domingo, 15 de julho de 2012

Jesus sem família


por Liszt Rangel
Em um ou outro momento de nossas pesquisas acerca do homem de Nazaré, inevitavelmente, volta-se à pergunta cuja resposta mudaria boa parte da história do Cristianismo: Jesus tinha família?

As tradições mais ortodoxas não querem sequer entrever a possibilidade de uma resposta afirmativa para tal indagação, muito menos abrir espaço para debate em torno desta problemática.

Durante muitos séculos, ela incomodou os religiosos e estudiosos das escrituras e hoje não é muito diferente. As perguntas que suscitam pesquisas são sumariamente colocadas debaixo de uma fé dogmática, irrepreensível, inquestionável e com isso mantém-se durante séculos a escravidão intelectual e a distância de uma fé raciocinada que nada teria a temer com novas descobertas, muito menos em matéria de questionamentos.

Antes de mais nada, levantar a possibilidade de encontrar a família de Jesus não é um atentado contra o sentimento da fé, mas um convite a certeza do porquê desta fé e de como ela está estruturada. Além disso, é a busca natural, mola impulsionadora de crescimento, atributo natural da espécie humana. Esta busca promove, irremediavelmente, a saída da caverna da ignorância.

Tal estado de ignorância encontra-se em nossa origem, porém, com o progresso que assinala a marcha da Humanidade, as descobertas coroam com êxito a busca incansável. Isto não significa aquisição de pretensão sobre o que se sabe, mas desdobramento de nossa contínua capacidade de crescimento e isto é inadiável. Todos conheceremos e cresceremos!

O material que foi propositalmente escondido e manipulado revela o medo de conhecer o que pode arrancar o homem de seu amor-próprio, de seu orgulho, de sua zona de conforto. As pesquisas podem arremessá-lo em direção ao nada e ameaçar a desconstrução de uma estrutura religiosa e de sua religiosidade.

No que tange a Jesus, as revelações avançam com e sem a nossa vontade religiosa de manter sob o véu, verdades que podem trazer o real significado tanto do que conhecemos, quanto do que cremos. A crença em si nos diz que ele era o filho único de Deus, o unigênito, segundo João, o Evangelista, o ser mais perfeito que Deus deu ao mundo para "livrar" ou "levar", de acordo com problemas de tradução, os pecados da humanidade.

Visto sob uma perspectiva pagã, ele assumiu a divindade de seu pai e quem o viu, "viu a Deus", quem o amou, "amou a Deus" e quem o aceitou, "está com Deus na eternidade!" A personificação de Deus em Jesus, assume contornos tipicamente egípcios, civilização que muito influenciou a estruturação da identidade cultural dos judeus. Osíris encarna em Hórus, seu unigênito, que nasceu de forma transcendental e mística e teve como mãe, Ísis.

Em cada parede dos templos que visitamos no Egito, nas pesquisas que estamos realizando, constatamos que  há sempre a presença da Trindade Universal - o Pai, O Filho e O Espírito Santo-, um dos fundamentos da religião egípcia, na personalização de Osíris, Ísis e Hórus. O Cristianismo é uma religião que bebeu desta fonte e formou o edifício litúrgico, clerical, dogmático e ritualístico na cultura pagã. A partir dai, toda uma corte de símbolos, sinais, ícones e mitos foi alicerçada para manter uma "estória" que pudesse substituir a "história" de um homem. Este homem que foi tornado mito, perdeu a sua identidade e perdeu também o direito de ter um pai, irmãs e irmãos. Negaram-lhe a oportunidade de nascer por uma via biológica natural, pois os seres divinos não vêm ao mundo como os humanos.

Com isto, manter nos evangelhos a presença viva de Yussef (José), o pai do menino Yehoshú'a (Jesus), ao lado de Miriâm (Maria) seria um atentado à fecundação divina a que sua mãe foi submetida. Um outro problema gerado, foram as citações dos irmãos e irmãs de Jesus nos textos, o que trouxe uma grande confusão na crença da concepção virginal de Maria. Para evitar este mal-estar, trataram logo de arranjar a "estória" de que José era viúvo e que teria trazido do casamento anterior os filhos, que se tornaram meio-irmãos de Jesus. Desta forma, ele permaneceu unigênito, mas segundo Lucas que reacende a discussão, ele não foi o único, mas o primogênito, ou seja, o primeiro. Para criar mais problemas para a fé cega, o evangelho atribuído a Marcos, cap.6 v.3, possui inclusive os nomes de seus irmãos: "Este não é o carpinteiro, filho de Miriâm, irmão de Ia'cob (Tiago), de Yussef (José), de Yehouda (Judas), de Shim'ôn (Simão)? E suas irmãs não estão aqui conosco?" .

Bem, onde foi parar todo este povo? Maria, nós sabemos e de Tiago temos informação que assumiu a liderança do grupo quando seu irmão foi assassinado, mas cadê Judas, Simão, José que tinha o nome em homenagem ao seu pai? E suas irmãs? Se ao menos foram duas, temos uma família em um total de oito pessoas, contando com Jesus. Ainda há um relato do padre historiador, Eusébio de Cesareia, que afirmou que os netos de Judas, um dos irmãos de Jesus, viveram até o reinado do imperador Trajano, entre 98 e 117 d.C.

