!! E agora?

por Liszt Rangel
A reflexão acerca da própria finitude remete o indivíduo ao desespero e ao mesmo tempo ao manejo de todos os recursos disponíveis para tentar evitar o inevitável, que a grande mensageira da verdade está galopando velozmente em sua direção. Sabe-se quando ela chegará? Não! Ou ao menos, sabe-se por que você, entre tantas pessoas, foi escolhido para morrer? Também não se sabe esta resposta. Porém, a única certeza que qualquer o Homem tem, é a de que vai morrer. Aliás, já passou a morrer desde o instante que começou a viver.

Entretanto, saber que a morte está mais próxima do que se pensava e esperava, é algo por demais chocante. Segundo Kübler-Ross (1996), o paciente quando recebe a notícia de que o término de sua existência está próximo, geralmente, ele atravessa algumas fases no contato com o morrer e com a sua morte. Porém, ela adverte que nem todos passam pela mesma ordem sequenciada, e há outros pacientes que estacionam em algumas das fases do morrer.  

Ao saber que se encontra vítima de uma doença fatal, como certos tipos de câncer, por exemplo, naturalmente a primeira reação do paciente é Negar . Frases do tipo, "quem tem câncer é sua mãe, doutor!!!" Ou, "Eu??? Com câncer? Que brincadeira é esta?" E se dirige aos familiares, dizendo: "Ele está louco, me dizendo que tenho "aquela" doença. A negativa e o medo da doença são tão intensos que muitas pessoas nem falam o nome câncer, chamando a doença de "aquela" ou simplesmente, "aquela que começa com C". 

Já pude presenciar uma mulher, 56, vítima de uma câncer no aparelho reprodutor, que nunca chamava a doença pelo nome. Ela apenas dublava a palavra, sem emitir o som. E assim ela contava as pessoas como estava o tratamento, mas na hora de falar a palavra câncer, ela apenas movimentava a boca, como se fosse uma mímica labial. Quando questionei o porquê dela nunca emitir o som da palavra, ela me disse que era porque no hospital não tinha madeira para bater três vezes, pois falando a doença, a mesma não a deixaria e tocando na madeira, ela seria isolada da doença.

Ao lado desta negativa do paciente terminal, também aparece a negativa da família. Posturas como, "Não, isto só pode ser um erro médico", ou, a mudança de médicos e toda uma bateria de exames sendo repetida diversas vezes denotam a fuga para diminuir o choque da doença. Entrar em contato com morte do outro também nos apavora, porque nos mostra o quanto somos frágeis. 

Do ponto de vista psicológico, a negação é uma tentativa do psiquismo do paciente de diminuir os danos emocionais e psíquicos ao receber a notícia de que seu fim está perto. E o pior de tudo, é que ele não se preparou para ele.

Mas antes dele pensar que é hora de ir embora deste mundo, a Dra. Kübler-Ross percebeu que muitos são tomados pelo segundo nível do morrer, o da Revolta. Geralmente, o paciente que foi cristão a vida toda, usa como principal alvo de sua indignação, Deus. Sim, até porque o Deus dos cristãos é o Deus das lacunas, ora ele está presente, preferencialmente, quando tudo está bem, ora ele não está, quando tudo vai mal. Sendo assim, ninguém melhor do que Deus para ser o culpado de nossa dor e morte. Frases do tipo, "os desgraçados deste mundo que vivem aprontando na vida, vão viver, e eu vou morrer?" Por que eu, Deus?", "Por que o senhor fez isto comigo?" "Por que me escolheu?" "Com tanto bandido por aí, logo eu?" 

Esta postura revela traços egoístas do paciente, e não apenas o desejo de continuar a viver. Ele está revoltado não é porque ele vai morrer, mas porque outros que na visão dele, não merecem viver, vão continuar gozando. Isto é muito observado por profissionais da saúde, bem como por psicólogos que atuam em hospitais. O paciente mal trata os auxiliares, grita com os colegas de quarto, joga o alimento no chão, nega-se a dialogar educadamente com o médico, usa de ironia, enfim... até que um dia ele desperta pela manhã e algo nele começa a mudar.

Quando ele começa a viajar pelo mundo, tentando tratamento em tudo que é país, gastando o dinheiro da família, ou quando se põe a pedir em preces pela sua cura, a voltar o olhar para Deus, buscando fazer as pazes e bater na porta de terreiros, centros espíritas, ou regressa para o Catolicismo, religião tradicional, a qual pertenceram seus pais, ou chega até mesmo a apelar para a Igreja Universal, ele está entrando na terceira fase, a Barganha

Ele agora usa a caridade, "é bonzinho", pensa nos meninos da creche, nos velhinhos do abrigo, tenta fazer o bem até à sogra. Outros buscam terapias alternativas com luzes, cristais, energizações, banhos de lama, fazem penitências, ou seja, o desespero os toma, e nesta hora vale tudo! Se por um lado, este é um mecanismo de defesa usado pelo paciente contra a dor psíquica, por outro, ele está adiando o que terá que enfrentar em breve, a sua morte. Mesmo ignorando, não é a morte a sua única acompanhante nesta hora, mas a vida está operando em transformação em seu íntimo e não apenas em seu corpo.

