domingo, 17 de fevereiro de 2013

A cor da inveja

por Liszt Rangel
Amarelo de fome, vermelho de vergonha, branco de medo, ou então roxo de raiva e verde de inveja. Pois é isto mesmo! Na literatura de Shakespeare, Otelo expressa a cor verde para a inveja, mas independentemente da cor, a inveja é classificada como um sentimento, algo estruturado em raízes profundas.

Os invejosos sempre estiveram presentes nas maiores tramas da Humanidade. Na Mitologia, Caim e Abel, Set e Osíris. Na Música, Salieri está entre os suspeitos que adoraria mais do que qualquer um, a morte de Mozart. Na História, não se pode esquecer de Brutus que se encontra entre os assassinos de Júlio César. A este respeito, os psicanalistas encontrariam uma explicação freudiana que estaria na base do comportamento do rapaz, que não suportava o Imperador mantendo sua mãe como amante. É claro que há outras explicações, essencialmente políticas, mas a teoria estabelecida por Freud, chamada de Complexo de Édipo, teria uma forte influência no comportamento criminoso de Brutus, haja vista estar presente o desejo intenso de eliminar o rival que lhe roubava a atenção e o carinho da genitora.

Todavia, o Complexo de Édipo não se estabelece apenas no triângulo amoroso entre as figuras da mãe, do filho e do pai. Também se observa entre a menina rivalizando com  a mãe pelo amor e olhar do genitor. Alguns estudiosos chamam isto de Complexo de Electra. O Complexo ganha vias bastante complicadas quando não há lucidez dos envolvidos neste processo e geralmente o mal-estar adquire proporções de antipatia e até de ódio extremado. Não é raro ver-se mãe e filha que já adultas ainda rivalizam nos mínimos detalhes. As vezes podem ser amigas e gentis, vão juntas às compras, mas aqui e acolá sai uma colocação de recriminação, apontamentos no mais das vezes amargos e então, se detestam pelas coisas mais bobas, até do próprio cotidiano.

A filha pode ter palavras humilhantes em relação ao que a mãe pensa ou a forma como simplesmente ela se veste. Já a mãe, por outro lado, aproveita alguns insucessos e fracassos da filha para mostrar-se superior, ou até mesmo quando a filha está sendo o alvo da atenção, conquistando seu espaço, é comum nestes casos, aparecer por parte da figura materna comportamentos de silêncio e inclusive de ausência, apenas para não prestigiar o sucesso da menina, agora tornada mulher, que finalmente a ultrapassou.

A rivalidade entre os machos também existe em disputa do amor da mulher, "da rainha do lar". Os ataques são mais ferozes e não é raro partirem nesta disputa até para as agressões físicas. Há pais que estabelecem para seus filhos a "neurose de fracasso", ou seja, o filho, não será melhor do que ele (o pai), nem terá oportunidades maiores do que as que ele teve.   

Este comportamento ultrapassa a esfera familiar e não foi por acaso que a Igreja, através do papa Gregório I instituiu a Inveja como um dos pecados capitais. Inicialmente, entre os romanos Invidia era um comportamento que refletia inveja e ciúme. Mais tarde, passou a ser uma espécie de deusa popular que espalhava o seu veneno a todos que a cercavam. Atualmente, a inveja é vista pela psicanálise e pela psicologia como um sentimento típico de alguém que possui uma autoestima baixa e que é portador de uma grande falta de autoconfiança. Este sentimento pode ser gerenciado, mas comumente é agressivo, pois mostra-se primitivo em sua essência.

Observada pela psicanalista Melaine Klein, a inveja é facilmente identificada em bebês em tenra idade. A estudiosa percebeu que a atitude de sempre ter o peito da mãe à disposição gera no bebê não apenas a satisfação pela alimentação recebida, mas sentimentos de gratidão e paradoxalmente, a posse. Quando o seio da mãe encontra-se distante, ele grita, berra porque quer o objeto de seu interesse para morder, deslizá-lo em sua boca, sugar o máximo de vida da qual ele for portador. Ali começa uma fase de introdução para com tudo o que ele desejar, e quando não tiver, vai continuar desejando até tomar do outro, como ele um dia tomou da mãe o leite para ter prazer. O problema, portanto, mais uma vez estaria radicado no desejo. 

O jornalista e escritor Zuenir Ventura escreveu certa feita que, "Ciúme é querer manter o que se tem; Cobiça é querer o que não se tem; Inveja é não querer que o outro tenha". Pois bem, o invejoso sempre quer tirar o prazer do outro. A Melaine Klein usou a expressão "espoliar", ou seja, destruir, tirar a felicidade do outro, pois esta  o incomoda, o perturba profundamente. O invejoso não está preocupado em ter o que não pode ter. Ele não quer que o outro tenha. Este é o motivo de seu sofrimento! 