Ainda no segundo século, seguidores da mensagem de Jesus, conhecidos atualmente pelos estudiosos como judeus hebionitas, foram demasiadamente perseguidos pela Igreja por defenderem a ideia de que Jesus tinha pai e mãe terrenos, José e Maria, e que seus ancestrais conheceram a família do Nazareno.

Apesar destas e de outras evidências que levariam a uma maior aproximação com a humanidade de Jesus, a Igreja resolveu investir intensamente na divinização do filho de José, ao ponto do Papa Pio IX, publicar a sua bula Inefabilis Deus, que sedimenta uma fé "imutável" no dogma da Imaculada Conceição. Isto não se refere à concepção virginal de Maria, mas sim à concepção de Maria no útero de sua mãe Ana, que segundo um evangelho apócrifo, chamado de Protoevangelho de Tomé, dá a entender que sua mãe, Ana, engravidou de seu marido, Joaquim, quando ele não estava em casa. Esta ausência não está clara no texto, muito menos como isto se deu, mas se for tomada ao pé da letra, leva-se a uma outra conclusão, e nada agradável... 

Como estamos tentando mostrar, a ideia da concepção virginal tem uma origem mais profunda em torno da mitologia do nascimento de seres especiais e assim transmite  a mensagem de que o sexo trata-se de uma questão de puro pecado. Eis o porquê de nem Jesus nem Maria poderem ter nascido de tal "pecado".

Imagine, então, se dariam direito a ele de ter irmãos? Ou se deixariam José vivo? 

6 comentários:

  1. Ocultaram o sagrado feminino na Santíssima Trindade Cristã, diferentemente da Santíssima Trindade Egípcia, a qual, salvo engano, foi a primeira trindade que temos notícia, que destacava a figura feminina da deusa Ísis, considerada a mãe por excelência. Acredito que a ocultação serviu para subjugar o feminino, já que por causa do mito Eva, a mulher passou a ser percebida como a instigadora do pecado original. Também tem a ver com a questão sexual... do sexo encarado como pecado, já que em meio ao divino, a conjunção carnal não poderia ser considerada por profanar a concepção do que possa ser sagrado, por consequência, o gênero feminino foi excluído da trindade. Enfim, interessantíssimo o seu artigo!

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  2. Liszt,
    Parabéns pelo Blog. O conteúdo é impactante e transformador. Muito bom! Agradecemos por compartilhar o seu conhecimento.

    Abraço fraterno.
    Paz e Luz!

    Mayra

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    1. Oi Mayra,
      é bom compartilhar o que já deveria ter sido.
      Para mim, é uma oportunidade de ampliar horizontes sem medo do que nos espera além do nevoeiro. Escrever para quem entende é melhor ainda!
      Obrigado pelo apoio!

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  3. Não poderia deixar de dizer o quanto essa temática me inquieta!
    Com todos esses questionamentos, interessantíssimos, sobre a vida de Jesus, é mesmo impossível não refletir sobre os fatos.
    E aí se compreende que tais “verdades”, as quais nos foram atribuídas por séculos, nada mais são do que o interesse primeiro de sobrepor o véu da ignorância sobre nossas mentes, para daí, nos manipular e sermos seguidores e multiplicadores de uma crença que nos puni e nos causa temor; e resulta daí pessoas fanáticas “limitadas” a raciocinar sobre certas verdades.
    Que interessante!!! Mas, para quem????
    O mundo está cheio de exemplos tristes dos frutos do fanatismo religioso não é mesmo?
    O fanatismo nada mais é do que uma fé cega que nada examina, aceitando sem controle o falso e o verdadeiro, no entanto, a cada passo se choca com a evidência da razão.
    Quando a fé se firma no erro, cedo ou tarde desmorona!
    Aquela que tem a verdade como base é a única que tem o futuro assegurado, porque nada deve temer do progresso do conhecimento.
    Por que esconder a verdade então, se Jesus, como Mestre admirável que foi, soube criar um clima de diálogo aberto, nos encaminhando ao entendimento LÓGICO, RACIONAL dos fatos!?

    Parabéns pelo trabalho!
    Abraços,

    Micheline Gonçalves

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    1. A maior desculpa dos acomodados é a de que estudar Hitória Antiga é lidar com algo vago, e defendem que é muito remota a chance de encontrarmos a verdade. Acredito que para o pesquisador sério e para o interessado sem preconceitos, só o fato de saber que existe uma "outra verdade", já não há mais nada remoto. Bem, resumindo é assim:"- Sabe como é, não sabe? Deixa como está e vamos nos preocupar apenas com a reforma íntima."
      Paciência!!! Se não temos coragem de saber o que há dentro do armário, como teremos coragem de reformar a mobília da casa? Nem sempre reformar adianta, muitas vezes é preciso jogar fora os móveis que nos deixaram na zona de conforto, enquanto a casa estava desmoronando.
      Um abraço e muito obrigado pelo apoio.
      Sigamos adiante!

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  4. Informações preciosas, muito grato. Luiz 2 :D

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