E pensar na morte, após ter recorrido a tudo para escapar dela, leva-o ao quarto estágio do morrer, a Depressão. Deprimido, o paciente, não deseja ver ninguém, não quer visitas, manda dizer que não está em casa, se isola no quarto, também não se alimenta... porém, não se deve pensar que ele está se entregando. Não, não é isso! Ele agora começou a refletir sobre sua doença e está revendo sua vida, como se estivesse arrumando a mala para viajar. Ele abre o guarda-roupas e diz para si: "Por que guardei esta peça por tanto tempo dentro de mim?", Será que foi isso que me adoeceu?", "Por que não me desfiz das mágoas?", "Por que não vivi aquele grande amor e fugi covardemente?", "O tempo passou tão rápido para mim e não tive as oportunidades que queria, mas também as que tive nãos as aproveitei." 

Após este período, quando ele pedir para comer ou para abrir a janela, quem sabe pedir que alguém o ajude a organizar o testamento, ou simplesmente, pedir para que lhe tragam o álbum da família, é porque ele está pronto! Entrou na quinta fase, a da Aceitação. O que não quer dizer resignação. O paciente, diz para si, "bem, como não tem outro jeito, eu vou!"

Lembro de Jussara, 42, também com câncer, mas distribuído em três partes do corpo. Dois filhos, um menino e uma menina, cinco e oito, respectivamente. Vieram buscá-la na casa da prima, a pedido de Jussara que desejava morrer ao lado do marido que havia ficado no interior, enquanto ela se tratava na capital. Ela me disse na saída, "Não nos veremos mais, nem nos falaremos, Liszt. Agora devo voltar, enquanto ainda há tempo para pedir perdão àqueles a quem fiz mal." E se foi. Se foi primeiro para o interior. Se reconciliou com seus desafetos, depois, ela se foi para outra realidade, haja vista, tudo que nos cerca tratar-se de uma grande ilusão. E ela só foi, porque as malas estavam prontas. E que bom quando dá tempo de arrumar as malas. 

Por isso, como nunca sabemos quando a dama da morte, a grande mensageira da verdade nos visitará, é sempre bom deixar algumas peças já arrumadas na mala, porque quando o trem chegar na sua estação, você não esqueça de estar de posse de seu bilhete. Também é bom, evitar aqueles shows e  espetáculos de certos familiares, que mais atrapalham o moribundo do que o ajudam em sua libertação. O doente terminal que estacionou em uma das fases, também não ajuda, dando vexames, do tipo, "eu não quero ir, eu ainda tenho tanto o que fazer por aqui..." e começa a chamar pelo nome dos parentes, e grita e chora. 

Ora essa, você em vida foi um vitorioso, chegou chorando quando nasceu, é verdade, mas por que justo na hora de partir, não sai de cena sorrindo? Na verdade, somente sabe, portanto, morrer bem, quem soube bem viver! 

O problema não é a morte apenas, é o morrer que torna-se inaceitável. Então, como terapia pessoal, é bom de vez em quando, se perguntar, "Eu vou morrer, e agora?" Ou então, usar outra sugestão, "eu morri! Como me sinto agora?" Geralmente dá uma angústia. Pode ter como causa os preconceitos sobre o assunto, ou pode ser a sensação de finitude, ou quem sabe o pior, a prova que temos muitas coisas para fazer e que deveríamos tê-las feito. Então, façamos, enquanto ela não nos surpreende.

Que tenhamos todos uma boa morte!

 BIBLIOGRAFIA
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  

domingo, 7 de setembro de 2014

Rituais da Morte: dos egípcios aos gladiadores da Roma Antiga

Altar dedicado a Marte por um gladiador
por Liszt Rangel
Não dispor de direito aos rituais funerários e ter o corpo jogado no rio ou no mar, reflete bem o conceito romano de uma morte imposta àquele que não passasse de um infame. Ao mesmo tempo, a mutilação de um dos membros do corpo, como a mão ou o aspecto do isolamento do local do sepultamento e ainda o tipo que é descrito como uma vala ou um poço, afastado da sepultura dos familiares pode reforçar a teoria de que este morto seria alguém que causou vergonha à sociedade ou a um grupo.

Antes de serem examinados os diferentes aspectos culturais relacionados aos rituais da morte é preciso entender o que são práticas mortuárias, como e para que existem ou simplesmente definir seus ritos, o que representam e quais as suas dinâmicas e reflexos. Há que se considerar o contato entre diferentes culturas que redirecionou, acrescentou ou retirou algo da prática mortuária originária de um determinado grupo.

No campo das práticas mortuárias, a Nova Arqueologia coloca em discussão o lugar do indivíduo no registro arqueológico, analisando os símbolos presentes nos rituais funerários, através dos estudos da Arqueologia das Práticas Mortuárias. Com o nome de Arqueologia da Morte, cunhado a partir da década de 70, abriu-se uma perspectiva para um novo campo que se dedicasse a estudar as práticas, ritos e símbolos que envolvem a morte, iniciando-se na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas logo foi utilizado em outros países. 

