quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Um Jesus na lapa... que veio a nós todos salvar?"

por Liszt Rangel
A questão apresentada nesses dois versos da canção, Noite Feliz, tem estreita ligação com os arranjos posteriores feitos pela Igreja. Essas concepções do nascimento na lapa, passando a ideia da pobreza mais uma vez, e acima de tudo ligando Jesus à promessa de um Messias Salvador tem a marca dos copistas gregos à serviço de uma religião chamada Cristianismo.


A lapinha tão "bonitinha" que ornamenta hospitais, praças, shoppings e o interior das residências cristãs, recebeu o nome de presépio. A ideia tomou forma, em verdade, no século XIII, quando Francesco da cidade de Assisi, na Itália, teria solicitado ao Papa Honório III para trazer ao povo do campo, naquele ano de 1223, na floresta de Greccio uma concepção mais simples do nascimento de Jesus. A cena teve traços sobrenaturais, aparecendo uma criança no colo de Francesco, e é supostamente atestada por Tomasso de Celano, um dos biógrafos do Santo, em 1229. Porém, vale salientar que há controvérsias sobre essa biografia. O vaticano afirma que os restos do presépio criado por ele, encontram-se, atualmente, na Igreja de Santa Maria Maior, em Roma.


Entretanto, acima da vontade ou da crença de Francesco paira uma teologia fundamentada em vários concílios ao longo dos séculos. A concepção de um Jesus Salvador teve que ser bem amarrada nas escrituras dos judeus, em especial nos antigos profetas que anunciaram a chegada do Messias. Foi nestes textos que a Igreja assegurou a fé no messianato de Jesus e para chegar ao tal presépio. É fácil observar este arranjo nos seguintes deslocamentos das passagens encontradas em Isaías, 1,3:

"O boi conhece o seu dono, 
e o jumento, a manjedoura de seu senhor,
mas Israel é incapaz de conhecer,
meu povo não é capaz de entender.


Percebe-se de forma nítida que a partir desta construção, sedimenta-se o presépio. Porém, algo começa a tomar forma, a se estruturar e esta passagem irá se alinhar, tornar-se uma amálgama ao lado de outras que servirão para evocar Jesus como o Messias, como o Servo Sofredor, e como Deus. (RANGEL 2013). Sim, porque os judeus chamam a Deus de O Senhor, então, a teologia cristã apropriou-se desta expressão também para referir-se a Jesus. Como se já não bastassem os dogmas, em especial, o da Divindade de Jesus e o da Santíssima Trindade, ele, Yehoshú'a, passa a desaparecer sem deixar vestígios e, gradualmente, nasce o Cristo da Fé.


A concepção de um Jesus que morre para salvar a Humanidade não surge do evangelho atribuído a João. Ela é bem mais antiga. A ideia do messias, na expressão de um judeu chamado Menahen, que levantou a esperança de um Consolador Prometido, tratava-se, também, de um revolucionário que após ser assassinado por Roma, seu corpo ficou ao relento por três dias. Os mesmos três dias que se repetem na ressurreição do Cristo da Fé. A crença em torno deste revolucionário que fora central na comunidade dos essênios do século II a.C. ao II d.C está bem descrita nos Manuscritos do Mar Morto.(RANGEL, 2013). 


Entre muitos argumentos que provam a pseudo-originalidade do evangelho atribuído a João, há o fato de tanto o rapaz quanto Pedro são tomados como analfabetos, segundo os Atos dos Apóstolos, 4,13. (RANGEL, 2008). E o consagramento do Jesus Salvador, assemelha-se ao Cordeiro sacrificado pelos judeus, daí o nascimento da expressão que visa marginalizar os judeus até hoje e culpá-los pela morte de Jesus, quando os cristãos chamam o Salvador de, O Cordeiro de Deus. Também não é difícil perceber que Jesus, de fato, é colocado pela Igreja como aquele que veio se sacrificar, derramar o seu sangue em favor da Humanidade, a fim de despertar a fé nele como Salvador, como se lê em João, 3,16:

"Pois Deus amou tanto o mundo,
que entregou o seu Filho único,
para que todo o que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna."

Então, sobram algumas perguntas básicas. Se Jesus foi o único Filho de Deus, os demais homens e mulheres são filhos de quem? E tem mais, e aqueles que nele não creem, irão para qual vida? Se não irão para a Eterna, acabarão com a efêmera? Ou seja, irão desaparecer com a morte?

BIBLIOGRAFIA: 

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

RANGEL, L. O Cristianismo de Yehoshú'a - A Busca Pelo Evangelho Perdido. Recife: Bom Livro, 2008

________, L. Jesus Além da Crença. Recife: Bom Livro, 2013.





3 comentários:

  1. Mais uma vez fico grata em ler estes textos, não que acredite, mas faz sentido.

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  2. Olá Viviane, conheça meu site onde publico artigos, reportagens e crônicas... www.lisztrangel.com.br
    Abraço!

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  3. Muito bom! Suas pesquisas são um incentivo ao pensamento crítico e à fé raciocinada.

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