No mundo atual das celebridades, não é raro vermos este comportamento primitivo. A busca pela fama e pela visibilidade incitam o surgimento das marionetes da vaidade, verdadeiras vedetes do narcisismo quer na área da música, da política, do teatro, do sensacionalismo do reality show e do esporte. 

Os movimentos religiosos não escaparam deste mal e observa-se com pesar, indivíduos travestidos em posturas santas e missionárias, eivados da tola presunção da infalibilidade. Diante de companheiros que lhes serviriam como mão amiga, armam-se! Porque não se sentem confiantes, desconfiam de todos que possam  ameaçar roubar-lhes a cena. Surge a partir de então, os ataques àqueles que passam a ser vistos como rivais, relegando a um estado de mera utopia o que se sonhou um dia viver com o nome de fraternidade.

Vazios de conhecimento e portadores de orgulho que os adoece, agarram-se desesperadamente à produção artificial dos fenômenos tidos ainda como sobrenaturais, a fim de atrair os olhares dos desatentos que passam a admirá-los como profetas de uma nova era, verdadeiros fazedores de milagres. 

E assim vão, desfilando em seus carros alegóricos, aparentando o que não são e passam a se olhar  sob os olhares dos outros, que por sua vez estão tão perdidos e carentes quanto eles mesmos. Os antigos amigos tornam-se estranhos e adversários para ver quem será mais aplaudido, mais solicitado pelo público, mais elogiado. Pura ilusão que lhes rouba o discernimento! Pobres iludidos! Ao que parece, este mundo, do qual fazemos parte, de espíritos pobres ainda não compreendeu o sentido dos "Pobres em Espírito!"

Será que não mamamos o suficiente? Querer ter o prazer exclusivo, enquanto espolia o prazer do outro, é a regra do invejoso.

Somente o investimento na autoestima, na substituição do amor-próprio pelo autoamor, ao lado do resgate da autoconfiança serão capazes de promover a saída deste mundo primitivo em que a Humanidade estagia. O outro não é definitivamente nosso adversário, muito menos nosso rival na corrida por um lugarzinho ao sol. Ele é o nosso companheiro de viagem por mais imperfeito ou melhor do que nós ele nos pareça e também é merecedor das melhores oportunidades de crescimento, aquelas que ainda não conseguimos sonhar devido a nossa felicidade destruidora.

Bibliografia
KLEIN, Melaine. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1985  
   

8 comentários:

  1. É a inveja é negócio sério, rapaz!

    O invejoso se incomoda com tudo e não suporta a vida alheia. O que fazer nessa situação? ...a não ser prosseguir, pedindo a Deus iluminação para nós e ao irmão/irmã equivocado.

    Excelente texto! :)

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    1. A cor da inveja bem que podia ser púrpura, hein?
      A história da Roma antiga é envolta em situações onde a inveja para prevalecer.

      Liszt, na Roma antiga pode-se interpretar a busca pelo poder como impelida, entre vários motivos, pela inveja?

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    2. Oi Fernanda,
      não tenho dúvidas de que em qualquer civilização ou até mesmo em um pequeno agrupamento de pessoas, seja na antiguidade ou agora, (e o reality show está aí e não me deixa mentir) onde existir poder, concorrência e visibilidade, a serpente da inveja estará presente.
      A busca em Roma era também por prestígio e essencialmente pela melhoria na condição social. Tornar-se um cidadão romano era uma questão de berço. Você nascia romano ou então tornava-se um, quando podia comprar esta condição.
      Naturalmente, a disputa interna pelo poder proporcionava relações invejosas.
      Valeu pela contribuição.

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  2. Lembrei daquela poesia de Machado de Assis "Círculo vicioso", na qual o vaga-lume quer ser a estrela, a estrela - a Lua, e esta deseja ser o Sol, q quer ser apenas um vaga-lume.
    Nunca estamos satisfeitos com o q somos/temos.
    Mostra como o nosso amor e autoamor ainda são tão mesquinhos.

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  3. Liszt,
    realmente ainda nos deixamos envolver por estes sentimentos instintivos mencionados no texto. Parece originar-se no inconsciente, portanto não é fácil evitá-los. Seria bom, pelo menos, procurar identificar, quando surgirem em nós, para podermos impedir uma ação impulsiva, movida por eles.Penso que desta forma, é mais fácil gerenciá-los.
    Abraço!

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  4. Listz boa tarde, gostaria de saber como faço para adquirir os seus livros.
    Desde de já agradeço.

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  5. Oi Alessandra,
    em meu blog existe o local que indica o depósito em conta bancário. É só você me enviar um e-mail fazendo a solicitação.

    Obrigado!

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