Vale salientar que a morte em si não é o único objeto de estudo da Arqueologia, mas tudo o que sobrou do processo que a envolve e que pode ser apreendido pelo pesquisador, como o funeral, os restos materiais da cultura que cada civilização possui ao destinar o corpo à morte, a memória do morto representada pelas escolhas da sociedade e da família, bem como toda a simbologia que dá sentido às práticas mortuárias. A reconstituição do ritual e seu significado acontece através dos objetos da orientação do corpo e do tratamento dado a ele. 

Neste ínterim, a própria Arqueologia diverge em relação aos termos usados para nomear tais estudos. Nessa divergência há o termo “Arqueologia dos Cemitérios”, criticada pelo fato da não existência desse local em várias sociedades, limitando, assim, o alcance dos estudos arqueológicos. O próprio termo “Arqueologia da Morte” é considerado inapropriado, pois coloca o fenômeno da morte como físico e humano, limitando o estudo na causa da morte e suas circunstâncias, e que por sinal devem ser consideradas, mas não apenas isso deve ser levado em conta. 

Na tentativa de resolver este impasse, surgiu a nomenclatura “Arqueologia Funerária”, porém esta não amplia o estudo às práticas funerárias, que podem ser percebidas pelos arqueólogos, sendo melhor interpretadas em seu processo de crenças e ritos. Entretanto, a expressão “Arqueologia das Práticas Mortuárias” aparece como mais abrangente e oportuna, além de direcionar o estudo às práticas concretas, em termos de vestígios da cultura material existente, deixando de lado o que não é acessível, como pensamentos e vontades do morto ou dos que o assistiram e que não foram materializados. 

Por outro lado, apesar da busca por uma definição da nomenclatura em torno das práticas mortuárias, há que se considerar uma outra questão mais importante que a da forma, que é a de fundo. Ou seja, o próprio estudo da finalidade de tais práticas, o que se considerar em seu contexto ou fora do mesmo e especialmente as leituras que são feitas, considerando as divergências e os pontos em comum que são encontrados entre os que se dedicam a estas observações e estudos. 

Ao examinar o túmulo ou a urna funerária, antes mesmo, há uma discussão que é preciso levar em conta acerca das inúmeras possibilidades de interpretar e reinterpretar o significado da morte para o grupo e assim poder viabilizar a identificação das características culturais, a contemporaneidade de seus objetos, bem como os detalhes presentes na decoração.

Esta discussão parece ter ficado presa no tempo, obedecendo à ideologias políticas, como é o caso dos estudos de Kossina (1911) que tentou resolver a questão de como se explica a existência de ritos funerários em diferentes grupos, simplesmente, propondo em seu discurso, que se considere a existência de culturas criativas e passivas e o domínio portanto que se opera entre elas. (RIBEIRO, 2007) Como se fosse possível desconsiderar que nesta influência (cultura criativa e passiva) não existisse “o retorno”, ou seja, enquanto observo e estudo tal objeto, este também me influencia, e foi desta forma que ocorreu no contato entre as culturas supostamente vistas como superiores e inferiores.

Há, portanto, uma polêmica em torno da transmissão dos traços culturais e que repercute na análise das práticas mortuárias. O Evolucionismo defende a ideia das transmissões de traços culturais, pela via exclusiva das culturas mais evoluídas para as menos evoluídas e assim contraditoriamente se afasta da crença no potencial de criatividade humana. Sem considerar este aspecto, somos induzidos a entrar em um contexto de superioridade racial e este debate se estrutura, através da dominação dos brancos sobre os negros e amarelos.

Englobando esses aspectos culturais e retomando então a questão do fundo, estar-se-ia pronto para uma análise das práticas funerárias. É oportuno observar a posição do corpo, a pintura de ossos e decorações das cerâmicas do mobiliário funerário, presentes em grupos afastados dos de origem. Ao se rastrear grupos diferentes pelo mesmo traço cultural, podemos atribuir que tal traço permaneceu mantido no tempo, não foi alterado.

As lendas antigas são fontes para nos oferecer conhecimentos acerca deste tratamento dado ao morto. Quando nelas, sejam gregas ou celtas, identifica-se a gravidade da importância das práticas mortuárias. Famoso ficou o conto de Sísifo, rei de Corinto, personificação do homem astucioso que levava vantagem nas situações e que tentou de todas as formas ludibriar a morte. Uma de suas táticas, segundo a lenda, foi combinar com sua esposa que quando a morte o levasse para as regiões de sofrimento, ela não realizasse seus ritos fúnebres, pois ele daria um jeito de voltar à vida. E assim, ele fez, dizendo a Hades que sua esposa fora uma ingrata, porque ele não recebera as honras em seu sepultamento e solicitou ao deus, permissão para voltar e reclamar a sua companheira, seu direito aos rituais. Hades concordou e ele mais uma vez escapou da morte, enganando o deus (FRANCHINI; SEGANFREDO, 2012). 

Entre os celtas, consta a narrativa do reino de Donn, o Senhor dos Mortos, a quem todos os seres humanos um dia acabam prestando homenagens. Tais homenagens começam nas sepulturas, onde guerreiros e reis celtas estão enterrados com suas armas, joias e trajes cerimoniais (WOOD, 2011).

Os túmulos possuem vários significados em diferentes civilizações. Na Grécia, por exemplo, eram locais de cultos e oferendas, principalmente os túmulos dos chamados herois, onde, posteriormente, havia oferendas como forma de veneração aos antigos semi-deuses. Neste momento verifica-se inclusive, a busca de seus ossos como pressuposto de vitória contra o inimigo.

Ainda sob este aspecto, é apropriado observar o tratamento diferenciado antes e após o sepultamento. A continuidade dos ritos e oferendas feitas no túmulo pode indicar a importância do falecido, mas também foi observado nas sepulturas que tal continuidade de adoração pode sugerir um culto aos antepassados de familiares. A busca por possuir restos mortais ou objetos pessoais seria algo a considerar quanto à posição social do reverenciado, pois sugeriria relação com poder, respeito e realçaria a uma continuação da legitimidade na liderança de um grupo, como forma de suposta “bênção” do rei ou heroi, ou simplesmente uma associação com sua posição e prestígio. “A posse de tais objetos autoriza aquele que o possui a representar o passado, autoridade fundamental para o funcionamento da vida presente” (RIBEIRO, 2007).

No que diz respeito ao tratamento dado às práticas mortuárias, é preciso entender que este processo tomou um âmbito social mais amplo. No Egito, nos fins do Reino Antigo e início do Médio, conforme textos encontrados nas pirâmides, eles revelam parte de rituais funerários, verdadeiros guias para o morto no outro mundo. Estes textos puderam ser utilizados por outros componentes da sociedade egípcia, que os copiavam em suas esquifes os encantamentos fúnebres antes escritos pelos reis, porém de forma resumida, fazendo surgir o ritual conhecido como Texto dos Sarcófagos, acompanhados por ritos, objetos e símbolos, anteriormente apenas régios (FINNESTAD, 1989 apud DAVID JOÃO, 2011). 

Um importante aspecto sobre o significado dos rituais funerários, é que este deveria permitir a retomada das faculdades físicas e mentais dos mortos, a fim de que esses desfrutassem, no outro mundo, de uma vida similar àquela terrena. Um exemplo disso são os banquetes funerários, parte essencial dos ritos egípcios, pois através dele, o morto poderia absorver a energia vital dos alimentos (DAVID JOÃO 2011).

As práticas funerárias devem, nesta perspectiva egípcia, ser entendidas num contexto de transformações políticas e sociais. Lidando com os mortos, os vivos fazem uso de rituais que representem uma renovação social (GARRAFFONI, 2005). Ou seja, controle social. 

Esse conceito nos remete, também, ao controle social e manutenção da ordem através da violência. Um exemplo disso é a luta de gladiadores.  Hopkins (1983) apud Garraffoni (2005), refere-se às lutas de gladiadores como um teatro político, um terror que legitimava a força imperial, ajudando a construir a soberania política.

Inscrição do altar dedicado a Marte 
Antes mesmo de se lançarem à morte na arena, os gladiadores realizavam o ritual de adoração a Marte, deus da guerra, expressão máxima da violência, cultuado em um altar específico antes dos espetáculos violentos. Marte era considerado o deus protetor das arenas. Pude ver um desses altares em minhas pesquisas realizadas em Lyon, França. Eis a inscrição da foto ao lado e que nos remete à foto acima, "Ao deus Marte, Callimorphus, segundo comandante desta companhia, na realização de um desejo".


Assim, já podem ser vistos como rituais mortuários certos procedimentos que se iniciavam desde a luta. Os gladiadores se vestiam como bárbaros ou guerreiros míticos, com armas e armaduras tradicionais entre as tribos inimigas e estavam treinados a morrer com dignidade, sem pedir clemência. Para terem a certeza de que o gladiador estava morto, eles sofriam mutilações de toda ordem. Neste contexto, sacrificar prisioneiros de guerra e espalhar seu sangue sobre as tumbas de grandes guerreiros era uma prática comum e tinha como finalidade transferir seu poder para os herois, cortando suas gargantas sobre uma sepultura (WHITE, 2013).

Os gladiadores foram adorados e aclamados pelo povo em sua forma violenta que lhes conferia ares de seres poderosos, cujos suores podiam ser vendidos como afrodisíacos e quando a morte os visitava, alguns recebiam tratamento com rituais funerários e ainda tinham suas lápides com epítetos dignos dos herois. A manutenção do culto em seus túmulos era feita por seus admiradores e fãs.

Após esta pequena viagem pelo Mundo Antigo, vemos o quanto o nosso passado está presente em nossos cemitérios atuais, bem como os rituais da morte ainda nos envolvem. Não devemos, portanto, interpretar a prática mortuária como um ato isolado, pois ela faz parte de todo um conjunto, um processo que acontece ainda em vida e por isso não encontra-se ligada apenas à morte, mas também ao morrer.

REFERÊNCIAS:

DAVID JOÃO, Maria Thereza. Do templário ao funerário no Egito Antigo: o exemplo do Ritual de Abertura da Boca. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.
FRANSCHINI, A.S.; SEGANFREDO, Carmem. As Melhores Histórias da Mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. Porto Alegre: L&PM, 2012, v.2.
MORRIS, Ian. Death-Ritual and Social Structure in Classical Antiquity. New York:
Cambridge University Press, 1996.
RIBEIRO, Marily Simões. Arqueologia das Práticas Mortuárias: uma abordagem historiográfica. São Paulo: Alameda, 2007.
WHITE, Mathew.O Grande Livro das Coisas Horríveis: a crônica definitiva da história das 100 piores atrocidades. Rio de Janeiro: Rocco, 2013).
WOOD, Juliette. O Livro Celta da Vida e da Morte: um guia ilustrado. São Paulo, Pensamento, 2011. 



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Morte - uma questão universal!

por Liszt Rangel
É bem curioso observar que até hoje, quando se ouve falar sobre morte, pensa-se muito pouco no morrer. A morte é o fenômeno biológico, pertencente à natureza e obedece ao fim da existência, pois tudo o que nasce, vive e morre. Já o morrer encerra todo um significado de relação com a morte, não só para o morto, mas também para aqueles que irão pranteá-lo ou não, recordá-lo ou não, reverenciá-lo ou não e que pode ter no morrer do outro, a oportunidade de se acostumar com o próprio término da existência.

A sociedade pós-contemporânea inventou e reinventou a sua relação com a morte, e de preferência uma em que os mecanismos de fuga desta realidade temerária sejam constantemente acionados, quer através das máquinas que mantém a vida artificial, quer no desaparecimento do corpo daqueles que morrem em hospitais com o objetivo de não chocar quem está muito doente, quer pelos encontros sociais com bebidas, salgadinhos e docinhos em que foram tornados os funerais, ou ainda pela maquiagem e adornos com flores que disfarçam a aparência do falecido, e sem esquecer, é claro, da colocação do tapete verde em volta do esquife, para evitar que os presentes não se deem conta que o morto entrará em contato direto com a terra e não pensem no detestável material orgânico que ajudará na decomposição do cadáver. Tudo para evitar o temido, o encontro com a morte!

Não obstante o temor dispensado com a ameaça de sua extinção física, o Homem sempre esteve envolto nos mistérios da morte. Algumas vezes, adorada e cultuada; outras, recitada em verso e prosa, ou até musicada por gênios como Beethoven, Mozart e Bach. Enfim, a morte sempre cercou os passos dos mortais e até lhes serviu de inspiração. Em muitas oportunidades, foi reverenciada como a grande mensageira da verdade e libertadora dos tormentos terrestres, sendo desejada por escravos, idosos, doentes e moribundos. Porém, ela nunca lhes obedeceu a vontade e por isso torna-se inesperada e surpreendente, deixando na vida o doente e levando o saudável, esquecendo o fraco e carregando o forte, abandonando o velho e silenciando o bebê de colo. E mesmo quando não desejada, ela pouco se importa com a vontade do Homem, pois mesmo que ele não queira, vai morrer.

Examinando o fenômeno da morte e do morrer, simbolizado nas práticas mortuárias, verifica-se a tentativa do Homem em manter relações das mais diversas no campo do desconhecido, mesmo que às custas de sacrifícios de seu semelhante e de animais ou na composição do mobiliário funerário com seus respectivos significados, não apenas para o morto e sua função social, mas para aquele que realiza os rituais fúnebres não ser perturbado, segundo ensinavam suas crenças antigas, pelas sombras dos mortos que voltavam para reclamar os cuidados, as preces e até da bebida e da comida que lhes foram negadas (COULANGES, 2011). Sendo assim, a morte assume o caráter de desequilíbrio das relações, causando medo e perturbação. Por outro lado, ela reintegra o grupo que ficou.

A outra face dessa relação com a morte é apresentada, também, como indício de coragem e honra. Seja nos campos de batalha ou na conquista do coração de jovens da nobreza e até como questão de defesa da própria imagem, ela foi enfrentada de peito aberto nos duelos. Não raro, buscar a morte desta forma foi visto como um sinal de autoafirmação da identidade, destemor e desapego. Todavia, o que se convencionou chamar de o “ponto de honra” foi muitas vezes o resultado do orgulho ferido, como no caso do suicídio.

O poeta Álvares de Azevedo morreria em nome de um amor não correspondido por uma donzela inalcançável em sua mocidade sonhadora e tímida. Sêneca teve o suicídio imposto por Nero, que, aliás, também optou em por termo à existência quando se viu diante de seu fracasso. E ele não foi o único a fugir da dor da humilhação. O orgulho ferido de Marco Antônio e Cleópatra após a batalha de Ácio motivou-os ao abandono da vida. 

Alguns historiadores dizem que Pilatos após ter sido chamado de volta à Roma, sentindo-se diminuído perante às acusações de corrupção, de incitação à revoltas por ter ofendido a crença dos judeus e por atitudes cruéis através da prática de crucificação sem que antes o acusado recebesse um julgamento, pode ter tomado o caminho de por fim à própria existência (FILO, 1961; JOSEFO, 2008). Cometer suicídio seria pois um atestado de confissão de culpa e assim, a sua família não ficaria deserdada. Matar-se para tal cultura, seria uma boa solução para preservar não apenas os bens materiais em terras e riquezas, mas também a honra. “De acordo com a versão negativa ele foi executado por Tibério ou Nero, ou cometeu suicídio, e seu corpo, acompanhado de demônios, foi transportado para Viena, na Gália. Como o rio Ródano devolveu seu cadáver, ele finalmente foi transportado para a Suíça e enterrado num poço em uma montanha, junto ao lago Lucerna, conhecida como Monte Pilatos ou Pilatusberg” (VERMES, 2005).

Entretanto, para a grande maioria dos mortais, seja ela feita de poetas e iletrados, reis e plebeus, senhores e vassalos, a morte representa antes de qualquer coisa, a despedida do mundo material, visível e sensorial. Em substituição ao vazio deixado pelos que se foram e como consequência da necessidade de prepararem o adeus final, a morte dos afetos e desafetos ao mesmo tempo, passou a sinalizar em muitos grupos a preocupação com o porvir, e em decorrência disto surgiu a crença no cumprimento das promessas de recompensas e sofrimentos no além, ou simplesmente, a possibilidade de maiores cuidados com as honrarias e práticas funerárias prestadas entre vivos à personalidade social do falecido. Como assevera Kübler-Ross (1996) "o problema da morte é uma questão humana universal. Porém, a resposta a ele difere entre as culturas". 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga: estudos sobre o culto, o direito e as instituições da Grécia e da Roma. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
FILO, Alexandria de. Legatio ad Gaium. Tradução e Edição E. Smalwood. Leiden, 1961.
JOSEFO, Flávio. Antiguidade Judaica. In: História dos Hebreus. Tradução Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, 14 ed.
KUBLER-ROSS, Elisabeth. Morte: estágio final da evolução. Rio de Janeiro, Record,1996.
VERMES, Geza. Quem é Quem na Época de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2005.



domingo, 13 de julho de 2014

A Pirâmide de Maslow

por Liszt Rangel
Os que viveram a década de 80 devem lembrar, certamente, da famosa música dos Titãs, "Comida".
A letra diz assim: "Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de que? Você tem fome de que? A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte..."¹ Pois bem, o hit agitou a "galera", mas mandou um recado em forma de pergunta: de que realmente você tem necessidade?

Ano passado, uma instituição não-governamental nos Estados Unidos publicou uma pesquisa interessante, após entrevistar as pessoas em diferentes estados. Os dados revelaram que de cada dez coisas que os cidadãos possuem, na verdade só necessitam de quatro. 

Observando, por exemplo, o desenvolvimento da espécie humana desde o Homem de Neanderthal, vemos que a ingestão excessiva de gordura tinha uma finalidade, preservar a espécie, ajudar na sobrevivência durante os períodos de inverno, onde a caça ficava mais rara e de alguma forma os alimentos não eram produzidos pela natureza, e assim eles tinham que se preparar para a necessidade. E hoje, já temos necessidade de ingerirmos tanta comida assim, para nos mantermos vivos quando o inverno chegar? Pelo contrário, a comida em excesso, e levando em conta a sua qualidade, tornou-se um dos maiores ladrões da saúde.

Abraham Maslow observou os indivíduos e suas necessidades. Ele as chamou de Necessidades Básicas e as dividiu em grupos escalonados, em forma de pirâmide. A de comer, a de dormir, a de fazer sexo, a de beber água e outras, ele as denominou de necessidades Fisiológicas. "É inteiramente verdadeiro que o Homem vive apenas de pão-quando não há pão. Mas o que acontece com os desejos do Homem quando há muito pão e sua barriga está cronicamente cheia?"² (1970). Maslow percebeu que para se galgar outros níveis que ele chamou de necessidades "superiores", é preciso ter as primeiras satisfeitas.

Para Maslow, fica muito difícil falarmos em ética, honestidade e justiça para quem não tem suas necessidades fisiológicas satisfeitas e pedir a esta sociedade que não vá para as ruas reclamar, nem fazer protesto. Muito menos, esperar que tenhamos segurança social quando os próprios "bandidos" estão mais bem equipados e organizados do que aqueles que deveriam manter a segurança nas ruas. Ainda para o estudioso, o nível de reclamações e até a forma como uma civilização reivindica suas necessidades, reflete os valores da mesma.

Então, se no passado, tivemos as arenas, o circo e o pão, hoje temos as mesmas arenas que logo se tornarão "elefantes brancos"; temos os leões, porém agora patrocinados pela Nike e que choram diante do Hino Nacional, mas bem que poderiam chorar por terem tanto nos bolsos, enquanto a pátria de chuteiras chora em seus hospitais públicos; e o povo a se divertir... e a jovem jornalista a chorar... e haja ópio, já que não tem mais pão!    

Por outro lado, Maslow reflete acerca do momento em que a sociedade está demasiadamente, absurdamente farta, ou como ele chama "enfadonha", por ter vivido apenas da satisfação das necessidades tidas como "inferiores". Países como a Dinamarca, a Noruega, a Suíça e o Japão registram altos índices de suicídio. E isto refletiria a chegada ao topo da pirâmide? O lugar em que os indivíduos se encontram satisfeitos, seria motivador para alguém perder a vontade de viver? Não, não é isso!!! Para Maslow, a tendência é que o Homem vá crescendo em seus anseios, aprimorando suas necessidades, mudando essencialmente seus valores e assim, ele continua se satisfazendo, ou como diria Maslow, se auto-atualizando. 

Após as necessidades fisiológicas, o Homem busca a de Segurança que lhe trará a estabilidade. Os altos índices de depressão, estresse pós-traumático, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada têm também como causa a instabilidade social e as relações interpessoais, afinal de contas nos marcamos e na maioria das vezes estas marcas trazem traumas profundos, como se verifica no convívio em família. Para tanto, resolvemos trocar nossa liberdade pela segurança em automóveis blindados, com alarmes, vidros elétricos, travas automáticas, sem esquecer dos muros com cerca elétrica das residências e a vida isolada dos grandes condomínios. Já não se sai mais para ir às compras, as solicitamos em casa. O sociólogo, Zigmunt Bauman, em seus tratados esclarece que trocamos a liberdade pela segurança, mas agora sufocados por tanta segurança, ou seja, "enfadados", já não somos mais felizes, justamente por termos nos afastado de algo indissociável, a nossa natureza. 

Sobre a natureza humana, Alfred Adler, psicólogo, também se aprofundou nestes estudos, quando se referiu à perda de nossa liberdade ao nos afastarmos de nossa natureza. Em sua perspectiva, o mais curioso de tudo é que, quanto mais vivemos com o outro, mais somos independentes e livres. Todavia, frequentemente pensamos o contrário. E ainda há quem pense que há liberdade e felicidade apenas para si. Sobre isto, Cazuza, o grande poeta da música brasileira, escreveu que "As possibilidades de felicidade são egoístas meu amor!!! Viver a liberdade, amar de verdade, só se for a dois!"

Em seguida, Maslow observou que o Homem parte para satisfazer a necessidade do Amor, buscando família e amizade. Ele não se refere ao amor idealizado, pois este por ser inacessível, não satisfaz, frustra. O amor como algo que mobilize a saída de si em direção à alguém, e desdobrando-se até mesmo a uma causa. Neste sentido, Leonardo Da Vinci, Einstein, Jesus e Sócrates foram grandes amantes. Amantes da arte, da ciência, da filosofia, do Homem e da Humanidade...

Avançando em sua caminhada, a sociedade chegará a usufruir de necessidades que estão nos pontos mais altos da pirâmide, a da Auto-Estima e a da Auto-Atualização. Respeitando-se, já não se corrompe e a consciência acusa sua conduta através da aprovação. Compreende que o que faz ao outro, tem diretas consequências sobre seu bem ou mal estar. O respeito por si mesmo, eleva sua auto-estima, pois reflete a lucidez de suas escolhas. O poder agora está com ele (indivíduo) e não pelo que dizem sobre o que ou quem ele é.

No tocante à auto-atualização, o Homem examina sua capacidade e se realiza, ao invés de se colocar como um eterno pecador, como apregoa o Cristianismo. A sua inspiração não se encontra num mito de sofrimento a ser copiado, nem ele irá se realizar na postura de hipocondríaco, chamando atenção para sua dor, como se fosse um mártir da autoflagelação. Só a auto-realização, momento em que o indivíduo se conhece, pode oferecer-lhe a satisfação ainda que distante da tão sonhada e ilusória plenitude. Esta auto-realização muitas vezes custa-lhe o preço de uma viagem dolorosa inicialmente, mas realiza-o quando em contato com sua natureza profunda.   

O indivíduo auto-realizado é o oposto daquele que evoca e vive o complexo de Jonas. Jonas foi aquele da Bíblia, que preferiu fugir ao compromisso de ser um profeta com suas responsabilidades e capacidades. 

Quantos Jonas, portanto, existem que não desejam assumir seus compromissos perante si mesmos, para com o próximo nem com a sociedade? E assim, evitam o contato com seu potencial, com suas capacidades, sabotam a si mesmos e desta forma, fogem das responsabilidades de uma transformação não apenas interior, mas também não contribuem para uma renovação social.

BIBLIOGRAFIA

² Maslow, Abraham Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.

     

domingo, 29 de junho de 2014

Abraham Maslow e o Homem Imperfeito!

Abraham Maslow
por Liszt Rangel
Considerado o "Pai da Psicologia Humanista", Maslow (1908-1970), não aceitava este título, pois se autodenominava um homem antidoutrinário e reconhecia que seus estudos visavam sempre encontrar novas saídas para a saúde ou para a doença do Homem, e principalmente, procurava se afastar dos rótulos e do lado sempre "patológico" percebido pela Psicanálise.

Mesmo tendo sido influenciado pela Psicanálise em sua vida e em seu pensamento, Maslow foi mais além e chegou a ser um sério crítico das explicações psicanalíticas, "Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher agora a outra metade sadia¹" (1968).

Maslow ainda estudou com Alfred Adler, Erich Fromm e Karen Horney e se aprofundou no Behaviorismo e na Gestalt, porém foi com a Antropologia Social que ele mais se identificou. Ele estava mais interessado em demonstrar que era possível uma psicologia voltada para o SER, considerando especialmente sua potencialidade ao invés de seus fracassos, já que para ele até mesmo os ditos "Santos" tinham seus conflitos e imperfeições. "Não existem seres humanos perfeitos! Pode-se encontrar pessoas que são boas, realmente muito boas, na verdade excelentes. Existem, na realidade, criadores, videntes, sábios, santos, agitadores e instigadores. Este fato, com certeza, pode nos dar esperança em relação ao futuro da espécie, mesmo que considerando que pessoas deste tipo são raras e não aparecem às dúzias. E, ainda assim, estas mesmas pessoas às vezes podem ser aborrecidas, irritantes, petulantes, egoístas, bravas ou deprimidas. Para evitar a desilusão com a natureza humana, devemos antes de mais nada abandonar nossas ilusões a este respeito²" (1970).

No que tange as nossas idealizações em torno de figuras "exemplares", resulta nas reflexões de Maslow como uma necessidade de termos nossos ícones, quando especialmente nos negamos a amadurecer e a vermos o outro como uma extensão de nossa própria espécie, ou seja, falível tanto quanto qualquer outra pessoa. Por outro lado, há os indivíduos que gostam de manter e alimentar esta ilusão acerca de sua imagem, colocando-se como missionários, enviados, tomando posturas místicas e românticas, embalando o discurso em voz melodiosa, enquanto criam um secto de discípulos fascinados pelo que aparentam, e profundamente ignorantes quanto ao que realmente são.

A congruência entre o que se fala e o que se faz não é para qualquer um. Como bem escreveu Maslow, são pessoas raras, mas mesmo assim ainda encontraremos nestes, condutas, traços e perfis de imperfeição, o que demonstra que se de nossa parte nos envolvemos com alguma ilusão, esta foi criada na maioria das vezes pela nossa infantilidade psicológica. Como exemplo maior disso, vemos a figura de Jesus de Nazaré ainda tão romantizada pelos cristãos. Quem admite que Jesus revolucionou o Templo de Jerusalém expulsando os vendilhões? Quem é capaz de ler e entender que ele mostra indignação e irritação com os corruptos de seu tempo, chamando-os de hipócritas e cegos? Ou que ele teria se negado a morrer? Quem aceita como normal que ele teria se casado com Maria Madalena ou com outra mulher e mais, que a teria beijado na boca ou tido filhos com ela?

Quem acreditaria que Madre Teresa de Calcutá sofria de depressão e que pensou por várias vezes em abandonar o ministério e só não fez por causa de suas irmãs de fé e dos doentes? Quem creria que ela disse: "Se eu alguma vez vier a ser Santa - serei certamente uma Santa da "escuridão", estarei continuamente ausente do Céu - para acender a luz daqueles que se encontram na escuridão da Terra".

E aqui, no Brasil, quem vê o Chico Xavier como um homem comum, que também teve seus anseios frustrados por não ter tido privacidade, ou por não ter podido ter uma família ou por não ter concluído os estudos? Não, não! É melhor chamá-lo de "O SANTO DOS NOSSOS DIAS". E quando ele afirmava que, quando um de seus gatos morria, ele se sentia tão desolado do mundo, uma melancolia o tomava ao ponto dele se entregar ao desânimo. Se isto é verdade, o que o torna uma ilusão? Quem aceita isto como normal, vindo de um homem tão bom? Quem aceita que ele também se irritava, que perdia a paciência e que alguma vez sentiu mágoa de certos companheiros de jornada?

Quem aceita como verdade, quando as provas e evidências históricas demonstram que certos espíritos vistos como famosos com seus livros que viraram dogmas, se equivocaram em suas narrativas históricas? Quem aceita passar por esta desilusão? E quem tem maturidade para viver com o que é diferente, ou passar a aceitar o que outrora era verdade, mas agora ter que se deparar que não é nossa verdade que prevalece? Quem consegue dormir, sabendo que a verdade foge à nossa compreensão limitada por nossos preconceitos e pela nossa própria ignorância perfeita em nossa imperfeição?

Maslow ainda deu maior contribuição quando nos ofereceu esclarecimentos acerca de nosso comportamento e de nossas necessidades como indivíduos e como sociedade, porém este assunto ficará para o próximo artigo, afinal já temos muito o que refletir sobre nossa admirável e feliz imperfeição. E seja bem vindo ao clube do Homem Imperfeito!

Mas, o que é mesmo ser imperfeito? Bem, acho que só sabe quem se vê como tal...

BIBLIOGRAFIA

¹ MASLOW, Abraham. Introdução à Psicologia do Ser. Eldorado: Rio de Janeiro, 1968.
² _________. Motivation and Personality. Ed. rev. New York: Harper and Row, 1970.